Homem ataca terreiro de umbanda e pai de santo relata descaso da PM. Vídeo
Homem invadiu terreiro, ameaçou pai de santo de morte e danificou portão da casa. A PM não teria dado assistência adequada ao caso
atualizado
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Um homem invadiu e atacou um terreiro de umbanda em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, na manhã da última segunda-feira (16/3). A ação criminosa, que danificou o portão da casa, foi flagrada por uma câmera de segurança. Veja:
Nas imagens é possível ouvir o homem dizendo “bota a cara aqui, demônio”, entre outros xingamentos. O suspeito, identificado como Wellington Henrique Ambrosio Santos, de 35 anos, invadiu o terreiro Ilê Ègbé Orúnmila Ifá por volta das 5 horas da manhã. Ele foi flagrado no quintal da casa pelo pai de santo Danilo da Silva Prioli, o Babá IFÁGBÈMÍ, e pelo marido dele, dizendo falas desconexas.
Dentre as falas sem sentido, o agressor também proferia ameaças. Ele dizia que cortaria os pescoços dos religioso “igual vocês cortam dos bichos dessa religião maldita”, em referência ao sacríficio de animais em doutrinas de matriz africana, resguardados por lei. Danilo e o marido conseguiram tirar o homem do local.
O casal acionou a Polícia Militar (PM), mas a primeira viatura chegou apenas três horas depois, por volta das 8 horas da manhã, quando Wellington já estava com um pedaço de madeira batendo no portão do terreiro.
Ele continuou com os xingamentos e ameaças. “Sua raça maldita. Seus filhos do Satanás. Seus filhos do demônio”, reproduziu o pai de santo à reportagem.
Pai de santo fala em descaso da PM
Quando a PM chegou, os agentes não pediram a identificação do homem e também não o detiveram. Eles expulsaram o agressor do local e foram embora, mas Wellington voltou logo em seguida. A corporação foi acionada novamente, e a cena se repetiu.
Danilo conta que a viatura retornou ao menos quatro vezes ao terreiro enquanto o homem ia e voltava, sempre com agressividade, no período entre 8 horas da manhã e meio-dia. Em nenhum momento ele foi identificado ou detido pelos policiais.
Segundo o pai de santo, os PMs afirmavam que a conduta do homem não configura crime. Um dos agentes teria dito que eles precisariam abandonar as liturgias do terreiro. “Vocês têm que repensar a prática de vocês porque vão encontrar outro louco”, relatou o líder religioso da casa ter ouvido do oficial.
“O evangélico pode professar sua fé, o católico pode professar sua fé, e nós de matriz africana não podemos?”, questionou o pai de santo, que descreveu a conduta da PM como “descaso”.
Após conseguir a identificação do agressor com a ajuda de vizinhos, Danlo foi acompanhado de um advogado à delegacia para registrar um boletim de ocorrência – no momento em que a PM estava no terreiro pela quarta vez.
No plantão da Delegacia Seccional de Presidente Prudente, eles foram atendidos por um escrivão adepto de religião de matriz africana. “Lá que a gente foi ouvido com dignidade, que deram atenção pro nosso caso”, afirmou. Nesta quinta-feira (19/3), eles devem retornar ao distrito policial para representar a denúncia.
“A gente sabe que nada acontece, mas a gente quer ser ouvido porque hoje é nossa casa, mas e amanhã?”, indagou Danilo. “Cadê a Constituição? Cadê o papel da PM?”.
Comunidade do terreiro sente medo
Quando retornaram da delegacia, o agressor ainda estava na rua do terreiro, mas havia cessado as agressões à casa religiosa. Agora, Danilo, o marido, e os filhos da casa sentem medo.
“Foram horas de muito medo, de muita dor. Ninguém quer ter sua casa invadida, ser ameaçado, e muito menos ser esquecido pela polícia”, relatou o líder da casa.
O pai de santo relatou que o terreiro está há nove anos no mesmo endereço e que nunca haviam passado por um episódio do tipo. Ao lado do ilê está uma igreja evangélica da Assembleia de Deus, e as instituições vivem “em harmonia”, conforme relatou o babalorixá.
O incidente com o agressor “não é briga de vizinho”, destacou o pai de santo. “Os próprios moradores [da rua] estão a favor da gente, estão revoltados”, disse.
O caso foi registrado como dano, ameaça, preconceitos de raça ou de cor e violação de domicílio na Delegacia Seccional de Presidente Prudente.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) foi questionada sobre a conduta dos PMs relatada pelo pai de santo. Em nota, a pasta se limitou a informar que a Polícia Civil investiga o caso de injúria religiosa, ameaça e dano.
Conforme a secretaria, o suspeito invadiu a residência e “passou a proferir ofensas e ameaças motivadas por intolerância religiosa, além de danificar o portão do imóvel”. Foi requisitada uma perícia no local.
Intolerância religiosa é crime
A intolerância religiosa é um crime inafiançável e imprescritível, equiparada ao racismo pela Lei nº 7.716/1989, que pode resultar em penas de um a cinco anos de prisão. De acordo com a legislação, são considerados delitos a agressão e depredação, a discriminação, ofensas e discurso de ódio, e a perturbação de culto.
A liberdade de crença também está prevista no artigo 5º da Constituição Federal e é classificada como um dever legal para todos os cidadãos.
Para denunciar casos de intolerância ou racismo religioso, a vítima pode procurar os seguintes canais:
- Disque 100 (Disque Direitos Humanos)
- Polícia (190), especialmente elegacias de crimes raciais e de intolerância religiosa
- Ministério Público, especialmente o Grupo de Atuação Especial de Combate aos Crimes de Racismo e Discriminação (Gecradi)








