Impossível enfrentar tudo: ser forte não é anestesiar-se do sofrimento
A vida sai do controle e controlar a vida é um dos principais argumentos dos ditos fortes
atualizado
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O plano de vida de ninguém é o fracasso. Cada um busca, do seu jeito, uma forma de alcançar o que almeja. Em nome disso, vamos além das nossas limitações e sofrimentos. E ficamos contentes com a evolução. Isto é, se conseguirmos cumprir essa tarefa. Nem sempre dá.
Lidar com a falha não é fácil. Até porque sempre aparece aquela voz, interna ou externa, cheia de opinião. “Aguente firme.” “Você não vai fraquejar agora.” “O que vão dizer se você desistir?” “Assim você me decepciona.” E bate aquela vergonha, que só agrava o mal-estar.
Agora são dois problemas a administrar: a frustração e a culpa. Uma receita para liquidá-los? Insista, vá fundo. Aos poucos, o esforço fará com que os músculos se enrijeçam, e as emoções se anestesiem. Você se transformará numa pessoa forte, aos olhos dos demais.
Não é exatamente força, mas vai parecer que sim. Você sentirá menos o peso da dor, e ignorará que ela é o marcador de perigo, o que aponta para o que deixou de ser tolerável, saudável. Saber silenciá-la tira dos outros, e até de você, o foco sobre seu sofrimento.
Enquanto isso, ele crescerá sorrateiro no porão da sua alma. Aguardará a melhor oportunidade para revelar-se. Isso ocorrerá quando algum acontecimento da vida baixar, um pouco que seja, as suas guardas.Daí, será cobrada centavo a centavo a emoção negligenciada em nome dessa suposta força. Exemplos clássicos: o surto de pânico quando o avião decola, a paixão arrasadora que coloca tudo em risco, a doença inesperada que atrapalha o que foi planejado com minúcia. A vida sai do controle, e controlar a vida é um dos principais argumentos dos ditos fortes.
O descontrole pressupõe a fantasia de controle. E esta só existe quando não admitimos a surpresa negativa – o imponderável, imprevisível, que nos leva a confrontar nossas carências e limitações. Deparamo-nos com as lacunas, que impedem de sermos aquilo que imaginávamos.
Ou seja, o “forte” é aquele que, internamente, perde por W.O.: desistiu de enfrentar as próprias misérias, e passou a enfrentar tudo que aparece pela frente. Suporta o insuportável para provar-se capaz. De uma incoerência total.
A força brota da capacidade de conciliarmos vontade, recursos e circunstâncias, sem desprezar as emoções que nos atravessam. Caso contrário, desenvolvemos apenas couraças – artefatos psíquicos que nos isolam do mundo e nos dão a falsa impressão de aptidão para resistir. Assim, nada sai e nada entra – nem o que é bom, nem o que é ruim.
