Casa “temporária” de shows causa transtornos e revolta em bairro rico
Prefeitura diz que casa de shows tem alvará temporário, passou por análise técnica e que não foram encontradas irregularidades em vistoria
atualizado
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Barulho, ruas tomadas por lamas, caminhões indo e vindo passaram a fazer parte da rotina de moradores do Brooklin, bairro rico da zona sul de São Paulo. Nos últimos meses, o sossego da área, que é vizinha a um hospital oncológico para tratamento paliativo, sumiu após a instalação de uma estrutura temporária de casa de shows erguida pela empresa Varanda Estaiada.
O empreendimento foi montado em um quarteirão cercado pelas avenidas Doutor Chucri Zaidan e Jurubatuba e tem sido alvo de denúncias da população.
O Metrópoles conversou com moradores de um prédio vizinho ao terreno onde está sendo instalado o Varanda Estaiada. O que começou como uma movimentação estranha de caminhões e retroescavadeiras logo virou motivo de preocupação.
“Não tinha placa, não tinha engenheiro responsável, arquiteto, nada. Era uma obra que sujava a rua, espalhava barro, e ninguém sabia do que se tratava”, relata a moradora Cintia Cury. Segundo ela, por semanas os moradores conviveram com o transtorno sem qualquer informação oficial sobre o que estava sendo construído ao lado de casa.
A real dimensão do projeto só veio à tona no fim de 2025, quando anúncios de eventos de Carnaval e a venda de ingressos começaram a circular nas redes sociais. “A gente só entendeu do que se tratava quando viu o endereço”, conta Cintia.
Foi nesse momento que os moradores perceberam que o espaço seria o Varanda Estaiada, casa de shows já conhecida na região por ter funcionado anteriormente do outro lado da Ponte Estaiada, na Avenida Magalhães de Castro, e que agora está sendo transferida para a Avenida Doutor Chucri Zaidan.
A movimentação intensa na rua também causou estranhamento e preocupação em outro morador, de 48 anos, que preferiu não se identificar. Ele conta que o fluxo constante de caminhões aumentou de forma repentina e chegou a provocar situações de risco. “Eu escorreguei por causa da lama na rua”, relata.
O homem, junto a outra moradora da região, Carolina Biatante, de 45 anos, decidiu procurar os responsáveis pelo que agora é chamado de “Novo Varanda Estaiada”. Eles conseguiram contato com um dos sócios da casa de shows, que concordou em realizar uma reunião com os moradores para falar da obra.
Segundo os moradores, durante o encontro, a administração do Varanda Estaiada afirmou que o espaço não é uma obra fixa, mas uma estrutura móvel e temporária. A explicação, porém, não convenceu quem vive ao redor.
“Eles dizem que não é uma obra, mas tem lama, tem remoção de terra e há pessoas trabalhando todos os dias. Para nós, moradores, não importa se é uma construção desmontável ou uma obra de concreto: é uma construção que incomoda a cada dia”, afirma Carolina.
Casa de shows ao lado de hospital
O novo endereço da Varanda Estaiada aumentou ainda mais a preocupação dos moradores por estar localizado ao lado do acesso a um dos portões do Hospital Premier Brooklin especializado em cuidados paliativos. O hospital funciona 24 horas por dia e conta com 95 leitos destinados a pacientes em estágio terminal.
A unidade fica no limite entre uma zona mista (onde são permitidas atividades comerciais e de serviços, além de moradias) e uma zona estritamente residencial (Z1), destinada exclusivamente a casas e prédios residenciais, com restrições severas a atividades que gerem barulho, grande circulação de pessoas ou impacto urbano.
Procurada, a administração do hospital informou ao Metrópoles que mantém contato frequente com o proprietário da Varanda Estaiada e que, desde o início, manifestou de forma clara sua “preocupação com possíveis impactos sonoros, além da circulação de público, fornecedores e veículos no entorno da unidade.”
O que diz a Prefeitura
- A Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) informou que foi concedido um Alvará de Autorização para a realização do evento “Arena Estaiada”, no período de 28 de janeiro a 20 de junho, na Avenida Doutor Chucri Zaidan, sem número.
- Segundo a pasta, a autorização foi concedida após análise técnica e o cumprimento integral das exigências, que regulamenta a realização de eventos públicos e temporários na cidade de São Paulo.
- A SMUL afirma que o responsável pelo evento apresentou documentação técnica e de segurança, além de uma declaração de conformidade com os limites de emissão de ruído permitidos para a área.
- A Subprefeitura de Pinheiros informou que acompanha as intervenções na Avenida Doutor Chucri Zaidan e que, durante vistoria realizada no dia 27 de janeiro, não foram constatadas irregularidades no local.
- Questionada sobre a sujeira nas ruas, a prefeitura informou que, caso haja acúmulo de barro ou resíduos, cabe ao responsável pelo imóvel ou pelo serviço providenciar imediatamente a retirada do material, a limpeza do local e o recolhimento de resíduos de qualquer natureza.
O que diz o Varanda
Os moradores criaram um abaixo-assinado online que já reúne cerca de 1.230 assinaturas contra a instalação do Varanda Estaiada no local.
A reportagem teve acesso a uma nota enviada pelo estabelecimento aos moradores. No comunicado, o Varanda Estaiada afirma que o não se trata de uma casa de shows permanente, mas de um local destinado à realização de eventos temporários, de natureza social, corporativa e institucional, realizados de forma pontual e planejada, sempre mediante as licenças e autorizações exigidas para cada evento.
Ainda segundo a nota, o Varanda Estaiada afirmou que possui e mantém todas as licenças, autorizações e documentações necessárias para a realização dos eventos temporários, operando de forma regular.
















