"Melhor que laranja é ter o próprio banco", diz promotor sobre PCC
Declaração do promotor de Justiça Lincoln Gakiya foi feita após o cumprimento de mandado de prisão de policial envolvido com a facção

São Paulo — O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), avalia que o Primeiro Comando da Capital (PCC), a ajuda de agentes corruptos do estado, sofisticou a forma de movimentar o dinheiro resultante de suas atividades criminosos, principalmente o tráfico de drogas, com o qual lucra bilhões de reais por ano.
Gakiya afirmou que o PCC evoluiu do uso de doleiros, para lavar dinheiro do crime — o qual chegou até a enterrar em “casas cofre” — para a criação de suas próprias instituições financeiras.
“Melhor do que você ter laranjas para poder lavar o seu dinheiro ou montar uma empresa de fachada, é você ter o seu próprio banco. Infelizmente, é isso que a gente está assistindo. O crime organizado já montando as suas próprias instituições […] de acordo com as regras do jogo”.
A declaração de Gakiya — que é jurado de morte pelo PCC, facção a qual investiga há mais de 20 anos — foi feita na manhã desta terça-feira (25/2), quando deu detalhes, em coletiva de imprensa, sobre a Operação Hydra, feita em parceria com a Polícia Federal. Na ação, foi preso o policial civil Cyllas Salerno Elia Júnior, apontado como fundador e CEO da 2Go Bank, fintech por meio da qual teria lavada, nos últimos cinco anos, ao menos R$ 6 bilhões do PCC.
Gakiya atribui a criação de fintechs, por parte do crime organizado, a uma deficiência de fiscalização dos órgãos fiscalizadores.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SP“O que nós estamos vendo hoje é um outro patamar, que atingiu o crime organizado, que se sofisticou nessa engenharia financeira de lavagem [de dinheiro], que começou lá atrás utilizando doleiros, no começo até enterrando dinheiro nas casas cofre, e hoje utilizando brechas legais e muito bem assessorados. Esses criminosos estão, definitivamente, operando no mercado financeiro formal”.
Braço corrupto do estado
A ascensão do PCC a status de máfia, como a define o próprio promotor de Justiça, se deve ao auxílio do “braço corrupto do estado” nas ações da facção criminosa. Gakiya afirmou “causar desconforto” ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) constatar a infiltração do crime organizado nas estruturas governamentais, entre elas as policiais.
Vídeo
“A presença, infelizmente, desse braço corrupto do estado é o meio necessário para que a organização criminosa [PCC] consiga atingir os seus objetivos, não é? E um deles é a manutenção da defesa do território que eles já ocuparam, é a manutenção dos seus negócios, na lavagem de dinheiro. Então, sem esse braço [do estado], sem essa infiltração nas estruturas do estado, certamente o PCC não teria atingido esse nível que atingiu hoje”.
Como já mostrado pelo Metrópoles, policiais civis e militares estão presos, sob a suspeita de envolvimento com as práticas criminosas da facção — incluindo a lavagem de dinheiro — além de participação direta e indireta no assassinato do corretor de imóveis Vinícius Gritzbach. Ele foi executado no Aeroporto Internacional de São Paulo, na região metropolitana, oito dias após delatar o envolvimento de agentes do estado com a facção criminosa.
Fintechs
As fintechs, como são chamadas as empresas que oferecem serviços financeiros por meio de plataformas on-line, viraram o novo esconderijo do dinheiro de facções que lucram com o tráfico de drogas, como o PCC, de empresários que fogem de dívidas e impostos e até mesmo de casas de apostas envolvidas em esquemas de lavagem.
Ao lado de Gakiya, o promotor Fábio Bechara, que também atua no Gaeco, afirmou nesta terça-feira (25/2) que “os novos meios de pagamentos substituíram o papel de doleiros”, que ganharam fama nos últimos anos ao serem presos por lavar e esconder dinheiro dos grandes escândalos de corrupção no Brasil.

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Frequência de envio: Diário
Ver todasAs companhias desse perfil têm vendido abertamente contas blindadas contra bloqueio judicial e rastreamento, deixando os saldos bancários dos clientes invisíveis para o Sistema de Busca de Ativos do Poder Judiciário (Sisbajud), que executa bloqueios em processos judiciais, e até para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão responsável por identificar transações suspeitas.
Operação Hydra
O policial civil Cyllas Salerno Elia Júnior foi preso nesta terça na Operação Hydra, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Polícia Federal (PF) para combater a lavagem de dinheiro ligada à facção criminosa.
A investigação, que mira na atuação das fintechs 2GO Bank e Invbank, foi iniciada a partir da delação de Vinicius Gritzbach, jurado de morte pelo PCC e executado a tiros de fuzil em novembro de 2024 no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
Cyllas Elia é fundador e CEO da fintech 2GO Bank. Ele já havia sido preso em 26 de novembro do ano passado, durante a Operação Tai-Pan, da PF, contra crimes financeiros que movimentaram R$ 6 bilhões nos últimos cinco anos. O policial foi solto em janeiro após decisão da Justiça Federal, mas estava afastado das funções e responde a um procedimento na Corregedoria da Polícia Civil.
De acordo com o MPSP, Gritzbach “jogou luz na atuação de fintechs para o branqueamento de bens e valores oriundos de atividades criminosas”. Essa é uma das frentes das investigações realizadas pela PF, cujo objetivo é desarticular esquema de lavagem de dinheiro por meio das instituições de pagamento.

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Frequência de envio: Diário
Ver todasEm resumo, duas empresas ofereciam serviços financeiros de forma alternativa às instituições bancárias tradicionais, movimentando valores ilícitos. Elas constituíram engenharia financeira complexa para velar os reais beneficiários.
A PF e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPSP, cumpriram um mandado de prisão preventiva e dez mandados de busca e apreensão em endereços nas cidades de São Paulo, Santo André e São Bernardo.























