Ofensiva de Kassab abre crise e vice de Tarcísio pode trocar de sigla
Filiação de sete deputados ao PSD incomodou partidos no entorno de Tarcísio. Desejo de Kassab por vice pode forçar Ramuth a trocar de sigla
atualizado
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A ofensiva do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, que anunciou a filiação ao seu partido de seis dos atuais oito deputados do PSDB na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), abriu uma nova crise entre o cacique e os outros partidos da base do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
De acordo com fontes do Palácio dos Bandeirantes, o movimento do PSD – que com os novos egressos passa a ser o segundo maior partido da base na Alesp, atrás apenas do PL – irritou o governo e os presidentes nacionais das legendas do arco de alianças de Tarcísio, como o MDB, Podemos, PP e o próprio Republicanos.
“Ele [Kassab] sempre foi assim. Criou o PSD dizimando o PFL – que teve de mudar de nome para DEM – para tentar se reinventar”, afirmou ao Metrópoles o deputado federal Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos.
A iniciativa de Kassab de cooptar deputados tucanos para o PSD replica a estratégia já utilizada nos últimos anos para aumentar sua bancada de prefeitos, atraindo à legenda chefes de Executivos municipais eleitos pelo PSDB, na esteira da debandada vivida pelo partido.
“Já era um movimento esperado. A forma de trabalho do PSDB tem semelhanças ao PSD. O PSD vem crescendo em nível nacional, enquanto o PSDB tem diminuído”, avalia um articulador próximo a Tarcísio.
Para outro aliado, Kassab foi competente ao enxergar o “buraco” deixado pelo PSDB, o que naturalmente incomodou outros partidos, que enxergam o uso da máquina pelo cacique em prol do projeto de seu próprio partido. Além de presidente nacional do PSD, Kassab é secretário de Governo e Relações Institucionais do Governo de São Paulo.
“Ele construiu uma narrativa de que ele é o novo PSDB de São Paulo, porque ele tem a história de São Paulo. E a turma está acreditando nisso“, relata um interlocutor de Tarcísio.
Republicanos
Nos bastidores, aliados de Kassab relatam que, em resposta ao movimento, o Republicanos teria passado a assediar quadros do partido do PSD, buscando atraí-los para o partido em troca de cargos no governo Tarcísio. A informação é negada por Marcos Pereira. “Não procede. Ao contrário do Kassab, que tem buscado quantidade, o Republicanos busca qualidade”, disse.
No mês passado, Tarcísio anunciou como novo chefe da Casa Civil o presidente estadual do Republicanos, Roberto Carneiro, o que foi lido pelo grupo de Kassab como forma de o Republicanos “disputar” com o PSD o protagonismo na articulação política do governo, especialmente na relação com prefeitos e deputados.
Outro elemento de insatisfação dos partidos do entorno de Tarcísio com Kassab é o fato de o PSD manter a posição de lançar candidato próprio à Presidência da República e, com isso, não garantir seus palanques à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), apoiada pelo governador paulista.
Além disso, Kassab conseguiu atrair para seu partido os três principais pré-candidatos da direita ao filiar o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que se juntou aos também pré-candidatos Ratinho Jr. e Eduardo Leite.
Impasse sobre vice
A crise na relação entre Kassab e a base de Tarcísio também deve interferir nas conversas sobre o posto de vice na chapa de reeleição. Isso porque a vaga pertence atualmente ao PSD, com Felício Ramuth, e Kassab tem deixado claro nas conversas que, se a vaga permanecer com seu partido, ele é quem deve ocupá-la.
O cacique costuma dizer que tem o sonho de ser governador de São Paulo e, sendo vice de Tarcísio, enxerga que tem chances de vencer a eleição para o Palácio dos Bandeirantes, quando pode disputar o pleito estando na cadeira de governo e com a máquina na mão, em um possível cenário em que Tarcísio deixe o posto para tentar a Presidência em 2030.
O governador, no entanto, não esconde a seus interlocutores que sua intenção é manter Ramuth como seu vice, com quem construiu uma relação de confiança e lealdade ao longo do mandato. O governador ainda avalia que, diferentemente da composição feita em 2022, quando precisava atrair partidos para sua aliança, desta vez ele tem capital político para exercer uma escolha pessoal sobre o vice.
Diante da insistência de Kassab em ser o vice, a avaliação no Palácio dos Bandeirantes é de que Ramuth tenha que trocar de partido para se manter na vaga. A interlocutores, o vice-governador afirma que sua preferência é ficar no PSD, mas não descarta sair da legenda caso seja necessário.
A expectativa é de que Kassab e Ramuth conversem nas próximas semanas para tratar do tema. O presidente do PSD também pretende se reunir com Tarcísio após o Carnaval para falar de eleição.
“Dança das cadeiras”
Auxiliares próximos do governador paulista avaliam que a filiação dos seis deputados tucanos ao PSD deve gerar uma “dança das cadeiras” entre os partidos da base, já que candidatos devem buscar o melhor espaço na montagem das chapas para a eleição.
Foram para o partido de Kassab, os deputados estaduais tucanos Analice Fernandes, Barros Munhoz, Carlão Pignatari, Maria Lucia Amary, Mauro Bragato e Rogério Nogueira. Dirceu Dalben, do Cidadania, também vai se transferir para o PSD. A filiação oficial deve ocorrer em 4 de março.
“Na hora que o Kassab traz sete deputados de mandato para dentro, vai ter gente internamente que vai ficar insatisfeita, porque a concorrência aumenta muito. Tem candidatos a deputado que já estão procurando outros partidos, como PP, MDB, entre outros. Vai ter essa dança das cadeiras”, relatou um dirigente envolvido nas conversas.
