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Sé vira quartel, Cracolândia segue o fluxo, e miséria se espalha pelo centro de SP

Praça da Sé tem canteiros cercados e concentração de policiais, Cracolândia continua caótica, e problemas sociais assolam o centro de SP

atualizado

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William Cardoso/Metrópoles
Imagem mostra pessoas dormindo no chão em frente a monumento - Metrópoles
1 de 1 Imagem mostra pessoas dormindo no chão em frente a monumento - Metrópoles - Foto: William Cardoso/Metrópoles

São Paulo — A Praça da Sé tem hoje mais gente fardada do que cidadãos comuns e virou um quartel, com seus canteiros cercados. Os cachimbos da Cracolândia seguem o fluxo como sempre, com mais de mil usuários de drogas por dia, sem grande oscilação. Enquanto isso, a miséria se espalha e brota em todos os cantos do centro de São Paulo.

A expressão “basta andar pelas ruas” para enxergar as mazelas da cidade sempre faz sentido e no inverno de 2023 não é diferente. Durante o dia ou à noite, qualquer um que caminhe pela região central encontra dependentes químicos, pessoas em situação de rua, sujeira e escombros do que já foram, no passado distante, os bairros mais desejados da capital paulista.

A pandemia acentuou o processo de degradação do centro, que se desenrola há décadas. No pós-Covid, as ruínas ficaram ainda mais evidentes, com comércio de portas fechadas e cenas abertas de conflito extremo, apesar da presença ostensiva de policiais militares (PMs) e guardas-civis metropolitanos (GCMs).

“A Praça da Sé, hoje, é o pátio de um quartel. Tanto que você vê que, diante das escadarias da catedral, tem uma viatura da GCM e outra da PM. Todos os dias”, afirma o padre Júlio Lancellotti. “É um movimento de limpeza da região central para dar a impressão de que está tudo equacionado, mas não está”, frisa. Mais do que questões estéticas, o padre diz que é preciso restaurar, primeiro, a vida das pessoas.

“Isso, consequentemente, restaura a cidade. Querem restaurar a cidade sem respeitar as pessoas.”

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Uma família de Uberlândia (MG) aproveitou para conhecer a Sé, e o filho mais velho até sacou o celular para fazer fotos na última semana. “Eu me senti seguro. Vou levar uma boa impressão”, disse o pai, o engenheiro Tales Moraes, de 37 anos, que chegou a ir três vezes à praça anteriormente, mas em todas desistiu de descer do carro por aplicativo por não ter certeza de que seria uma boa ideia.

Os problemas, entretanto, não se resolvem num passe de mágica e o padre dá a dica sobre o que está acontecendo. Parte dos que viviam anteriormente na Sé estão agora pelos arredores ou migraram para a Baixada do Glicério, Rua Riachuelo, entre outros endereços, como o Metrópoles já havia notado. A visão é compartilhada por muitos agentes de atenção social, que acompanham a movimentação da população de rua.

A 200 metros da Sé, o local onde a cidade nasceu continua com o chão forrado de pessoas enroladas em cobertores todas as noites. A população em situação de rua tem, no Pateo do Collegio, um dormitório gelado, e o granito do Monumento Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo como companhia.

Imagem mostra mapa da região central de SP

Quem vive nas ruas da capital paulista sente a indiferença de grande parte da população. Jesus Prado, 54 anos, tocava flauta na última semana em frente a uma das entradas da Estação República, do Metrô, contando com doações de quem passa por ali.

Prado está há 17 anos em situação de rua. Bem articulado, ele lamenta a indiferença da sociedade. “Quando tinha vida social, eu não pensava nisso, na situação das pessoas. Quando vejo as pessoas indiferentes, inclusive nossos governantes, eu tenho pena deles”, diz. “Vivo aquilo que ignorava um dia. Talvez a pessoa não venha a padecer na calçada, mas existem coisas piores”, pondera.

O fato é que pessoas, estejam em situação de rua ou sejam também dependentes químicas, circulam pela região central como um todo. Na última terça-feira (18/7), por exemplo, a reportagem cruzou com um mesmo homem durante abordagem social na Rua Prates, por volta das 15h30, e depois, às 18h30, na Praça Marechal Deodoro, distante mais de 3 km, onde ele tomava sopa oferecida pela administração municipal na Operação Baixas Temperaturas. Dezenas de pessoas enfrentavam a mesma fila.

Nos dias gelados desta última semana, o Metrópoles presenciou muitos sem-teto nas ruas aceitando o acolhimento oferecido por profissionais da atenção social.

Pesadelo

As vendas em uma loja de instrumentos musicais na Rua dos Gusmões só se sustentam porque existe o comércio pela internet. Se dependesse do comparecimento presencial da clientela, já teria fechado as portas, como muitas outras no epicentro do crack. Isso é o que conta um vendedor de 36 anos.

“No fim, você só pensa assim: ‘Quero acordar e não ter mais esse problema’. Não sei qual é a solução. Já passamos aqui por todas as fases”, relata.

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Apesar do cenário caótico que espanta clientes, o vendedor explica que a relação com os dependentes se desenrola com certo grau de respeito mútuo em alguns momentos. “Muitos falam: ‘Eu não queria estar aqui, mas não sei onde ficar'”, diz. Ele conta também que, se há crianças circulando por perto, logo se ouve o grito de “ó, o anjo”, e os cachimbos dão trégua por alguns instantes.

