Única pomada para assaduras do SUS está zerada em UBSs da cidade de SP
A pomada é prescrita cotidianamente para crianças e “não tem substituto na rede pública”, segundo a pediatra Thais Tubero
atualizado
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A única pomada para assaduras ofertada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) está esgotada há alguns meses nas UBSs da cidade de São Paulo, segundo denúncias de pacientes, médicos e farmacêuticos. Remédios para tratamentos pediátricos, de saúde íntima feminina e até bombinhas para pacientes com problemas respiratórios também estão em falta em diversas unidades da cidade. Especialistas denunciam “projeto de desassistência da saúde”.
A pomada Óxido de zinco 150 a 250 mg/g + Retinol (vitamina A) + Colecalciferol é prescrita cotidianamente para crianças e “não tem substituto na rede pública”, segundo a diretora do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp) Thais Tubero. A pediatra afirma que, por mais barato que seja o remédio nas farmácias populares, o esgotamento representa “a cara do desfinanciamento da saúde”.
“Não tem como dizer que essa medicação de valor tão baixo não entra no orçamento. É um descaso. Estamos falando do quanto é sintomático algo tão barato ser ignorado. Não tem um substituto na rede. Vai ficar sem. Ou a família acessa por meios próprios, mas aí não cabe aos profissionais de saúde avaliar a realidade do outro”, desabafa a profissional.
O Metrópoles consultou a disponibilidade do produto no aplicativo E-SaúdeSP, da Prefeitura de São Paulo, e confirmou que a falta ocorre em toda a rede municipal de saúde. Além disso, um vídeo obtido pela reportagem mostra o estoque de uma UBS na zona sul da capital sem a pomada e com diversos outros medicamentos em falta. Nas imagens, é possível ver pelo menos 17 remédios diferentes zerados na unidade.
A doutora Thais Tubero acrescenta que, além da pomada, outros medicamentos ligados aos tratamentos pediátricos costumam faltar nas unidades básicas de saúde. Ela conta que vitamina D e antialérgicos também costumam faltar nas UBSs, e lamenta que diversos pacientes são prejudicados por um “projeto de desassistência da saúde”.
Falta de medicamentos é gradativa e geral
Aline Barbosa, técnica em enfermagem e diretora no Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindesp), afirma que quando ocorre a falta de medicamentos em uma UBS, “ela vai sendo gradativa e geral”. Ela aponta que, hoje, o número de remédios esgotados “é bem maior do que imaginávamos”.
“Quando o medicamento, ele falta em uma unidade, ele vai faltando sucessivamente nas outras unidades, porque o abastecimento é o mesmo, sai da mesma central. Ocorre que esse ambulatório que eu te mandei os vídeos, ele é sempre um dos últimos a acabar o medicamento, porque é um ambulatório que concentra um consumo médio mensal de medicamentos muito alto”, explicou Aline.
A profissional destaca que estão em falta cremes de saúde vaginal, os quais são fundamentais para o tratamento de infecções por fungos e bactérias. Os medicamentos ajudam no combate à vermelhidão no tratamento de doenças como a candidíase e a vaginose. O esgotamento desse produto na rede pública contribui para o tabu em torno da saúde íntima feminina, conforme especialistas.
Alguns produtos diuréticos, prescritos para pacientes com hipertensão, também estão em falta. Os medicamentos servem para estimular os rins a eliminar o excesso de sódio e água pela urina, sendo essenciais no tratamento da pressão alta, insuficiência cardíaca e problemas renais. De acordo com fármacos e médicos ouvidos pela reportagem, a falta desses remédios impacta diretamente no tratamento de doenças.
O que diz a prefeitura
Procurada pela reportagem, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), informa que acompanha o abastecimento de medicamentos nas unidades básicas de saúde. Segundo a secretaria, a pomada para assaduras que está esgotada em toda a rede está em processo de reabastecimento. A previsão é que o reabastecimento ocorra até o final desta semana.
A pasta foi perguntada sobre a falta dos demais medicamentos, mas não se pronunciou sobre o assunto. O espaço segue aberto para manifestação.