“Me Too da psicanálise”: vítima cria movimento contra assédio sexual
Lívia Vigil criou uma comunidade de psicanalistas em busca de ações contra casos de violência de gênero no segmento acadêmico e profissional
atualizado
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Após ser vítima de importunação sexual e abuso de poder cometidos por dois colegas de profissão, a psicóloga Lívia Vigil se viu diante de um paradoxo: lidar com o trauma, mas ao mesmo tempo transformá-lo em força de combate. Em meio a uma batalha judicial e mental, a gaúcha radicada em São Paulo criou, espontaneamente, um movimento contra o que chama de impunidade em casos de assédio e violência de gênero na psicanálise.
Em um vídeo nas redes sociais, com cerca de 140 mil visualizações, ela questionou: “O que se faz com uma denúncia de violência dentro do meio psicanalítico? Onde se denuncia? Quem nos protege, nós, mulheres psicanalistas, da misoginia dos homens psicanalistas? Essas são algumas das perguntas que têm surgido para mim.”
“Me Too da psicanálise”
A partir da repercussão do conteúdo, Lívia começou a receber várias mensagens de denúncia. “Eu vejo muitas mulheres se pronunciando também nas suas contas no Instagram, nos seus perfis pessoais e profissionais, falando ‘Me Too’, ‘eu também passei por algo’ e relatando, e falando sobre isso. Gerou muitas coisas muito bonitas e interessantes”, conta ao Metrópoles.
As psicanalistas vítimas de violência de gênero, então, se reuniram em um grupo virtual para debater medidas de ação contra assédios e misoginia. A comunidade já reúne aproximadamente 400 integrantes. “Eu e tantas outras que tiveram a coragem de se expor, denunciar, porque não é fácil. A gente arrisca muita coisa quando a gente se pronuncia.”
“Dessa reunião se criou alguns grupos de trabalho para pensar intervenções jurídicas, junto a instituições, um grupo de trabalho de acolhimento a denúncias. Então, realmente, as psicanalistas se organizaram para intervir. Um outro grupo também sobre ações, assim como cartilhas, workshops, para conscientizar”, detalha Lívia. “Além disso, se criou uma roda de conversa entre homens para falar sobre masculinidade e ser homem na atualidade, o que isso significa o que isso implica”, acrescenta a psicanalista.
O movimento tem tomado proporções promissoras. “Três professoras do programa de pós-graduação da UFRGS [Universidade Federal do Rio Grande do Sul] me ligaram falando que querem fazer um curso de especialização sobre isso. Então, realmente foi algo numa escala muito grande”, celebra a idealizadora.
Importunação sexual
Após sofrer importunação sexual por parte de um colega psicanalista da Universidade de São Paulo (USP), em 2023, Lívia abriu um boletim de ocorrência e denunciou o caso na instituição na qual ambos estavam inseridos.
“Na época, eu realizava meu mestrado e ele, o doutorado. Um outro colega psicanalista, a quem eu considerava um amigo, entrou como testemunha no processo. Nada aconteceu na universidade – e o processo foi arquivado, em novembro do ano passado, pois, segundo o Ministério Público, não havia provas o suficiente”, relembra.
Em dezembro de 2025, Lívia foi demitida após reportar uma situação de conivência com o abusador por parte de outro psicanalista. “Em fevereiro de 2026, após eu denunciar a demissão injusta como retaliação à instituição de pós-graduação em psicanálise na qual eu dava aula, recebo o informe de que a instituição optou por não fazer nada a respeito por uma questão de organização institucional”, lamenta.
