Ex-delegado-geral executado defendeu isolamento de líderes do PCC
Quando assumiu o cargo como delegado-geral, Ruy Ferraz Fontes defendeu a transferência dos líderes do PCC para o regime federal
atualizado
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Em 2018, no dia em que foi anunciado como delegado-geral da Polícia Civil paulista, Ruy Ferraz Fontes, que foi executado em Praia Grande, no litoral de São Paulo, no início da noite dessa segunda-feira (15/9), defendeu que os líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) deveriam ficar isolados de outros presos no sistema penitenciário de São Paulo, sendo transferidos para o regime federal.
O ex-delegado foi executado a tiros de fuzil por criminosos no bairro Mirim, em Praia Grande. A principal suspeita é que os autores sejam integrantes do PCC. A cúpula da Segurança Pública de SP (SSP) trata o crime como vingança. “Isso aí certamente foi vingança do PCC. Ele lutou muito contra a facção”, disse uma fonte ligada à cúpula da Segurança Pública de São Paulo ao Metrópoles.
O velório de Ruy Barbosa está previsto para começar as 10h desta terça-feira (16/9) na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). O sepultamento está marcado para às 16h no Cemitério da Paz, no Morumbi, na zona sul da capital paulista. O corpo deve sair da Alesp às 15h.
Ruy Ferraz não tinha filhos. Ele deixa familiares e amigos.
Ruy Ferraz era chefe do Departamento de Narcóticos (Denarc), quando foi nomeado pelo governador João Doria (PSDB) para atuar na segurança pública do estado. “[Os líderes do PCC] não podem ficar misturados com presos comuns no cárcere. Aqueles que lideram e que exercem influência nos demais membros que estão presos têm de ficar em um regime especial, como em outros países”, afirmou, à época, ao Estado de S. Paulo.
A gestão anterior, do governador Márcio França (PSB), havia resistido à pressão do Ministério Público de transferir Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, para um presídio federal. Quando Ruy assumiu, ainda no começo de 2019, a transferência de Marcola e de outros 20 líderes foi realizada.
Transferências de presos
Com a eleição de Doria, começaram as especulações sobre quem seria o novo secretário da Segurança Pública, destacando a disputa entre as polícias civil e militar. Até então, o cargo era assumido por nomes advindos do Ministério Público. O ex-tucano, então, “rejeitou” a tradição, nomeando um general do Exército e criando dois novos cargos, de secretário civil e secretário militar.
Antes de Doria assumir, São Paulo não mandava presos para o sistema federal. Eles eram deixados no sistema estadual, mas em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) — uma sanção aplicada que envolve maior isolamento e restrições de visitas e contatos.
A decisão de transferir os líderes do PCC para o sistema federal veio do próprio Ministério Público e foi realizada com sucesso devido à infraestrutura disponibilizada pela Segurança Pública de São Paulo, que segurou a informação.
Execução do ex-delegado-geral
Uma câmera de segurança registrou a ação dos criminosos (assista abaixo). Ruy Ferraz Fontes dirigia um carro em aparente fuga, quando bateu em um ônibus e capotou o veículo. Na sequência, os bandidos desembarcaram de outro carro que seguia atrás e dispararam vários tiros contra o veículo do delegado.
Ruy Ferraz Fontes chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. Após o assassinato, o secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite, anunciou uma força-tarefa e enviou mais de 100 policiais para o litoral em busco dos criminosos.
O carro usado pelos criminosos que executaram o ex-delegado Ruy Ferraz Fontes foi encontrado incendiado pelas autoridades na noite de segunda-feira, pouco tempo depois da confirmação do assassinato do agente. Veja:
As autoridades também investigam a possível utilização de outro veículo no assassinato do ex-delegado.
A mulher e o homem que ficaram feridos durante o atentado contra o ex-delegado não correm risco de morrer. Após a ocorrência, as vítimas foram transferidas para o Hospital Municipal Irmã Dulce. Segundo a Prefeitura de Praia Grande, a mulher foi atendida e liberada ainda na segunda-feira. O homem segue internado sob cuidados ortopédicos.
A gestão municipal de Praia Grande decretou luto oficial de três dias após o atentado.
