Ex-delegado morto: Marcola já instruiu salve a mensageiro do PCC
Preparado pessoalmente por Marcola, para liderar a facção nas ruas, Décio Gouveia Luiz foi preso no Rio de Janeiro em território do CV
atualizado
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Décio Gouveia Luiz, o Decinho, atravessou fronteiras entre facções e se tornou peça-chave na engrenagem do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele começou sua trajetória em assaltos e, após anos atrás das grades, reapareceu na cena criminal no final da década de 2010 com um posto de destaque: foi preparado por Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola — maior liderança da facção paulista — para assumir posições de comando fora dos muros prisionais.
Em março de 2019, quando a polícia já monitorava uma reunião de líderes do Bonde dos 14 — célula do PCC na zona leste paulistana —, Decinho já era apontado como o elo direto com a cúpula da facção. Coube a ele repassar as ordens de Marcola para atacar o então delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes. Em nota ao Metrópoles, a defesa de Marcola nega qualquer envolvimento com o caso. O policial foi assassinado, no início da semana passada, na Praia Grande, litoral paulista.
O Departamento de Homicídio e de Proteção à Pessoa (DHPP) apura a motivação para o crime, vislumbrando múltiplas linhas de investigação, entre as quais, o envolvimento do PCC, juntamente com agentes públicos.
Abrigado pelo Comando Vermelho
Ainda em 2019, como consta em documentos judiciais obtidos pela reportagem, Decinho foi ao Rio de Janeiro. Para escapar da pressão policial em São Paulo, adotou o nome falso de Lucas de Souza Oliveira. Em território fluminense, ele encontrou abrigo com o Comando Vermelho (CV), organização criminosa historicamente rival do PCC, mas que lhe garantiu proteção e espaço para lavar dinheiro em imóveis e empresas de fachada.
Com a identidade falsa, o parceiro de Marcola adquiriu um apartamento no Recreio dos Bandeirantes e um terreno em Búzios. A proteção territorial do CV permitiu que ele reformasse uma residência luxuosa em Arraial do Cabo, sem levantar suspeitas imediatas. Para os investigadores, essa aliança improvável mostrava que o pragmatismo financeiro se sobrepunha à rivalidade entre as facções.
Mesmo no Rio, Decinho não se desligou do PCC. Pelo contrário, seguiu coordenando movimentações financeiras milionárias do Bonde dos 14. Relatórios da Polícia Civil indicaram que, só em contabilidade diária, o grupo chegava a movimentar R$ 94 mil, valor que, em projeção, alcançava até R$ 3 milhões por mês. Decinho supervisionava a lavagem desse dinheiro por meio de empresas e transferências bancárias — algumas das quais destinava para entidades políticas e jurídicas, numa tentativa de blindagem institucional.
O elo de Decinho com a conspiração contra o delegado Ruy Ferraz ficou ainda mais evidente após a apreensão de uma carta, com ordens do Sintonia Geral do PCC, determinando que a missão fosse cumprida. O documento citava integrantes do Bonde dos 14, subordinados a Décio, como responsáveis diretos pelo plano homicida. Entre eles, estavam: Koringa, Mimo, Barata, Tererê e Corintiano.
Fim da blindagem carioca
No dia 14 de agosto de 2019, a blindagem carioca chegou ao fim. Com apoio da Polícia Civil do Rio, investigadores paulistas prenderam Décio, em Arraial do Cabo. Duas semanas depois, em 28 de agosto, ele foi transferido para a Penitenciária de Presidente Venceslau II, onde dividiu cela com outros líderes do PCC.
Ao rastrear suas movimentações, os policiais descobriram não apenas imóveis e empresas fantasmas, mas também vínculos internacionais. Entre os arquivos apreendidos em celulares, havia menções ao Cartel de Sinaloa — um dos braços mais fortes do narcotráfico mexicano e do hesmisfério ocidental –, fornecedor em larga escala para o PCC. O alcance financeiro de Decinho, portanto, transcendia as fronteiras nacionais e mostrava a dimensão de sua importância dentro da facção.
O histórico de Decinho no crime não é recente. Desde 1986, ele acumulava passagens por roubos e reincidências, até consolidar-se como liderança natural no Bonde dos 14, ao lado de Nailton Vasconcelos Martins, o Irmão Molejo, Cleberson Paulo dos Santos e Alan Donizeti. Juntos, comandavam pontos de drogas, disciplinavam subordinados e arquitetavam represálias contra autoridades, como o plano de ataque ao então delegado-geral Ruy Ferraz Fontes.
Atualmente preso em regime fechado, Decinho continua sendo uma peça de preocupação para investigadores. Sua trajetória demonstra como alianças circunstanciais entre facções, como a proteção que recebeu do CV, não só garantiram sua sobrevivência, mas também ampliaram o raio de atuação do PCC. No centro dessa rede, o plano para matar Ruy Ferraz tornou-se o retrato de como interesses econômicos e vingança podem se fundir na engrenagem do crime organizado no Brasil.



















