Nico critica minimização do PCC em 2006: “Não pode negar a realidade”

Secretário da Segurança de SP, Osvaldo Nico relembra ataques de maio de 2006 e admite maior cuidado hoje para evitar infiltração do PCC

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1 de 1 Imagem colorida mostra close do rosto de Osvaldo Nico, delegado de polícia - Metrópoles - Foto: Governo do Estado de São Paulo

Hoje secretário da Segurança Pública de São Paulo, o delegado Osvaldo Nico Gonçalves (foto em destaque) estava na linha de frente em 12 de maio de 2006, quando começaram os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) contra as forças de segurança no estado.

Conhecido pelo estilo midiático, o delegado era o chefe de um grupo ostensivo da Polícia Civil e lembra bem daquela noite de sexta-feira. A polícia estava apreensiva devido à transferência, um dia antes, de mais de 700 presos, inclusive a cúpula da facção, para a penitenciária de segurança máxima em Presidente Venceslau, no interior paulista.

O delegado conta ter convocado os policiais do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra) e ficado no aguardo dos possíveis atentados. Até que chegou o primeiro pedido de ajuda para o grupo, de um bombeiro baleado. A partir dali, diz ter entendido que era algo diferente de qualquer coisa que havia enfrentado antes.

“Quando você vê um policial baleado ou morto, é como você perder alguém na família, sabe?”

Na época, conta Nico, sua mãe costumava ligar sem parar na delegacia preocupada com ele. “Hoje eu sou um pouco mais, mas na época eu já era conhecido. Então, eu era um alvo”, conta.

O policial criticou a prática de autoridades da época de negar ou minimizar a força do PCC, o que, segundo ele, não ocorre hoje. “Eu acho que a gente tem que pegar o problema e ir de frente. Não fingir que não aconteceu”, diz.

O secretário negou ter conhecimento de um acordo para frear os ataques de maio de 2006, versão que circulou após o fim dos confrontos, e relativizou as acusações de violência policial na época como resposta aos ataques.

O delegado ainda admite que, hoje, há uma preocupação maior para evitar que o inimigo se infiltre nas fileiras policiais.

Leia abaixo a entrevista com o secretário Nico Gonçalves:

Onde o senhor estava quando começaram os ataques de maio de 2006?

Eu lembro bem daquele dia. Eu era supervisor do Garra da Polícia Civil. Quando chegou no final da tarde, o doutor [Godofredo] Bittencourt, o diretor do Deic, me ligou: “Pode ter atentado contra os policiais”. O que eu fiz? Eu convoquei todos os policiais, mesmo aquele que tinha trabalhado à noite, aquele que estava de folga, todo mundo vem pra base. Eram quase 250 policiais. E falei, agora ninguém sai mais daqui da base. A gente vai sair agora em comboio. Não vamos deixar ninguém sozinho, porque a gente sabia que aquela noite iam precisar da gente. E logo, no começo da noite, chegou um pedido de um bombeiro, que tinha tomado um tiro.

Como percebeu as dimensões dos ataques?

Quando começou a sequência. É um aqui, outro ali. Quando começou a sequência, de a gente ficar preocupado com os policiais, o que tava acontecendo. E todo mundo fala, pô, tem acordo que eu não sei de acordo até hoje, entendeu? Eu sou policial de rua, eu gosto de rua. Então, eu queria ir onde tivesse o problema, sabe? Tinha um policial baleado aqui, outro ameaçado ali, nós chegávamos juntos. O pessoal não admitia que tinha crime organizado. Você vê o que mudou hoje, está até tipificado no Código Penal. Aquela época também, a gente não dava muita importância pra isso. E não admitia muito. Hoje, a gente já encara contra a realidade.

Como avalia a estratégia da época de minimizar ou até negar o PCC?

Eu acho que não ajudou. Eu acho que a gente tem que pegar o problema e ir de frente. Não fingir que não aconteceu. E eu lembro que o diretor [na época dos ataques] me falou: “Você não pode falar que tem crime organizado aqui”. Eu estou combatendo, estou lá na rua, como eu não posso falar? E hoje a realidade é essa mesmo [de poder falar sobre o crime organizado]. Hoje, a gente trabalha e trabalha muito, temos um governador firme que está com a gente, dando apoio para a polícia.

Foi noticiado que o governo fez um acordo para parar os ataques. Chegou alguma informação nesse sentido para o senhor?

Não estou sabendo de acordo nenhum. Pelo menos que chegasse ao meu conhecimento, não.

Como foi para o senhor, como policial, ver tantos colegas atingidos?

Quando você vê um policial baleado ou morto, é como você perder alguém na família, sabe? Você ter alguém que você convive todo dia. E a dor pra nós é mais forte, que é uma pessoa que sai de casa pra proteger o cidadão e volta e a gente entregar uma bandeira pra família e não volta, né? É triste.

Também houve muitas denúncias de abusos policiais na época. 

Não tem um caso que a Corregedoria possa falar. E olha que nós temos uma Corregedoria forte. Vou dizer, vamos trazer para a realidade. O caso do Vinícius [Gritzbach, delator do PCC assassinado] do aeroporto. Olha como funcionou a nossa Corregedoria. Eu fui o responsável pela apuração. Nós cortamos na carne, 21 policiais foram presos. Cada um vai responder pelo que fez.

Como é o desafio de combater o PCC dentro do Estado, inclusive da polícia? Uma delegada levou até um namorado da facção até a formatura da polícia… 

Você vê a operação que a gente fez no Demacro agora e o pessoal querendo se infiltrar nas prefeituras. Cumprimos 60 mandados de busca e 13 prisões. Bloqueamos oito bilhões [de reais] de gente do crime organizado, querendo entrar nas prefeituras. Essa delegada, a polícia pediu informações, disse que era uma excelente policial militar [no Espírito Santo], excelente policial. Vieram as informações para cá, esse concurso foi feito e ela passou. Nesse ínterim, ela se apaixonou por um cara que era do crime organizado e largou do marido. Pra você ver como [a pessoa se] desvia. Mas olha como é que é a polícia, né? A gente continua trabalhando nisso. Tanto é que identificou ela participando de uma audiência para um pessoal do crime organizado, se identificando com uma advogada, que não pode, porque, aliás, já era delegada e estava em curso de formação na academia de polícia. E a polícia, nossa Corregedoria, chegou e prendeu [a delegada].

Hoje tem algum cuidado extra na escolha dos policiais?

O cuidado está bem maior. Nossos critérios de seleção estão bem avançados. A corregedorias da Polícia Civil e Militar são as melhores do Brasil.

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