Bloco mais antigo, Esfarrapado desfila tradição nas ruas do Bixiga

Em meio a um Carnaval repleto de atrações, o Esfarrapado, bloco mais antigo de SP, mantém as tradições das marchinhas no bairro do Bixiga

atualizado

metropoles.com

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EDSON LOPES JR/SECOM/SP
Imagem colorida mostra foliões no Bloco Esfarrapado, de São Paulo - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra foliões no Bloco Esfarrapado, de São Paulo - Metrópoles - Foto: EDSON LOPES JR/SECOM/SP

São Paulo – O Carnaval de rua de São Paulo se tornou, na última década, um dos maiores do Brasil. Neste ano, cerca de 500 blocos desfilam pelas ruas da capital paulista. A história da folia paulistana, no entanto, confunde-se com a trajetória de um bloco específico: o Esfarrapado.

Às 10h desta segunda-feira (20/2), na esquina das ruas 13 de Maio e Conselheiro Carrão – considerada o coração do Bixiga, tradicional bairro do centro –, o bloco mais antigo da cidade sai às ruas pela 74ª vez em sua história.

Devido à pandemia de Covid-19, o Esfarrapado não desfilou nos últimos dois anos e registrou as suas únicas ausências em 76 anos de existência.

Assim como a história do Carnaval de São Paulo se confunde com a trajetória do Esfarrapado, esta se confunde com a de Milton Credidio, o Tinin, de 87 anos.

Bloco mais antigo, Esfarrapado desfila tradição nas ruas do Bixiga
O presidente de honra, Tinin, e o vice-presidente, Mauricinho

“Começou como uma brincadeira”

Em 1947, Tinin tinha 11 anos e já estava entre os 20 fundadores do bloco. “Começou com uma brincadeira, na esquina da rua Rui Barbosa com a Conselheiro Carrão, onde era o antigo Cine Rex”, relembra. Tempos depois, o bloco passou a sair na esquina de cima.

Na época, o Carnaval do bairro já contava com um corso, ou seja, uma espécie de carreata em que os moradores saíam fantasiados pelas ruas.

Bloco mais antigo, Esfarrapado desfila tradição nas ruas do Bixiga
Pioneiro, Bloco Esfarrapado nasceu em 1947

A ideia de criar um bloco partiu de Armando Puglise, o Armandinho do Bixiga, considerado um dos patronos do bairro. Até a sua morte, em 1994, ele ficou à frente do grupo.

Dois anos depois, Tinin assumiu a presidência – cargo no qual ficou, oficialmente, por 15 anos. Na prática, no entanto, ele nunca deixou de exercer liderança sobre o bloco, do qual atualmente é presidente de honra.

“Não sou dono do bloco, sou filho dele. Por muitos anos, eu chegava da firma e ficava até 3h ou 4h da manhã pendurado em uma escada colocando os enfeites na rua. Saía pela cidade pedindo dinheiro, patrocínio. O bloco, gradativamente, cresceu. Passei a me preocupar em criar uma tradição para ele”, conta Tinin.

O “patriarca” afirma que, em 2023, pela primeira vez em muitos anos, não vai acompanhar o cortejo em cima do trio elétrico. A idade avançada impede que ele suba as escadas. Tinin, porém, garante que não vai ficar de fora, para não fugir da tradição presente em sua vida desde os 11 anos de idade. “Vou acompanhar de baixo, com meu copo de vinho.”

Tradições e adaptações

Ao longo dos seus 76 anos de história, o Esfarrapado manteve algumas de suas principais marcas: as marchinhas de Carnaval, a presença de crianças e idosos do bairro e, como o próprio nome sugere, a espontaneidade e simplicidade na maneira com que os foliões se vestem e saem às ruas.

“O que marca o bloco Esfarrapado é a espontaneidade e a alegria de poder estar no bloco mais antigo de São Paulo”, afirma Maurizio Bianchi, de 60 anos, outro “velha guarda” do bloco.

Nascido e criado no Bixiga, Mauricinho foi presidente do Esfarrapado entre 2011 e 2022, e hoje é vice-presidente. Ele diz que outra característica preservada é o prestígio das “estrelas” do próprio bairro, e não de grandes artistas, como é comum nos megablocos que carregam multidões no Carnaval de rua de São Paulo.

Bloco mais antigo, Esfarrapado desfila tradição nas ruas do Bixiga
Nascido e criado no Bixiga, Mauricinho foi presidente do Esfarrapado por 12 anos

“A gente não pega uma estrela pela mão e traz para o bloco. Tem que vir por livre e espontânea vontade. Nossas estrelas são nosso estandarte, nossa rainha, nossa princesa, aquele folião que veio fantasiado, que traz alegria, que traz seus filhos, suas crianças, seus idosos”, diz.

Apesar disso, outras tradições foram sendo vencidas pelo tempo. A mais sentida por Tinin é a inclusão de personagens que compunham o desfile.

Por muito tempo, moradores-símbolo do Bixiga se vestiam de figuras como os ex-presidentes Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek, o ex-prefeito da capital Prestes Maia e o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto. Tinin conta que, com a morte daqueles que se fantasiavam dessas figuras, elas foram desaparecendo do bloco.

“O bloco cresceu demais, mas foi difícil encontrar gente para assumir as personagens. Hoje em dia, não é todo mundo que vai fantasiado. Antigamente, eu saía de múmia. Sabe como? Enrolado em papel higiênico. Imagina quantos rolos eu gastava!”

Outra tradição foi deixada para trás, mas por motivo de polícia: os barris de cachaça disponibilizados aos foliões ao longo do trajeto.

“Não podia, porque criança podia beber, não tinha controle. Teve um ano que tive que ir na 5ª delegacia, no meio do bloco. O delegado falou que eu teria que voltar lá com a polícia e suspender a pinga. Eu falei: ‘Doutor, quando a gente chegar, o barril já vai estar seco, com todo mundo bêbado’. Depois desse ano, paramos de servir a pinga”, conta.

Dificuldades

Mesmo sendo tradicional em São Paulo, o Esfarrapado vive dificuldades. Mauricinho relata que, para o Carnaval deste ano, a diretoria teve de tirar dinheiro do próprio bolso para colocar o bloco na rua.

Estamos com pouco patrocínio. Os comerciantes que ajudavam antes reduziram a participação. Então, estamos tendo que tirar dinheiro do bolso para cumprir o mínimo de estrutura que a prefeitura exige. Isso acabou onerando nossas vidas pessoais, mas a gente tem esse compromisso de manter o bloco em pé, sempre vivo”, afirma.
Bloco mais antigo, Esfarrapado desfila tradição nas ruas do Bixiga
Bloco Esfarrapado sai às ruas na segunda-feira de Carnaval

A partir do momento em que o evento se tornou parte oficial do calendário do município, a “profissionalização” da folia em São Paulo transformou-se em um desafio para o Esfarrapado. “O que a antes a gente fazia em 10 pessoas, agora são 50. Tudo isso gera gasto, mesmo que 70% sejam voluntários”, diz o vice-presidente.

Mauricinho, no entanto, acredita que a dificuldade seja a mesma para outro blocos de pequeno e médio porte. “Nós temos a história, mas não somos muito diferentes deles. Essa nossa identidade não é suficiente para nos sustentar.”

O Bloco Esfarrapado se concentra às 10h desta segunda-feira, na esquina da rua 13 de Maio com a Conselheiro Carrão. O desfile começa às 14h, e a dispersão está marcada para 18h.

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