GCM que matou entregador de bike em SP pediu apoio sem mencionar tiro
Trabalhador foi baleado com tiro nas costas quando trafegava de bicicleta elétrica nas imediações do Parque Ibirapuera, na zona sul de SP
atualizado
Compartilhar notícia

O subinspetor da Guarda Civil Metropolitana (GCM) Reginaldo Alves Feitosa afirmou à Polícia Civil que o disparo que matou o entregador Douglas Renato Scheefer Zwarg, de 39 anos (imagem em destaque), na noite de sexta-feira (10/04), ocorreu no momento em que descia da viatura, durante uma abordagem.
No entanto, segundo registros oficiais, ao pedir apoio, ele relatou apenas um “acidente de trânsito”, sem mencionar que havia efetuado um tiro — informação que só veio à tona depois, com a chegada de outras equipes.
O Metrópoles apurou que Douglas trabalhava em um restaurante e fazia entregas para complementar a renda familiar, como no dia em que foi morto com um tiro nas costas. Casado e pai de três filhos, dos quais um nascido em dezembro passado, ele foi baleado nas imediações do Parque do Ibirapuera, na zona sul da capital paulista.
Apoio acionado como “acidente”
Um dos pontos centrais que emerge dos depoimentos, obtidos pela reportagem, é a forma como o caso foi inicialmente comunicado. Segundo o registro policial, Feitosa informou às equipes de apoio que se tratava de um acidente de trânsito, versão que foi reproduzida por outros guardas que chegaram ao local.
Os GCMs Moacyr Romano Junior e Matheus Junior Melo Colares relataram que, ao serem acionados, receberam a informação de que o ciclista havia sofrido um mal súbito após um suposto acidente. Só depois, com a retirada das roupas da vítima pela equipe de resgate, foi identificado um ferimento por arma de fogo nas costas.
Nesse momento, ainda conforme os depoimentos, Feitosa admitiu ter efetuado o disparo, mas afirmou que não sabia que havia atingido o homem.
Estampido com a viatura em movimento
Outro trecho dos registros policiais evidencia uma divergência relevante sobre o momento do tiro.
Feitosa sustenta que o disparo ocorreu quando a viatura já estava parada e ele iniciava o desembarque para abordagem, segurando a arma na mão esquerda, quando a bicicleta teria colidido contra a porta do veículo.
Já o GCM Iago Domingos, que dirigia a viatura, apresentou uma versão distinta.
“Durante a aproximação, o rapaz perdeu o equilíbrio, colidiu com a viatura e caiu, momento em que o depoente ouviu um estampido”, diz trecho do depoimento.
O relato indica que o disparo teria ocorrido com o veículo ainda em movimento, antes da parada completa, contrastando com a versão apresentada pelo subinspetor.
Queda, tiro e descoberta tardia
A reconstrução preliminar feita pela Polícia Civil aponta que Douglas se desequilibrou ao ser abordado, possivelmente por estar com fones de ouvido, e caiu junto com a bicicleta.
No mesmo instante, ocorreu o disparo. Segundo Feitosa, ele acreditou que o tiro teria atingido um barranco e não percebeu, inicialmente, que havia acertado o ciclista.
A ausência de sangue visível no primeiro momento reforçou, segundo os próprios agentes, a interpretação inicial de acidente. A gravidade do caso só foi identificada quando o resgate constatou o ferimento causado por arma de fogo, cerca de meia hora após o disparo.
O “capuz” que não aparece
Outro ponto que chama atenção é um detalhe mencionado exclusivamente por Feitosa e seu parceiro de viatura, ao afirmarem sobre a presença de um capuz na vítima — que teria chamado a atenção de ambos para realizar a abordagem.
O elemento, no entanto, não aparece descrito como apreendido no boletim de ocorrência nem em outros documentos oficiais juntados ao inquérito até o momento. Tampouco é citado por outros agentes que prestaram depoimento.
Diante dos elementos reunidos, a Polícia Civil entendeu, em análise inicial, que a conduta de Feitosa se enquadra como homicídio culposo, ou seja, quando não há intenção de matar.
O registro policial ainda destacou indícios de imprudência e imperícia no manuseio da arma, especialmente em uma abordagem em movimento, com estresse e instabilidade da cena.
O subinspetor foi preso em flagrante, pagou fiança e vai responder ao processo em liberdade. A defesa dele não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestações.










