Justiça nega prisão de PMs que mataram estudante de medicina
Estudante de medicina Marco Aurélio foi morto por um PM durante abordagem em novembro de 2024. Pais da vítima contestam decisão da Justiça
atualizado
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A Justiça paulista negou o pedido de prisão preventiva dos policiais militares que mataram o estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta em novembro de 2024 após manifestação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) também contrária à prisão.
Segundo a decisão da juíza Luciana Menezes Scorza, “não há fato novo a ensejar a decretação da custódia cautelar” de Guilherme Augusto Macedo e Bruno Carvalho do Prado. No documento, obtido pelo Metrópoles, a magistrada enfatizou que o vídeo dos bombeiros que trouxe imagens inéditas da ocorrência também “não é motivo para a prisão preventiva dos denunciados”.
“Outrossim, descabida a medida pleiteada de afastamento da função pública, extrapolando a esfera da competência do Poder Judiciário. Como bem ressaltado pelo Ministério Público, é vedado a um poder ingerir-se em outro poder, cabendo ao superior hierárquico fazê-lo, por critério de conveniência e oportunidade”, também disse o texto.
A juíza também negou o uso de monitoração (tornozeleira) eletrônica aos denunciados já que não há, nos autos, notícia de que eles estejam descumprindo as medidas cautelares.
O pai de Marco Aurélio, o médico Julio Cesar Acosta Navarro, lamentou a decisão e escreveu uma carta aberta à juíza. “Você viu as imagens cruéis do assassinato e de tortura contra o meu filho várias vezes e manteve soltos aos assassinos”, escreveu em determinado momento do texto.
“Sra. juíza, você sempre esteve em condições de exercer a sagrada justiça e conforto para a família da vítima, porém você preferiu perpetuar nossa tragédia”, finalizou Julio Cesar.
Andamento do processo
Ainda não está definido se os réus, os policiais Guilherme Augusto Macedo e Bruno Carvalho do Prado, serão ou não submetidos a julgamento pelo Tribunal do Júri. O TJSP confirmou ao Metrópoles que a mais recente audiência do caso foi realizada no dia 9 de outubro, encerrando a instrução do processo. Agora, as partes apresentarão suas alegações finais por escrito e, depois de encerrada essa etapa, será decidido sobre o júri.
A Secretaria da Segurança Pública informou que o caso foi investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que encaminhou o inquérito policial à Justiça. A pasta também ressaltou que um dos policiais envolvidos já havia sido indiciado no inquérito da PM por homicídio doloso e permanece afastado das atividades.
Segundo o MPSP, os autos serão disponibilizados em breve para as alegações finais do órgão. “No momento, não há fato novo que pudesse justificar o aditamento da denúncia, tampouco alteração no estado de liberdade dos acusados, haja vista que o TJSP negou provimento ao recurso do MPSP e manteve a liberdade provisória de ambos, existindo recurso interposto pelo assistente da acusação ainda pendente de julgamento”, disse o Ministério Público.
Estudante de medicina assassinado por PM
Marco Aurélio Cardenas Acosta tinha 22 anos quando foi morto após levar um tiro à queima-roupa de um policial militar durante abordagem dentro de um hotel na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo.
Uma câmera de segurança do estabelecimento registrou a ação. Pelas imagens (assista abaixo), é possível ver o momento em que Marco Aurélio entra correndo no hotel. Ele está sem camisa. O soldado da PM Guilherme Augusto também entra, logo em seguida, e puxa o jovem pelo braço, com a arma em punho.
Veja:
O estudante consegue se desvencilhar, quando outro policial, o soldado Bruno Carvalho do Prado, aparece e lhe dá um chute. O jovem segura o pé do PM, que se desequilibra e cai para trás. Nesse momento, o PM Augusto dá um tiro em Marco Aurélio.
No boletim de ocorrência, os PMs alegaram que Marco Aurélio Cardenas estaria “bastante alterado e agressivo” e teria resistido à abordagem policial. Além disso, o documento aponta que, “em determinado momento, [Marco Aurélio] tentou subtrair a arma de fogo que o soldado Prado portava, quando então o soldado Augusto efetuou um único disparo, a fim de impedi-lo”.
As imagens do circuito interno do hotel mostram, no entanto, que o PM Augusto atirou após o soldado Prado dar um chute no estudante, ter a perna segurada por ele e cair para trás, desequilibrado. No vídeo não é possível ver Marco Aurélio tentando pegar a arma do agente – ao contrário do que foi narrado na delegacia.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), antes do momento registrado no hotel, o estudante “golpeou a viatura policial e tentou fugir”. A pasta também informou que os PMs prestaram depoimento, foram indiciados em inquérito e permanecerão afastados das atividades operacionais até a conclusão das apurações – as polícias Militar e Civil apuram o caso.
Além disso, a SSP afirmou que as imagens registradas pelas câmeras corporais foram anexadas aos inquéritos conduzidos pela Corregedoria da Polícia Militar e pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), apesar de a informação não constar oficialmente no boletim de ocorrência.
