Peritos de SP dizem não ter orçamento e ferramentas para investigações

Perícia em celulares bloqueados está severamente ameaçada pela não renovação de ferramentas. Cadeiras e mesas também estão em falta

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Governo de SP.
Viatura da Polícia Científica de São Paulo. Sem orçamento, perícia de SP não tem ferramentas para investigações. - Metrópoles
1 de 1 Viatura da Polícia Científica de São Paulo. Sem orçamento, perícia de SP não tem ferramentas para investigações. - Metrópoles - Foto: Governo de SP.

A Polícia Científica de São Paulo está sem ferramentas para atender a maior parte das demandas planejadas para 2026 – como já ocorreu em 2025 e deve se agravar neste ano. Os agentes da perícia não têm meios suficientes para desbloquear celulares e extrair dados de aparelhos apreendidos, o que atrapalha o andamento das investigações.

Segundo o Sindicato dos Peritos Criminais do Estado (Sinpcresp), a não renovação das licenças necessárias é uma decisão que partiu da gestão orçamentária do governo paulista, sob a gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Até mesmo mesas, cadeiras e periféricos, como tomadas e adaptadores, estão em falta para a corporação.

No início de dezembro, o governo paulista comemorou a contratação de 177 novos peritos criminais — a segunda maior turma em 15 anos e  que atenderia uma demanda urgente de mão-de-obra.

Paralelamente, o Núcleo de Perícias de Informática (NPI) apontou à Divisão de Administração e à Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC) que a falta de mesas e cadeiras impede o recebimento de novos peritos.

Governo Tarcísio foi notificado de limitações orçamentárias

O governo do estado foi notificado das necessidades da Polícia Científica e dos problemas orçamentários em ao menos três momentos.

A primeira notificação ocorreu ainda em 2024, quando as solicitações indicadas pelos Documentos de Formalização de Demandas (DFDs) foram encaminhadas dentro do prazo legal e incluídas na proposta de orçamento elaborada naquele ano para o exercício do ano seguinte.

Em 30 de junho de 2025, a Divisão de Administração formalizou em processo que a dotação orçamentária disponibilizada para a Superintendência da Polícia Técnico-Científica na LOA do ano era insuficiente para atender à maior parte das demandas. O alerta foi reiterado pelo Gabinete da Superintendência, em 1º de julho.

E, no último 23 de dezembro, foi realizada uma reunião com a Coordenadoria de Planejamento, Orçamento e Finanças Públicas da Secretaria de Segurança Pública (SSP).

No encontro, foi informado que as tentativas de abertura de crédito suplementar para manter softwares essenciais haviam fracassado e que não houve autorização para a liberação de recursos adicionais.

Como resultado da reunião, o processo foi restituído ao Núcleo de Perícias de Informática em 29 de dezembro. O objetivo é que o setor elabore um “projeto estruturado” focado em viabilizar a expansão gradual do orçamento nos anos seguintes.

Segundo o Sinpcresp, “os pedidos foram feitos, os processos tramitaram internamente e os alertas sobre o impacto na segurança pública foram dados previamente, conforme o processo. Mesmo ciente do risco, o governo optou por reter os recursos”.

Impossibilidade de desbloquear celulares

A situação da perícia paulista se agravou ainda mais nesta sexta-feira (16/1), em que venceu, simultaneamente, licenças de softwares forenses essenciais. Sem eles, os peritos ficam impossibilitados de desbloquear aparelhos celulares apreendidos.

A expectativa da corporação é que o fim das licenças reduza praticamente a zero as análises em aparelhos móveis na cidade de São Paulo e em algumas cidades da região metropolitana. No interior do estado, a situação deve ser ainda mais grave.

Para outras ferramentas vitais, cujas licenças venceram em 30 de dezembro de 2025, o cenário é de obsolescência programada. Isto é, elas continuarão funcionando, mas sem atualizações, “tornando-se inúteis contra celulares e aplicativos lançados recentemente”, informou o sindicato.

Diante da situação, o Sinpcresp orienta aos peritos que registrem nos laudos a “impossibilidade técnica” de realizar o exame. “Assim, o profissional se preserva juridicamente diante da falha do estado em produzir provas necessárias para que a Justiça seja feita”, argumentou a entidade.

