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Como Metrópoles descobriu o Careca do INSS, acusado de operar fraudes

Uma procuração não assinada, uma briga pelo comando de uma entidade e dicas do lobby em Brasília levaram reportagem ao “Careca do INSS”

atualizado

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Reprodução/TV Senado
Lobista Antonio Antunes, o Careca do INSS
1 de 1 Lobista Antonio Antunes, o Careca do INSS - Foto: Reprodução/TV Senado

Preso nesta sexta-feira (12/9), pela Polícia Federal, o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o “Careca do INSS” foi um dos personagens revelados pela série de reportagens “Farra do INSS“, em 2024, publicada pelo Metrópoles. Uma disputa pelo comando de uma das principais associações envolvidas com descontos indevidos, procurações e dicas do mundo do lobby em Brasília levaram ao principal operador de propinas do esquema.

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PF listou relações entre dirigentes de associações e empresas e seu parentesco com Camisotti
PF fez uma teia com todas as transações financeiras entre empresas ligadas a Camisotti e associações
PF fez teia somente para relações financeiras diretas entre Camisotti e as entidades
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PF fez teia somente para relações financeiras diretas entre Camisotti e as entidades

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PF listou relações entre dirigentes de associações e empresas e seu parentesco com Camisotti
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PF listou relações entre dirigentes de associações e empresas e seu parentesco com Camisotti

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PF fez uma teia com todas as transações financeiras entre empresas ligadas a Camisotti e associações
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PF fez uma teia com todas as transações financeiras entre empresas ligadas a Camisotti e associações

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Tudo começou em março de 2024. Naquela época, a reportagem finalmente obteve dados do crescimento bilionário, em apenas um ano, do faturamento das associações. Também levantou documentos que mostravam a atuação de empresários por trás de pelo menos 9 associações que acumulavam condenações por descontos indevidos em milhares de processos judiciais.

Uma dessas associações, a Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), que teve crescimento vertiginoso de filiados em apenas um ano, era objeto de uma disputa por seu comando. Ex-diretoras das associações afirmavam que rivais haviam forjado uma ata de assembleia segundo a qual renunciavam de seus cargos e eram substituídas por outras aposentadas.

Todas as dirigentes eram pessoas pobres, moradoras da periferia de São Paulo. Mas os outros nomes que se atracavam naquela briga eram peixes maiores. Um deles era José Hermicesar Brilhante Palmeira, sócio de diversas empresas do Grupo Total Health, do empresário Maurício Camisotti, que, àquela altura, já era conhecido como um personagem que apareceu em relatórios de Coaf enviados à CPI da Covid no Senado, anos antes.

Quem defendia as ex-diretoras da associação era o advogado Eli Cohen. Naquela época, ele já era conhecido por ter entregue à Polícia Federal material sobre um homem que acabou preso em uma operação contra fraudes em fundos de previdência envolvendo uma conhecida corretora da Faria Lima. Tinha um estilo agressivo. Mapeava fraudes de empresários que deviam a seus clientes.

Quando as partes não chegavam a um acordo, Cohen fazia desabar um mundo de acusações de fraudes em processos judiciais – não raro, a coisa descamba para a esfera policial. Seus clientes, que eram aposentadas e policiais aposentados conhecidos de Camisotti não só afirmavam ter sido alijados da associação como afirmaram que nunca realmente controlaram as entidades. Foram apenas laranjas.

Cohen disse que buscou Camisotti e disse que proporia um acordo: o empresário indenizaria seus clientes por terem sido usados como laranjas. E, nesse termo, estaria incluso que as vítimas da entidade, então, algumas centenas, teriam de ser indenizadas. Maurício teria respondido: “É melhor contratar então o melhor advogado do país por esse valor”. Eli disse que o empresário era líder de uma organização criminosa e que, mais tarde, veria o sol nascer quadrado. Camisotti foi preso, também, nesta sexta-feira (12/9).

