Prefeitura contrata empresa de assessora de Frota para show de pagode
Assessora do vereador de Cotia Alexandre Frota (PDT) representa Negritude Junior, contratado por secretário, que é biógrafo do parlamentar
atualizado
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Um show do grupo de pagode Negritude Júnior para a comemoração da Congada de São Benedito em Cotia, na Grande São Paulo, levantou suspeitas. Isso porque o contrato para a apresentação foi firmado entre a representante da banda, Roneia Forte Corrêa, que também atua como assessora do vereador da cidade Alexandre Frota (PDT), e o secretário municipal de Cultura e Lazer, Pedro Henrique Maciel Peixoto. Ele é autor do livro “Identidade Frota 5.0: a estrela e a escuridão”, uma biografia sobre o político e ator.
O contrato foi assinado no dia 14 de maio, quatro dias antes da realização do show. A prefeitura e a auxiliar de Frota acertaram o preço do show por R$ 67 mil. Segundo a prefeitura, o valor foi obtido após uma negociação, que resultou na redução de R$ 22 mil em relação ao valor pedido pela banda. Um conselheiro de cultura de Cotia foi à capital paulista para denunciar a contratação ao Ministério Público de São Paulo (MPSP).
Frota afirma que não tinha conhecimento sobre o contrato e, ao ser informado sobre o caso, exonerou Roneia imediatamente (veja abaixo).
Em 2024, Frota foi eleito vereador em Cotia com 2.893 votos e tomou posse em janeiro deste ano. De janeiro a maio, Roneia Forte Corrêa esteve lotada no gabinete do ex-deputado, mas acabou perdendo o cargo público após a contratação, pela Prefeitura de Cotia, da banda da qual também atua como agente.
Embora não conste mais no quadro de servidores, Roneia ainda prestou serviços como assessora de imprensa do vereador, pelo menos até o último dia 17 de junho.
“Foi um erro meu mesmo, eu não deveria ter vendido esse show. Eu não me atentei a isso, porque eu estava trabalhando com ele em Cotia. Fui mandada embora por conta disso, porque ele ficou muito bravo comigo, me deu bronca porque eu realmente errei”, admite Roneia ao Metrópoles.
Roneia diz ainda que, durante a negociação, “nem sabia que era para Cotia” e que o secretário de cultura também não sabia que ela trabalhava para Frota.
A empresa que representa o Negritude Júnior já foi investigada pelo Ministério Público (MPSP) por suposto superfaturamento em outro show, que ocorreu em Campinas. O inquérito aberto em 2024 pela promotora Cristiane Corrêa de Souza Hillal apura se os shows fazem parte de um esquema de rachadinha, envolvendo emendas no Orçamento municipal e “acertos ilícitos entre vereadores e artistas”.
Em Campinas, o Negritude Júnior foi contratado por R$ 69 mil e o MP suspeita de sobrepreço de 65%, bancado com emenda de Nelson Hossri (PSD) e Marcelo da Farmácia (PSB).
O que diz Frota
Em vídeo publicado nas redes sociais como resposta à reportagem do Metrópoles, Alexandre Frota afirmou que o contrato foi feito pela Prefeitura de Cotia. “Não foi o Alexandre Frota, não foi a Câmara, não foi o meu gabinete”, disse.
Além disso, ele afirmou, ao tomar conhecimento do contrato, exonerou Roneia “de imediato”. “Essa era a decisão a ser tomada”, disse, acrescentando que tem sido alvo recorrente de “perseguição política e jurídica”.
Secretário apresentado por Frota
Biógrafo de Frota, Pedro Henrique Maciel Peixoto, que está à frente da pasta de Cultura e Lazer de Cotia, foi secretário Nacional de Audiovisual, durante o governo de Jair Bolsonaro. Em entrevistas a veículos locais, ele diz que conhece Frota há mais de 30 anos e foi apresentado ao prefeito Wellington Formiga (PDT) pelo vereador.
A prefeitura nega que tenha existido qualquer interferência de vereadores na nomeação de Peixoto e refutou conflito de interesses na contratação da banda de pagode.
“O secretário de Cultura e Lazer de Cotia, Pedro Henrique Maciel Peixoto, foi nomeado pela atual gestão municipal única e exclusivamente com base em sua experiência e capacidade técnica para estar à frente da pasta. Não há conflito de interesse, pois a contratação da empresa foi feita pela Prefeitura sem nenhuma participação da Câmara”, diz em nota.
Risco de cassação
Em outra polêmica envolvendo Frota à frente de seu mandato em Cotia, o vereador foi questionado por entrar em unidades de saúde da cidade à noite para “fiscalizar” o trabalho dos agentes de saúde do município. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) considerou que o parlamentar invadiu estabelecimentos de saúde e denunciou Frota à Câmara Municipal de Cotia. O Legislativo do município recebeu a denúncia e a Comissão de Ética abriu um processo para apurar suposta quebra de decoro parlamentar.
Frota se reuniu com o presidente da Cremesp, Dr. Angelo Vattimo, e divulgou que selou uma “aliança histórica” com o Conselho. Dois dias depois, o presidente do Cremesp desmentiu as afirmações do vereador e publicou uma nota nas redes sociais, intitulada “não há aliança ou acordo quando se trata de prerrogativas médicas”.
“O Cremesp aceitou as reiteradas solicitações do vereador, com o intuito de ouvir sua retratação a respeito das ‘fiscalizações’ divulgadas por ele. Na ocasião, Frota se redimiu, se comprometeu a atender à exigência do Conselho em encaminhar as denúncias que receber para o Cremesp, e reconheceu o papel único e indivisível da Autarquia como órgão fiscalizador”, escreveu a autarquia.












