Wajngarten nega obstrução à PF e explica contato com família de Cid
Assessor de Bolsonaro prestou depoimento na sede da Polícia Federal nesta terça-feira (1º/7) por suposta tentativa de obstrução de Justiça
atualizado
Compartilhar notícia

O advogado e assessor do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Fabio Wajngarten, negou as acusações da defesa do ex-ajudante de ordens Mauro Cid de que ele teria interpelado a família do tenente-coronel na tentativa de fazê-lo trocar de advogados em meio à delação no âmbito das investigações sobre a trama golpista.
Wajngarten ainda afirmou que estuda mover uma ação de denunciação caluniosa sobre o caso. Ele e Paulo Cunha Bueno, também advogado de Bolsonaro, prestaram depoimentos na sede da Polícia Federal em São Paulo, nesta terça-feira (1º/7), por uma suposta obstrução de Justiça. Eduardo Kuntz, advogado de Marcelo Câmara, ex-assessor de Bolsonaro, também depôs à PF.
“Não fiz nada. Sempre ajudei as pessoas, fui um amigo das más horas. Quando o Cid foi preso, eu fui visitá-lo na cadeia em respeito à nossa relação. Iria de novo, se assim fosse necessário. (…) Em hipótese alguma houve tentativa de desorganizar ou atrapalhar qualquer investigação. Estou estudando medidas possíveis, inclusive de ação de denunciação caluniosa, contra quem quer que seja, por essa tentativa de intimidar a defesa do presidente”, afirmou Wajngarten em conversa com jornalistas depois do depoimento, que durou cerca de uma hora.
Segundo a defesa de Cid, os advogados teriam abordado a mãe, a esposa e uma filha do tenente-coronel para tentar convencer o principal delator do caso a mudar de advogado.
De acordo com Wajngarten, um dos contatos que ele teve com a família de Cid foi com o pai dele, o general Lorena Cid. O militar teria pedido ajuda para inscrever a neta, filha de Mauro Cid, em uma competição de hipismo em São Paulo, em agosto de 2023. Ele alega não ter conversado com nenhum familiar de Mauro Cid desde então.
“Uma coisa é tumultuar, atrapalhar, é obstrução de Justiça. Outra coisa é ser o amigo de quando precisa. Então, tem que separar as coisas. Não se pode confundir as coisas”, disse Wajngarten.
Ainda segundo o assessor de Bolsonaro, outros contatos feitos anteriormente com a família Cid foram no sentido de oferecer ajuda enquanto o ex-ajudante de ordens estava preso.
Depoimento na PF
Wajngarten foi o primeiro a chegar, depois Kuntz chegou acompanhado de seu advogado, Alberto Toron. Bueno foi o último a chegar, cerca de cinco minutos antes do início do depoimento, marcado para as 15h. Ele deixou a PF cerca de 40 minutos depois, sem falar com a imprensa. Os depoimentos ocorreram de forma simultânea.
Marcelo Câmara é investigado por ter monitorado o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e outras autoridades que deveriam ser detidas, caso o plano golpista se concretizasse.
Entenda o caso
- Os depoimentos foram determinados pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. A decisão foi tomada com base em documentos apresentados pela defesa de Mauro Cid.
- Segundo Moraes, os elementos juntados aos autos indicam, em tese, conduta que pode configurar crime previsto no artigo 2º, parágrafo 1º, da Lei das Organizações Criminosas (Lei 12.850/2013). O ministro considerou a oitiva dos advogados “pertinente, adequada e necessária”.
- O caso teve origem em um inquérito instaurado para investigar os advogados Luiz Eduardo Kuntz e Marcelo Câmara. No curso da apuração, a defesa de Mauro Cid apresentou declarações de familiares e documentos que relatam abordagens feitas por Kuntz, Wajngarten e Paulo Bueno a integrantes da família de Cid, mesmo após ele já ter firmado acordo de colaboração premiada homologado pelo STF.
- Entre os materiais entregues estão declarações assinadas pela esposa de Cid, Gabriela Ribeiro Cid; pela mãe dele, Agnes Barbosa Cid; e pela filha adolescente do militar, além do celular da menor, com autorização para acesso aos dados. A PF informou que o aparelho foi apreendido e que os dados estão em processo de extração e categorização, com laudo técnico previsto para ser entregue em até dez dias.
- De acordo com a defesa, os advogados teriam tentado entrar em contato com Mauro Cid por meio de sua filha, de 14 anos, enviando mensagens que sugeririam a exclusão de conteúdo do celular. Em uma das conversas, Kuntz teria dito que “toda segunda faz uma limpeza em seu celular”, em referência supostamente a práticas de ocultação de informações.
- Além disso, a esposa e a mãe de Cid relataram ter sido abordadas pessoalmente em ocasiões sociais, como na Hípica de São Paulo. Nesses encontros, segundo os relatos, os advogados teriam tentado convencê-las a interferir na estratégia de defesa adotada por Mauro Cid.
- Com base nessas informações, Moraes determinou também que o laudo técnico sobre o conteúdo do celular da filha de Cid seja anexado ao inquérito no prazo de dez dias. O inquérito segue sob sigilo, e os depoimentos de Wajngarten e Costa Bueno serão conduzidos pela PF como parte das diligências determinadas pelo Supremo.