Autoridades se manifestam
- Guilherme Derrite, secretário da Segurança Pública de São Paulo, determinou a criação de uma força-tarefa “com prioridade” para prender os autores do crime.
- Ainda segundo o secretário, o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, ofereceu o apoio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do estado.
- Mesmo sem ter relação com a investigação do caso, o secretário de Segurança Urbana da cidade de São Paulo, Orlando Morando, também usou as redes para expor sua “profunda tristeza” com o ocorrido.
- Morando ainda cita a trajetória de Ruy Fontes e diz que ele deixará um “legado de compromisso e seriedade que muito contribuíram” para São Paulo.
- Também nas redes sociais, o deputado estadual Delegado Olim (PP) prometeu caçar os envolvidos na execução do amigo.
Um vídeo obtido pelo Metrópoles mostra um novo ângulo (veja abaix0) do atentado. Na filmagem, é possível ver o carro do ex-delegado já capotado ao lado do ônibus e o momento em que os criminosos saem do carro. Motociclistas que estavam na via deixam suas motos e se escondem atrás de carros. Veja:
Quem era Ruy Ferraz
O ex-delegado Ruy Ferraz Fontes, de 64 anos, morto por criminosos suspeitos de integrar PCC, em Praia Grande, atuou por 40 anos na Polícia Civil e era especialista na facção paulista. Ele foi jurado de morte por Marco William Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder máximo da facção, em 2019, após o criminoso ser transferido para o sistema penitenciário federal.
Ferraz possuía especialização em Administração Geral e Financeira em Órgãos Públicos e participou de cursos complementares, como o Curso Anti-Drogas e Anti-Terrorismo, realizado pelo Ministério do Interior e da Segurança Pública da Polícia Nacional da França, além de curso de Aperfeiçoamento sobre Repressão às Drogas, em Vancouver, pela Polícia Montada do Canadá, conforme informou a Prefeitura de Praia Grande.
Ele iniciou a carreira como delegado de Polícia Titular da Delegacia de Polícia do Município de Taguaí, do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior (Deinter) 7.
Durante a vida profissional, foi delegado de Polícia Assistente da Equipe da Divisão de Homicídios do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), delegado de Polícia Titular da 1ª Delegacia de Polícia da Divisão de Investigações Sobre Entorpecentes do Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc), delegado de Polícia Titular da 5ª Delegacia de Polícia de Investigações Sobre Furtos e Roubos a Bancos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e comandou outras delegacias e divisões na Capital.
Ferraz também esteve à frente da Delegacia Geral de Polícia do Estado de São Paulo, foi Diretor do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (DECAP) e professor Assistente de Criminologia e Direito Processual Penal da Universidade Anhanguera e atuava também como Professor de Investigação Policial pela Academia da Polícia Civil do Estado de São Paulo.
Ruy assumiu a Secretaria de Administração de Praia Grande em janeiro de 2023, permanecendo na gestão que se iniciou em 2025, até ser morto nesta segunda-feira.
Inimigo n° 1 do PCC
O ex-delegado-geral da Polícia Civil ficou conhecido pelo enfrentamento ao PCC, facção que o considerava como um dos seus maiores inimigos.
No início da década de 2000, a facção criminosa era pouco conhecida e tinha a existência ainda negada oficialmente por autoridades do governo estadual. Anos depois, em 2006, uma série de ataques a bases policiais, órgãos de governo, postos de gasolina e comércios — todos planejados e executados pela facção em uma clara tentativa de demonstrar força no enfrentamento ao poder público –, aterrorizou a população paulista.
“Um dos melhores Delegados-Gerais que conheci, Ruy foi executado covardemente hoje por criminosos, após uma trajetória marcada pelo combate firme e incessante ao PCC, impondo enormes prejuízos ao crime organizado”, destacou Raquel Kobashi Gallinati Lombardi, diretora da Academia dos Delegados de Polícia do Brasil (Adepol do Brasil), declaração que corrobora o trabalho investigativo de Fontes para desarticular o PCC.
No entanto, a atuação combativa também colocou um alvo em suas costas. Ele foi jurado de morte por Marco William Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder máximo da facção, em 2019, após o criminoso ser transferido para o sistema penitenciário federal. Em nota ao Metrópoles, a defesa de Marcola nega qualquer envolvimento com o caso.










