
Tarcísio se afasta aos poucos do bolsonarismo enquanto flerta com 2030
Governador deu declarações que contrariam manifestações recentes da família de Jair Bolsonaro (PL) e tem feito discursos nacionalizados

Anunciado em fevereiro deste ano como o futuro coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem se afastado aos poucos do campo bolsonarista, enquanto flerta com a ideia de ser o candidato da direita em 2030.
Desde que a campanha começou oficialmente, no último domingo (16/8), Tarcísio deu uma série de declarações que contrariam discursos recentes da família de Jair Bolsonaro (PL) e tem evitado falar sobre a candidatura de Flávio, apesar de abordar pautas nacionais com os eleitores. As atitudes vêm gerando incômodo entre bolsonaristas.
Um deputado estadual do PL em São Paulo disse ao Metrópoles, sob reserva, que falta empenho do governador para eleger o filho 01 de Bolsonaro. Para ele, o apoio de Tarcísio e do Republicanos a Flávio no estado é decisivo para uma vitória na disputa presidencial: “Se não abrirmos distância em São Paulo, complica”, afirmou.
Na quinta-feira (20/8), Tarcísio faltou à primeira agenda de Flávio na capital paulista. Enquanto o presidenciável visitava um mercado popular e uma escola de futebol na zona leste da cidade, Tarcísio participava de uma sabatina com jornalistas da Rádio CBN, e dos jornais Valor e O Globo, na zona oeste.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPA agenda de Flávio na zona leste foi feita em conjunto com o prefeito Ricardo Nunes (MDB), que tem feito a interlocução do senador com o eleitorado paulistano. Apesar de Nunes ser próximo a Tarcísio, um aliado do prefeito afirmou à reportagem que o emedebista tem atuado na campanha de Flávio por decisão própria, e não a pedido do governador. Tarcísio almoçou com os dois após sair da sabatina.

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Frequência de envio: Diário
Ver todasNeste fim de semana, os candidatos estiveram juntos em agendas pelo interior paulista. Na Festa do Peão de Barretos, no sábado (22/8), Tarcísio fez seu maior afago público ao presidenciável até este momento, chamando Flávio de “herdeiro do projeto Bolsonaro”.
“Não tem como eu estar aqui e não lembrar da primeira vez, da emoção que foi entrar nessa arena com o presidente Jair Messias Bolsonaro. Uma pessoa que me abriu todas as portas, que sempre vai ser importante para mim e a quem eu devo toda a minha gratidão. O presidente não está aqui conosco, infelizmente, mas hoje está aqui conosco o Flávio, que herdou valores, a mesma coragem de defender o agronegócio e de defender o Brasil”, disse Tarcísio no palco do evento.
Em outras situações, quando questionado sobre a candidatura de Flávio, o governador alegou que São Paulo terá mais avanços caso o senador seja eleito porque haverá mais sintonia do estado com o governo federal.
Ainda assim, seus discursos da última semana têm ido na contramão daqueles defendidos pelo bolsonarismo. No evento de largada de sua campanha, um encontro com mulheres em Osasco, Tarcísio disse ser contra o encarceramento em massa de detentos.
Flávio, por outro lado, tem repetido com frequência que quer implantar o modelo imposto por Nayib Bukele em El Salvador, que funciona com base no encarceramento em massa de suspeitos. Ao ser questionado sobre a tática salvadorenha na última quinta, Tarcísio disse que é preciso olhar qual o cenário brasileiro, e que falar de Bukele é falar sobre a necessidade de enfrentar o crime.
“Quando a gente traz essa questão do Bukele, de El Salvador, do que a gente está falando? Da atitude que o estado tem que ter de enfrentamento ao crime. É um pouco o seguinte: ‘Se o Estado quer resolver um problema, ele resolve um problema’.”
Também na quinta, o governador defendeu as urnas eletrônicas. “Eu confio absolutamente na segurança das urnas. Isso não é mais pauta, não deve ser”, afirmou, apesar dos ataques de Flávio e do próprio ex-presidente Jair Bolsonaro ao modelo.
Em outra entrevista na mesma semana, Tarcísio evitou se colocar como um candidato bolsonarista, dizendo que tinha identificação com valores do grupo, mas que “rechaça” o que não faz sentido.
“Eu me identifico sim com o bolsonarismo, [mas] é lógico que a gente sempre rechaça aquilo que não faz sentido. Veja o esforço que nós fizemos aqui em São Paulo para elevar a cobertura vacinal”, disse ele. No início de agosto, Eduardo Bolsonaro (PL) se manifestou contra a obrigatoriedade das vacinas.
“Flávio depende de Tarcísio”
O candidato à reeleição tem citado o nome de Flávio em discursos e entrevistas menos do que o esperado por políticos bolsonaristas e, na maioria das vezes, somente quando é questionado. Em 2022, quando o ex-ministro de Bolsonaro ainda era um nome desconhecido do eleitor paulista, o nome do então presidente era citado com frequência por ele.
No último debate antes do segundo turno daquele ano, Tarcísio iniciou o programa defendendo Bolsonaro e repetindo promessas do candidato que, mais tarde, perderia a eleição para Lula.
Cientista político e professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marco Teixeira afirma que a campanha encabeçada por Tarcísio agora é completamente diferente de 2022, quando ele dependia do bolsonarismo para vencer a eleição.
Desta vez, diz o professor, a situação se inverteu. “O Flávio depende hoje, para alavancar [nas pesquisas], de uma proximidade grande do Tarcísio”, afirma o cientista político.
Teixeira diz que o cenário faz com que Flávio não possa criticar abertamente a postura do governador, ainda que possa estar incomodado com ela. Outro problema para o presidenciável é o fato de que a aliança formada por Tarcísio em São Paulo tem partidos que não apoiam Flávio para o Palácio do Planalto, como o PSD. O próprio Republicanos se mantém neutro na disputa presidencial.
Discurso nacionalizado
Enquanto isso, o governador tem feito uma campanha em que mescla pautas estaduais com um discurso nacionalizado. Nas agendas, Tarcísio já disse que é preciso acabar com a bet “ou a bet vai acabar com o Brasil”; defendeu uma reforma política com fim da reeleição e criação do voto distrital; e criticou a política econômica de Lula, dizendo que o país poderá ser alvo de uma recessão em breve.
O vídeo de lançamento de sua candidatura chamava Tarcísio de “um exemplo para o Brasil”, destacando as conquistas do governador no estado.
Membros da campanha de Tarcísio dizem que ele tem, sim, ajudado Flávio, tendo opinado sobre o plano de governo, por exemplo, e negam que o governador esteja nacionalizando o discurso. “O governador está focado em São Paulo. Ainda que pontualmente sempre seja questionado sobre assuntos do Brasil, principalmente em suas reuniões com o mercado financeiro”, disse um interlocutor ao Metrópoles.
Para Teixeira, a postura do governador nesta campanha tem relação direta com a intenção de se candidatar em 2030. “Não por acaso, o Tarcísio falou [em uma entrevista] que o Flávio deve cumprir a promessa de acabar com a reeleição. O projeto Tarcísio 2030 depende de duas coisas: ou que o Flávio não ganhe ou que, se ganhe, não seja candidato à reeleição”, afirma o cientista político.
















