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São Paulo

Mesmo caso tem preso a caminho do júri e PMs investigados há 15 meses

Uma mesma ocorrência gerou duas ações penais com velocidades de andamento diferentes: um suspeito civil vai a júri e PMs seguem sem acusação

13/08/2026 02:45
Imagens cedidas ao Metrópoles
Mesmo caso: acusado vai a júri e PMs seguem investigados sem conclusão - Metrópoles

Uma perseguição policial que acabou em uma morte e uma prisão em flagrante em Campinas, no interior de São Paulo, em maio do ano passado, gerou duas investigações e processos judiciais com velocidade de andamento totalmente diferentes.

Enquanto o preso, acusado de tentativa de homicídio contra policiais militares, vai ao Tribunal do Júri no próximo mês, os agentes que mataram o outro suspeito são alvos de um inquérito policial que segue há 15 meses no 9º Distrito Policial de Campinas, sem conclusão.

Perseguição policial acaba com morte e prisão em flagrante

Na noite de 23 de maio do ano passado, uma viatura da Polícia Militar estava em patrulha quando os agentes foram abordados por um motorista em um Spacefox, que disse estar sendo seguido por um Fiat Uno azul. Ao avistarem o Uno, os PMs iniciaram a perseguição, que se estendeu até a madrugada do dia seguinte.

Durante o encalço policial, houve troca de tiros entre os militares e os suspeitos. Em dado momento, Nadyson Henrique Martins Stein, de 21 anos, que estava no passageiro do Uno, pulou do carro em movimento. Ele foi detido e preso em flagrante.

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A perseguição seguiu até o motorista do Uno, Samuel Henrique da Silva Cruz, 20, ser atingido por dois tiros da PM e bater o veículo. Ele foi socorrido por familiares e morreu cinco dias depois em um hospital, em decorrência dos ferimentos. Nenhum policial se feriu na ocorrência.

Nadyson também se feriu na troca de tiros e foi internado. Três dias após dar entrada no hospital, o suspeito deu entrada no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Campinas e segue preso preventivamente desde então.

Ele é acusado de homicídio qualificado tentado, por supostamente ter atirado contras os policiais (veja mais abaixo). Do outro lado, o soldado Edison Mozart Moura, o cabo Steferson Caetano de Souza e o 3º sargento Wilson Domingos Fontes Silva são alvos de um inquérito que apura as circunstâncias da morte de Samuel, ainda sem conclusão.

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Dois pesos, duas medidas

A investigação que apura a conduta dos policiais militares ainda não foi concluída. O inquérito segue há 15 meses no 9º Distrito Policial de Campinas, com sucessivos pedidos de dilação de prazo feitos pela autoridade policial. Os investigadores aguardam a conclusão de laudos periciais e a análise de vídeos de câmeras de segurança, já que os PMs não utilizavam bodycam no momento da ocorrência.

Já a investigação contra Nadyson por tentativa de homicídio evoluiu bem mais depressa. O inquérito foi finalizado apenas dois dias após a ocorrência, em 26 de maio do ano passado, e ele foi indiciado por homicídio qualificado tentado, por duas vezes, contra dois PMs.

Menos de 10 dias depois, em 4 de junho, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) denunciou Nadyson pelo mesmo delito. A denúncia foi aceita pela Justiça no mesmo dia. A fase de instrução (produção de provas) do caso encerrou em 12 de fevereiro deste ano, e em 20 de fevereiro uma decisão o pronunciou para ser submetido ao Tribunal do Júri. A sessão está marcada para o próximo 3 de setembro.

O Metrópoles questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP) e o MPSP sobre a diferença no andamento das investigações, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

Tentativa de homicídio contestada

Nadyson foi acusado com base nos depoimentos dos policiais, que alegaram que o suspeito iniciou a troca de tiros. O investigado nega ter portado qualquer arma ou efetuado disparos, e alega que pulou do carro após ter sido atingido por um tiro nas costas disparado pela PM. Ele alegou ainda que Samuel empreendeu fuga por não ter habilitação de motorista.

Dentro do Uno, após Nadyson saltar, foi localizado um revólver calibre .38 com cinco munições deflagradas. A defesa do investigado enfatizou nos autos que ele foi rendido desarmado, a quilômetros de onde o carro foi encontrado.

A defesa destacou ainda que o Estado foi negligente ao não realizar o exame residuográfico que encontraria pólvora nas mãos de Nadyson logo após a prisão. Ele esteve sob custódia ininterrupta da PM desde que se rendeu, mas o exame não foi feito, e esta seria a prova definitiva para confirmar ou descartar o manuseio da arma.

Até a última atualização do processo penal, a perícia também não confirmou a presença do DNA de Nadyson no revólver apreendido, mesmo após a expedição de diferentes ofícios para coletar o material genético do investigado na unidade prisional.

Além disso, o para-brisa da viatura, baleado com os disparos, foi substituído após uma perícia inicial, o que impediu uma análise mais minuciosa. O laudo feito permitiu identificar, no entanto, que o vidro cotinha 14 perfurações, sendo 13 marcas produzidas de  “dentro para fora” (pelos próprios PMs). Apenas uma foi classificada como vindo de “fora para dentro”, porém como resultado de um ricochete, o que impossibilitou determinar o calibre do projétil e se ele partiu do Fiat Uno.