Unesp afasta dois professores após denúncias de assédio e estupro
Docentes de São José dos Campos foram afastados por 30 dias após denúncias de assédio. Ex-aluna relatou ter sido estuprada por professor
atualizado
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A Universidade Estadual Paulista (Unesp) afastou dois professores do campus de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, citados em denúncias de assédio sexual. Uma ex-aluna do curso de odontologia relatou ter sido estuprada por um docente no primeiro ano da graduação.
Os professores foram afastados no âmbito de dois processos de investigação preliminar instaurados pela direção do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) do campus, após o dia 30 de abril, para apurar os episódios registrados na ouvidoria da instituição. Os docentes não poderão participar de atividades acadêmicas por 30 dias, prazo que pode ser prorrogado conforme o avanço da apuração.
Ex-aluna denuncia ter sido estuprada por professor
Carolina Ferreira, de 21 anos, ex-aluna do curso de odontologia, denunciou ter sido estuprada por um professor no campus de São José dos Campos no primeiro ano de graduação. A jovem expôs a denúncia nas redes sociais.
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Sintomas acarretados pelo trauma fizeram com que ela trancasse a matrícula e relatasse o ocorrido aos pais. Em seguida, denunciou o caso à Unesp. Segundo a jovem, a universidade respondeu com “negligência”, afirmando que “nunca houve nada parecido”.
Carolina tentou voltar ao curso no ano seguinte, mas não conseguiu concluir a graduação por estar recebendo ameaças, conforme o relato. Ela contou, ainda, que não denunciou o episódio formalmente porque não tinha forças na época em que havia provas.
“Eu estava em choque, com medo, tentando apenas sobreviver. Hoje, restaria apenas a minha palavra contra a de um professor conceituado”, afirmou.
Após a repercussão do caso, estudantes da Unesp realizaram manifestações contra a instituição, na tarde dessa segunda-feira (4/5). Um ato foi feito na frente da reitoria da universidade, na região central de São Paulo, e outro no campus de São José dos Campos.
Carolina se posicionou novamente nas redes sociais, e publicou um vídeo demonstrando apoio às manifestações. Veja:
Em apoio às denúncias da egressa, a dentista Bárbara Hatje, formada pela Unesp São José dos Campos, endossou os relatos de Carolina. “Os assédios de professores, assédio físico, por mensagem, dentro de aula, abuso de poder, ameaças de todos os tipos, de reprovação, isso quando não reprovam de fato, são diários e de anos”, afirmou.
CROSP e OAB prestam apoio
A Comissão das Mulheres Advogadas (CMA) da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São José dos Campos manifestou repúdio aos relatos de abusos e denúncias de estupro envolvendo estudantes da Unesp.
“É absolutamente intolerável que o ambiente acadêmico, destinado à excelência e ao desenvolvimento humano, seja maculado por violências bárbaras que atentam contra a dignidade e a integridade psicofísica das mulheres. Esta Comissão reafirma que manterá vigilância ininterrupta sobre o caso, não admitindo qualquer retrocesso na apuração dos fatos”, disse a entidade em nota publicada nas redes sociais.
A comissão exigiu esclarecimentos da reitoria e da direção da universidade e parabenizou as vítimas pela formalização das denúncias.
“Reconhecemos o peso emocional e social desse ato e reiteramos nosso apoio incondicional a cada uma das mulheres atingidas. Vocês não estão sozinhas. Esta instituição se coloca como escudo e voz em defesa de seus direitos, garantindo que sua bravura não seja respondida com indiferença, mas com a busca incessante por justiça e reparação”, diz o texto.
O Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) também se manifestou sobre o caso. A entidade afirmou acompanhar “com atenção e profunda preocupação os fatos recentemente divulgados envolvendo possível situação de violência no ambiente acadêmico”.
“No âmbito de suas atribuições legais, o CROSP não se omite: é responsável por fiscalizar o exercício profissional e apurar infrações éticas envolvendo cirurgiões-dentistas e demais inscritos, podendo instaurar os procedimentos éticos cabíveis sempre que houver indícios de violação ao Código de Ética Odontológica”, afirmou a entidade, também em nota publicada publicada em rede social.
O que diz a Unesp
Em nota, a Unesp informou que “tem acompanhado, com atenção e responsabilidade, as manifestações organizadas por estudantes, motivadas por relatos de situações de assédio”.
A universidade reiterou o repúdio a qualquer forma de assédio, reafirmou o “compromisso permanente com a promoção de um espaço acadêmico seguro, respeitoso e acolhedor para toda a comunidade”, e se solidarizou “com todas as pessoas que possam ter vivenciado situações de desrespeito e abuso”.
“Solidarizamo-nos com todas as pessoas que possam ter vivenciado situações de desrespeito e abuso. Informamos que a Universidade dispõe de canais institucionais adequados para acolhimento, orientação e encaminhamento dessas ocorrências, garantindo tratamento com sigilo, imparcialidade e possibilidade de anonimato. As denúncias podem ser formalizadas por meio da Ouvidoria Geral da Ouvidoria Local e Direção da Unidade”, afirmou a instituição.
A Unesp ressaltou, ainda, que “ todos os casos devidamente registrados são apurados, em conformidade com as normas institucionais e a legislação vigente, com a adoção das providências cabíveis”.