Cohen e seus clientes tinham HDs de documentos internos da Ambec que que mostravam as entranhas de cinco entidades: Ambec, Unsbras e Cebap, que faturariam R$ 852 milhões com os descontos indevidos até 2025, e outras duas que não tinham o acordo com o INSS para operar. Esses documentos mostravam toda a estrutura das associações, com parentes e funcionários de Camisotti, e contratos com suas empresas.

Cohen estava intimando todos os envolvidos com perguntas sobre a fraude. Uma delas foi enviada a Antunes. Dizia que ele dava um jeito de arrumar dados de aposentados que seriam vítimas das associações. Os dirigentes das entidades diziam à reportagem: “Todo mundo conhece o Antonio como “Careca do INSS”, achamos que ele foi inclusive servidor do órgão. Ele sempre diz que tem todo mundo na mão lá dentro”. A proximidade era verdadeira, mas ele nunca havia sido funcionário do INSS.

Depois de publicada a primeira leva de reportagens sobre a farra bilionária dos descontos, fontes do mundo do lobby em Brasília procuraram a reportagem para dizer: “você não pegou a figura essencial desse esquema: o careca”. Explicaram que além de ser dono de call centers, o lobista recebia procurações de associações para representá-las junto ao INSS. E que levava gente do INSS e do Ministério da Previdência a camarotes de shows de rock.

Fuçando de novo no material entregue por Cohen, a reportagem lembrou que o advogado também havia passado uma procuração para Antunes conferida pela faxineira Maria Ines Batista de Almeida, que era presidente da Ambec e faxineira das empresas de Camisotti. O documento não tinha assinatura. A credibilidade dele estava em metadados, que são os registros do seu computador de origem e data de criação.

Havia sido criado um ano antes, no computador que estava em nome de uma advogada de uma das empresas de Camisotti. A reportagem ainda levantou uma mansão construída por Antunes em Brasília, registros de carrões de luxo – ele comprava uma Porsche zero quilômetro por ano – e um depoimento dele à CGU como testemunha em uma investigação – que foi dado por videochamada, de dentro de um carro com teto solar.

A reportagem, então, ligou para o telefone de Antunes para pedir explicações. Em uma conversa que durou 42 segundos, ele disse que não tinha “nada a declarar” quando foi perguntado sobre seus contratos com as entidades. “Você ligou para a pessoa errada”, disse, antes de desligar. Mais tarde, seria por meio daquele mesmo número que ele indicaria um advogado para responder às demandas da reportagem.

A primeira reportagem foi publicada no dia 14 de julho de 2024, com o título: Quem é o “careca do INSS”, lobista milionário das entidades da farra.

Naquela época, antes da Operação Sem Desconto, a Polícia Civil e o Grupo de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo (MPSP) cumpriram buscas e apreensões em entidades e empresas de Camisotti. Em relatórios do Coaf dessa operação obtidos pelo Metrópoles, havia transações de R$ 1 milhão do empresário para Antunes. Foi a primeira vez que se rastreou um pagamento ao lobista. 

No dia seguinte à reportagem, segundo apurou o Metrópoles, a fontes próximas, Antunes se disse profundamente irritado somente com um detalhe: a alcunha de “Careca”, que lhe ferira a honra. Espalhou até mesmo uma reportagem sobre como um tribunal inglês havia firmado entendimento de que chamar alguém de “careca” seria assédio sexual à semelhança de comentários, por exemplo, sobre o tamanho dos seios de uma mulher.

Ele queria usar o caso para processar quem lhe chamasse de “Careca do INSS”. Tentou uma vez, contra um jornalista, e não deu certo. Hoje, o apelido pegou e assim Antunes é chamado até pela Polícia Federal em representações à Justiça na Operação Sem Desconto, que investiga a “Farra do INSS”. Quando foi preso, nesta sexta-feira (12/9), ele usava um boné branco que cobria a parte do corpo que lhe rendeu a famosa alcunha.

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