Exame “encontra” órgãos que paciente não tem. Família denuncia clínica

Idosa é paciente oncológica há mais de 10 anos. Clínica de SP apontou problemas na bexiga e na vesícula, órgãos que ela retirou no passado

atualizado

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A família de uma idosa de 94 anos denuncia uma clínica médica de Campo Limpo Paulista, interior de São Paulo, por falsidade ideológica. O laudo emitido pelo estabelecimento aponta problemas na vesícula e na bexiga— dois órgãos que ela não tem mais.

Marcelo Pereira, tenente da Polícia Rodoviária de Jundiaí e marido da neta de Ivonne Chagas, contou ao Metrópoles que a idosa é paciente oncológica há mais de 10 anos. Ela havia retirado a vesícula e, em 2017, por conta do tratamento contra o câncer, passou pela cirurgia de retirada da bexiga. Desde então, ela utiliza uma bolsa de urostomia.

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Clínica de Campo Limpo Paulista é denunciada por falsidade ideológica
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Clínica de Campo Limpo Paulista é denunciada por falsidade ideológica

Reprodução/Google Street View
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Entre o fim de 2025 e o início de 2026, Marcelo relata que a idosa começou a sentir fortes dores na região abdominal relacionadas a uma hérnia desenvolvida após a cirurgia. Por conta disso, um dos filhos dela, morador de Campo Limpo Paulista, a levou para a Clínica Barros, que fica na cidade, para realizar exames de imagem.

Pereira contou que a família só percebeu o erro meses depois de a idosa fazer o ultrassom, pois os resultados do exame apontaram diversos detalhes sobre a bexiga e toda a região abdominal, indicando ainda a presença de pedras na vesícula — os dois órgãos que a paciente já havia retirado.

“Na hora em que pegamos os resultados, não nos atentamos a esse detalhe por conta do fato de que Ivonne passa bastante tempo dividida entre Jundiaí, Campo Limpo Paulista e Caraguatatuba, na casa dos filhos e netos. Então, assim que ela fez o exame, já foi imediatamente para Caraguá, onde ela ficou por um tempo”, conta Pereira.

Na casa de uma das filhas, que mora em Caraguatatuba, litoral paulista, a idosa voltou a sentir dor. A filha comunicou à família que iria ao médico da cidade com a mãe, levando junto os exames realizados na Clínica Barros. Foi nesse momento que perceberam as informações imprecisas do laudo.

“Minha esposa me mostrou e falou: ‘Olha, aqui está falando da bexiga dela, mas ela não tem mais a bexiga’. Eu falei que era impossível isso, cheguei a mostrar as imagens para um conhecido que trabalha com ultrassonografia, ele estranhou a presença daqueles órgãos ali”, contou o parente.

Pereira disse que voltou à clínica de Campo Limpo Paulista para questionar os resultados. “Como estávamos suspeitando do estabelecimento, a gente pediu uma segunda via do exame falando que perdemos a primeira durante a viagem ao litoral. Para a nossa surpresa, eles acharam estranho e questionaram o motivo do pedido”, afirmou.

O policial conta que, depois de muitas conversas, a atendente respondeu que iria acessar os dados da paciente com o médico responsável e que retornaria por WhatsApp. Mais tarde, por mensagem, o estabelecimento informou que “não teria como acessar a segunda via” e que seria necessário “realizar o exame novamente”.

Família de idosa recebeu mensagem da clínica informando que os arquivos dos exames do período haviam sido perdidos e que por isso não seria possível fornecer a segunda via solicitada

“Eles alegaram que todos os exames realizados no período não constavam na base atual de armazenamento do local e que, por isso, todos os resultados foram entregues em mãos aos pacientes”, disse. Isso, para Pereira, despertou mais estranheza em relação ao serviço prestado.

“Como que perdem imagens assim? Existem normas do Conselho Regional de Medicina (CRM) que obrigam clínicas e hospitais a manterem resultados, laudos e imagens por um tempo. A gente nem tinha comentado ainda que tínhamos encontrado erros nos resultados, e eles já tinham essa justificativa”, disse.

Foi nesse momento que a família resolveu procurar a polícia, registrando um boletim de ocorrência na Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Jundiaí por falsidade ideológica, por conta do teor falso do resultado do ultrassom. “O que pensei foi que eles ficaram em choque quando solicitamos a segunda via. Creio que eles costumam mandar esses exames falsos sem que ninguém perceba”, contou o familiar.

A família de Ivonne resolveu pesquisar mais informações sobre o local. Eles contaram ter descoberto que a clínica pertence a um casal de médicos e que os exames são laudados em nome dos filhos do casal, que são recém-formados em medicina.

“Pegamos um exame totalmente errado lá e só conseguimos questionar porque a mãe da minha esposa claramente não possuía mais aqueles órgãos que apareceram no exame. Mas imagina quanta gente recebeu resultados falsificados e nem ao menos percebeu?”
Laudo realizado no Icesp, onde a idosa faz acompanhamento , aponta “cistectomia radical com reconstrução do tipo Bricker”, um tratamento padrão para casos de câncer na bixiga, envolvendo a remoção total do órgão

A paciente, que faz acompanhamento no Instituto de Câncer de São Paulo (Icesp), possui vários exames comprovando a inexistência dos órgãos que apareceram no exame questionado. “Ainda bem que não iniciamos nenhum tratamento com base nesse resultado. De lá pra cá, passamos por outros médicos. Ela está firme e forte agora, completou 94 anos na última segunda-feira (11/5). E foi uma sacanagem da galera da clínica, que estamos denunciando”, disse Pereira.

O que diz a clínica

Segundo a polícia, a investigação está em andamento e os profissionais da clínica já foram ouvidos. Eles alegam apenas erro médico no exame. Em nota oficial à reportagem, a clínica informou que está conduzindo “uma apuração interna criteriosa sobre os fatos”.

“Em relação às informações divulgadas, é importante esclarecer que exames de imagem e registros clínicos passam por processos técnicos e administrativos específicos, motivo pelo qual toda a situação está sendo analisada com cautela pela equipe responsável e pelo departamento jurídico da clínica. A Clínica Barros lamenta os transtornos relatados pela paciente e seus familiares e permanece à disposição para colaborar com os esclarecimentos necessários junto às autoridades competentes”, diz a nota.

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