Instituição executou apenas 6% do valor planejado

O orçamento inicial programado para o biênio (2025-2026) do NPI era de pouco mais de R$ 45,3 milhões – o que passou para R$ 43 milhões mais tarde.

No entanto, segundo o Núcleo de Finanças da instituição, foi possível concretizar apenas a renovação de 12 unidades de um software com o orçamento disposto na Lei Orçamentária Anual (LOA), no valor de R$ 2,7 milhões.

Com isso, a diferença entre o valor planejado e o executado resulta em um déficit superior a R$ 40 milhões em projetos não atendidos para o ano.


Ferramentas em falta

Entre as ferramentas em falta para o devido andamento das investigações, o NPI aponta:

  • Créditos de desbloqueio e renovação Inseyets – Cellebrite: sem isso, os peritos ficam impossibilitados de desbloquear celulares que têm senha.
  • Renovação XRY: sem a ferramenta, a extração de dados de dispositivos eletrônicos é “severamente” prejudicada.
  • 12 aparelhos ar-condicionado: são necessários para conservar equipamentos essenciais. Sem o resfriamento de temperatura, pode haver falhas nas máquinas, perda de processamento de dados e diminuição do tempo de vida útil dos dispositivos.
  • 800 SSDs 1TB SATA: sem os SSDs, não é possível atualizar ou repor mídias de trabalho das apurações forenses. Isso aumenta o tempo de conclusão de perícias e limita o escopo das extrações.
  • 120 estações de trabalho: sem elas, a capacidade de processamento de análise de grandes volumes digitais será severamente reduzida. Por outro lado, aumenta a resposta às demandas judiciais.
  • Cadeiras e mesas: sem os itens, a sala de trabalho não opera plenamente, o que aumenta a cadeia de custódia de aparelhos celulares que estão sendo desbloqueados.
  • Periféricos e ferramentas para perícia de informática: a falta desses equipamentos impossibilita a execução de diversos exames, uma vez que muitos procedimentos dependem de adaptadores, leitores e ferramentas específicas para análise de mídias digitais.

“Passe livre para o crime organizado”

O perito criminal e presidente do Sinpcresp, Bruno Lazzari de Lima, afirma que o cenário representa “um desmonte deliberado da inteligência policial”.

“O governo está, na prática, entregando um passe livre para o crime organizado, para redes de pedofilia e para estelionatários. Estão dizendo que a vida e o patrimônio do cidadão paulista não são prioridade”, disse.

O sindicato destaca que, sem a prova digital, “a materialidade do crime simplesmente desaparece”. “Casos de fraudes bancárias, tráfico de drogas coordenado por aplicativos de mensagem e a perseguição de criminosos sexuais que se escondem na internet ficarão sem solução, levando à impunidade”, destacou a entidade.

Segundo Lazzari, a categoria tem um “sentimento de abandono”. “É um sucateamento que beira o absurdo. Nossos peritos são alguns dos mais qualificados do país, mas estão sendo forçados a lutar com as mãos amarradas. De que adianta a Polícia Militar prender e a Civil investigar, se o estado se recusa a financiar as ferramentas para provar o crime?”, declarou o presidente do sindicato.

O que diz o governo do estado

Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) esclarece que foi executado mais de 90% do orçamento destinado à Superintendência de Polícia Técnico-Científica (SPTC) no ano de 2025, quando foram disponibilizados R$ 100,3 milhões por meio da Lei Orçamentária Anual (LOA). Deste total, R$ 92,4 milhões foram empenhados priorizando a manutenção dos serviços e o reforço dos investimentos realizados nos últimos anos, com destaque para obras de modernização nos Institutos Médico Legal e de Criminalística em municípios do interior e da Grande São Paulo, além da inauguração do maior laboratório de genética forense do país e o maior centro de balística da América Latina.

Para 2026, a Lei Orçamentária Anual (LOA) prevê R$ 97,8 milhões em despesas correntes, compatível com às demandas e custos operacionais. Além disso, o valor também irá contemplar investimentos em equipamentos, tecnologias e ferramentas voltadas ao fortalecimento do trabalho pericial, com foco na modernização dos laboratórios e na ampliação da capacidade técnico-científica da instituição.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comSão Paulo

Você quer ficar por dentro das notícias de São Paulo e receber notificações em tempo real?