Chineses revelam bastidores de prisão dos estrangeiros em livro. Leia
Livro detalha rotina no cárcere e medo sentido pelos presos chineses em penitenciária no interior de SP
atualizado
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“Como diz o ditado: ‘Sem regras, não há ordem’. Lá fora, as empresas têm suas próprias normas, as escolas têm sua própria disciplina e a sociedade tem suas próprias leis. Porém, na prisão, uma sociedade forte e fechada, não há leis escritas no papel, mas há regras que são mais importantes que isso”.
O trecho acima faz parte de um livro que circula entre presos chineses, com relatos da vida no cárcere, no interior do estado de São Paulo. A reportagem obteve trechos do material sem assinatura e escrito na língua nativa dos detentos da Penitenciária de Itaí – onde muitos dos internos estão ali cumprindo pena por crimes ligados à máfia chinesa.
Conforme revelado pelo Metrópoles, a prisão de Itaí abrigava 27 detentos chineses no início deste ano, que respondiam por crimes como homicídio, sequestro e tráfico de drogas. Recentemente, eles foram transferidos para a Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos, no que parece uma desativação do presídio conhecido por abrigar imigrantes no estado de SP.
Em nota enviada no dia 23 de junho, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) não negou a mudança, e também não esclareceu a justificativa. A pasta informou apenas que “todas as unidades do sistema penitenciário do Estado de São Paulo estão devidamente estruturadas e capacitadas para a custódia de apenados, conforme determina a Lei. A Penitenciária de Itaí segue como uma das unidades prisionais do sistema SAP”.
O livro ao qual o Metrópoles teve acesso com exclusividade serve, principalmente, como um manual para que os estrangeiros se ambientem em uma prisão em outro país.
A reportagem apurou que o idealizador da obra seria um detento chinês que passou por Itaí no ano passado. Ele ficou menos de um mês preso preventivamente na unidade – período suficiente para conhecer a dinâmica do cárcere em um presídio onde se falam diferentes línguas e quase não há contato com familiares.
Após a liberdade do escritor, os escritos teriam sido repassados a outro preso chinês, responsável agora por continuar a obra, que circula em papéis impressos entre os detentos de Itaí.

Leia trechos da obra
O material foi traduzido do chinês pela reportagem. A tradução mostra um texto escrito com fluidez, linguagem por vezes poética e com relatos de episódios do cárcere, muitos deles desconhecidos pelos próprios funcionários da penitenciária, como mostrou a apuração.
O escritor começa o livro abordando as regras do plantão no cárcere – normas que se mostram indispensáveis para sobreviver à prisão.
“Ninguém vai te ajudar a procurar as coisas, ninguém te diz o que fazer depois da refeição, e ser excluído do grupo de plantão é a maior punição. No momento em que soube dessa regra, senti como se tivesse caído num poço de gelo. Eu não sabia se conseguiria aguentar”, diz um dos trechos.
Segundo o autor, que costumava assistir a séries de TV sobre prisão e encontrou uma realidade diferente ao entrar no sistema penitenciário, “cada detalhe escondia violência”.
Quando foi preso, se viu rodeado de estranhos, que o olhavam como uma presa. “Todo o desconforto, todo o medo, toda a ansiedade diante do desconhecido — tudo será amplificado ao extremo”, diz outro trecho da obra.
No livro, o autor relata um pouco desse dia a dia, com uma pitada de encorajamento aos compatriotas. “Se quiser sobreviver na prisão, você precisa se adaptar rapidamente”, disse o então detento, que atualmente está em liberdade. “Cada passo dado é um passo para sobreviver”.
Rotina
O primeiro passo para a sobrevivência, logo após acordar em um novo dia no cárcere, é garantir uma limpeza efetiva dos espaços da prisão, por mais inóspito que seja o ambiente no cárcere.
Varrer o chão, esfregar os cantos, limpar os banheiros, lavar todos os panos, organizar os utensílios e limpar debaixo das camas são algumas das tarefas listadas pelo autor. Os afazeres começam antes mesmo do sol raiar, às cinco horas da manhã.
“A limpeza deve ser feita com detergentes fortes, às vezes até com soda cáustica. A cela precisa ficar com cheiro de produto de limpeza para ser aprovada”, detalhou.
Isso porque, segundo o livro, as inspeções são rigorosas. Sem ordem, a punição é certa. “A razão para tamanha exigência é simples: ninguém quer viver em um lugar onde outros agem como cães. Por isso, a limpeza semanal torna-se uma ‘limpeza militar’”, justifica o escritor, que aponta que mesmo um pouco de sujeira é motivo para punição.
Após a limpeza, rotineira e desgastante, é chegada a hora de preparar o café da manhã, distribuído entre todos os detentos. Depois da alimentação, tudo deve ser limpo novamente. O almoço e o jantar seguem o mesmo processo, sempre sob forte vigilância.
O dia no cárcere em Itaí não estaria encerrado sem a última obrigação: uma nova faxina nos banheiros. “Isso é essencial — ninguém pode se lavar antes que os banheiros estejam limpos”, destacou o autor.
Discretos, solitários e com sede de liberdade
A apuração do Metrópoles revelou que os detentos chineses presos em Itaí costumam manter-se discretos. Muitos não recebem visitas, mandam cartas e limitam-se a receber advogados. A ideia é fazer de tudo para reduzir a pena e sair dali o mais rápido possível.
Para passar o tempo, jogam entre si, fumam um cigarro atrás do outro e assistem novelas, um bom jeito de aprender português. O aprendizado da língua ainda é ajudado pela grande quantidade de dicionários enviados pelo Consulado da China – órgão que faz da ala chinesa da biblioteca de Itaí uma das maiores, devido ao grande volume de livros mandados para a prisão.
A quantidade de livros acompanha o desempenho acadêmico dos presos, que alcançaram notas acima da média no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e conquistaram prêmios em Olimpíadas de Matemática.
Mesmo aprendendo rápido o português, só utilizam o idioma quando acham conveniente, e não gostam de se misturar com outras nacionalidades. A conduta é diferente do que acontece com latinos, por exemplo, que preferem se juntar às celas de criminosos que cometeram os mesmos tipos de crimes que eles – por exemplo, os condenados por roubo.
Quem são os chineses presos em Itaí
- O Metrópoles analisou a ficha da maioria dos 27 presos chineses que vivem no local.
- Os traficantes são a maior parcela, um total de 11.
- Os perfis, no entanto, variam desde pessoas presas pelo tráfico de metanfetamina até aqueles presos após serem flagrados tentando levar drogas para a Europa.
- Esses últimos, conhecidos como mulas, muitas vezes são forçados por mafiosos a praticar esse tipo de crime para pagar dívidas, segundo a reportagem apurou.
