O que falta para um acesso mais rápido ao diagnóstico de endometriose?

Sintomas comuns e dificuldades no acesso à saúde ajudam a explicar por que muitas mulheres demoram anos para descobrir a endometriose

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Cirurgião segurando modelo anatômico de patologias comuns. Conceito de câncer ou endometriose - Ginecologistas explicam os principais sinais de alerta da endometriose - Metrópoles
1 de 1 Cirurgião segurando modelo anatômico de patologias comuns. Conceito de câncer ou endometriose - Ginecologistas explicam os principais sinais de alerta da endometriose - Metrópoles - Foto: Peter Dazeley/Getty Images

A endometriose é uma doença ginecológica que afeta milhões de mulheres e pode causar dores intensas, alterações intestinais, desconforto durante a relação sexual e infertilidade.

Mesmo sendo relativamente comum, muitas pacientes levam anos para receber o diagnóstico correto. Entre os motivos estão sintomas que costumam ser confundidos com cólicas menstruais consideradas “normais”, além de dificuldades de acesso a exames especializados e a profissionais treinados para identificar a doença.

A condição ocorre quando células semelhantes às do endométrio, tecido que reveste o interior do útero, passam a crescer fora do órgão, podendo atingir ovários, intestino e outras estruturas da pelve. Esses focos reagem aos hormônios do ciclo menstrual e provocam inflamação e dor.

O ginecologista e obstetra Geraldo Caldeira, membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), explica que um dos fatores que atrasam o diagnóstico é o uso de anticoncepcionais, que podem amenizar os sintomas.

“Muitas pacientes usam pílula anticoncepcional para evitar gravidez e isso acaba mascarando os sintomas da endometriose. A cólica diminui, o fluxo menstrual fica menor e a paciente muitas vezes não percebe que há algo errado”, esclarece.

Segundo o especialista, a doença também está diretamente ligada à infertilidade feminina. “A endometriose é a maior causa de infertilidade feminina. Toda paciente que está tentando engravidar e não consegue precisa ser investigada para essa possibilidade”, diz.


Sintomas da endometriose

  • Cólica menstrual intensa que começa dias antes da menstruação e pode persistir durante todo o período de sangramento.
  • Dor profunda durante a relação sexual, que pode continuar como cólica mesmo após o ato.
  • Alterações intestinais ou urinárias que aparecem principalmente durante o período menstrual.
  • Sensação de distensão abdominal e desconforto digestivo.
  • Episódios de diarreia ou intestino solto durante a menstruação.
  • Dificuldade para engravidar ou infertilidade.

Exames que ajudam a identificar a doença

Depois da avaliação clínica, alguns exames são fundamentais para confirmar a suspeita de endometriose. O principal deles é o ultrassom transvaginal com preparo intestinal, que permite observar com mais precisão estruturas da pelve e possíveis focos da doença.

“O ultrassom transvaginal com preparo intestinal é o método de escolha para identificar a endometriose em diversas regiões da pelve, especialmente quando realizado por profissionais experientes”, explica o ginecologista Alexandre Pupo Nogueira, membro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).

Outro exame frequentemente utilizado é a ressonância magnética pélvica, que também ajuda a identificar focos da doença, aderências e comprometimento de outros órgãos. Geraldo aponta, porém, que esses exames exigem experiência e preparo específico para detectar lesões menores.

“Não é o ultrassom ginecológico de rotina que vai diagnosticar a endometriose. É um exame com preparo intestinal e feito por profissionais acostumados a identificar a doença. Em muitas cidades ainda existem poucos locais com essa especialização”, afirma.

Quando há cistos ovarianos associados à endometriose, chamados de endometriomas, o diagnóstico costuma ser mais simples. Já os casos em que a doença se manifesta em pequenas lesões ou em áreas menos evidentes podem ser mais difíceis de identificar.

Em algumas situações, a confirmação definitiva ocorre apenas por meio de cirurgia, quando o médico consegue visualizar diretamente as lesões e realizar biópsias para análise laboratorial.

Barreiras no sistema de saúde

Além da dificuldade de reconhecer os sintomas, especialistas apontam que o próprio funcionamento do sistema de saúde pode contribuir para o atraso no diagnóstico. Segundo Alexandre, o primeiro obstáculo é o acesso à consulta médica e a profissionais com formação adequada.

“O acesso à saúde no Brasil é bastante desigual e a formação médica também é heterogênea. É fundamental que o médico esteja atualizado e investigue ativamente os sinais e sintomas da endometriose”, afirma.

Outro problema é o tempo reduzido de consulta, especialmente em atendimentos vinculados a planos de saúde.

“Muitas consultas ginecológicas são marcadas com apenas quinze minutos de duração. Nesse tempo é muito difícil realizar uma investigação completa dos sintomas e fazer um exame adequado”, diz.

A realização dos exames necessários também pode ser um desafio. A ressonância magnética, por exemplo, é um exame de alto custo e nem sempre está facilmente disponível na rede pública ou nos planos de saúde.

O ultrassom especializado também depende de profissionais com experiência específica na identificação da doença, o que ainda é considerado um gargalo em muitas regiões.

Caminhos para melhorar o diagnóstico

Os médicos defendem que ampliar o acesso à informação e criar centros especializados podem ajudar a reduzir o tempo até o diagnóstico da endometriose. Para Alexandre, o Brasil já avançou bastante nesse campo, mas ainda há espaço para melhorias.

“O país tem um papel importante na pesquisa e no tratamento da endometriose. Já conseguimos reduzir o tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico, mas ainda precisamos ampliar o acesso à informação para pacientes e médicos”, destaca.

Uma das estratégias sugeridas é a criação de centros de referência dedicados ao diagnóstico e tratamento da doença, semelhante ao que já acontece em áreas como a oncologia.

“A endometriose é uma doença complexa e muitas vezes exige tratamento cirúrgico especializado. A primeira cirurgia é a mais importante e deve ser feita com o máximo de cuidado para evitar procedimentos incompletos ou repetidos”, explica.

Para os especialistas, ouvir com atenção as queixas das pacientes e ampliar o acesso a exames e profissionais especializados são passos fundamentais para que menos mulheres convivam durante anos com dor antes de receber o diagnóstico correto.

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