São comuns as imagens de arrombamento de portas dos estabelecimentos comerciais, com o grupo de usuários de drogas levando tudo que vê pela frente. Mas, em alguns momentos, dependentes do crack viram eles próprios os clientes das lojas. No caso dessa da Rua dos Gusmões, eles vão atrás de caixinhas de som. “Entram e compram com dinheiro, não pechincham. Só pedem a nota fiscal, porque, se a polícia parar, podem ter problema”, pontua.

A cena que cerca a conversa com o vendedor, na rua coalhada por viaturas da PM, é caótica. Nela, um funcionário da prefeitura tenta resolver o problema — estético — pintando a guia de branco. Usuários de crack circulam freneticamente pelo asfalto em direção ao fluxo, a 100 metros dali.

No lado oposto da Avenida Rio Branco, parte das lojas de peças de motocicleta foi lacrada após operações policiais. Vez ou outra, o fluxo de usuários de droga também se instala por lá. Há uma década, mesmo já decadente, era um lugar fervilhante. Hoje, está esvaziado, e alguns comerciantes relatam o combinado com os proprietários dos imóveis: pagam aluguel mês sim, mês não.

Você, amanhã?

No meio da semana, o governador Tarcísio Freitas (Republicanos) surpreendeu até o prefeito Ricardo Nunes (MDB) ao dizer que levaria o fluxo da Cracolândia, hoje na Rua dos Gusmões, para a Rua Prates, no Bom Retiro, onde fica um complexo de serviços de atendimento a dependentes químicos e moradores de rua. A ideia evaporou em poucas horas e houve o recuo.

A decisão de Tarcísio desagradou a judeus, coreanos, bolivianos, conservadores e progressistas, que compõem o panorama multicultural do Bom Retiro. Da Casa do Povo, fundada pela comunidade judaica no pós-guerra, à Associação Brasileira dos Coreanos, todos apontaram a falta de diálogo com quem vive por lá.

Separado da Santa Ifigênia e dos Campos Elíseos pelos trilhos da Luz, o fato é que o Bom Retiro já sofre com respingos da miséria e da violência que atinge a região central como um todo.

Logo na entrada do bairro, as grades do Parque da Luz dão sustentação às barracas da população de rua, parte dela também usuária de crack.

“Já aconteceu várias vezes de chegar em casa e ter gente dormindo na porta”, conta a comerciante Carol, 46 anos, que vive na Prates.

“Em 20 anos que moro em São Paulo, nunca tinha sido roubada. No último ano, foram quatro vezes, todas aqui”, diz.

Governo e prefeitura

O governo estadual alega que, desde o início da atual gestão, tem ampliado as ações de assistência e saúde aos usuários de drogas, além de ter intensificado as atividades de policiamento preventivo e ostensivo. “Um novo HUB de cuidados em crack e outras drogas foi implantado na região e, desde então, mais de 5 mil atendimentos já foram realizados na respectiva unidade”, anuncia, em nota.

Com “hub” que simula metrô, SP lança novo plano contra Cracolândia

Segundo o governo, mais de 2,5 mil pessoas em situação de vulnerabilidade foram acolhidas nos serviços assistenciais para tratamento da dependência, sendo que 1,6 mil estão em abrigos e/ou casas de passagem, e outras 900 em comunidades terapêuticas.

A gestão Tarcísio assegura que coloca 120 policiais militares no efetivo operacional para patrulhar toda área central a pé e por motocicletas, além do estacionamento de viaturas em locais de maior incidência de crimes.

Cita também a ferramenta “Cenas Abertas de Uso Entorpecentes”, que mapeia a evolução criminal e a produtividade policial na região. “O aumento das operações policiais resultou na ampliação de 72,3% do total de prisões na região central em comparação com o mesmo período de 2022. Além disso, houve queda de 7,7% nos roubos e 7,3% nos furtos na área da 1ª Seccional”, diz.

O governo ainda informa que realiza reuniões setoriais com órgãos envolvidos.

A Prefeitura de São Paulo ressalta que a reorganização da Praça da Sé faz parte de um plano da administração regional para requalificar os principais pontos do centro, “ação que está sendo expandida até que se atinja a totalidade da região”. “É um trabalho constante, complexo e está caminhando gradativamente”, afirma, em nota.

Entre os pontos, a administração municipal cita a Praça do Patriarca, Pateo do Collegio e o Theatro Municipal. “Além disso, foi criada a Operação Centro-Limpo, com coleta diferenciada no Centro Novo e Velho de São Paulo, onde, numa nova forma de gestão, as empresas passam várias vezes por dia fazendo a coleta de resíduos”, anuncia.

A prefeitura diz que combate a “Feira do Rolo” e o comércio ambulante ilegal. Afirma ainda que realiza atendimentos emergenciais e serviço de abordagem para pessoas em situação de rua.

A administração cita uma série de programas realizados, como o Redenção, de atendimento a usuários de drogas em situação de rua. Também destaca que, só neste mês, fez 6.148 abordagens e 3.435 encaminhamentos para acolhimento. Por fim, assinala que, desde 2017 até o momento, foram entregues mais de 35 mil moradias na capital, entre outras ações.

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