Boa notícia: somos capazes de reelaborar e reinterpretar nossas vidas

Não somos especificamente um resultado daquilo que nos ocorreu, mas, principalmente, da forma como conseguimos elaborar tais acontecimentos

iStock

atualizado 27/02/2019 13:10

Não conseguimos corrigir nossa história, mas sim a forma como a interpretamos. A memória se vê no olhar, na pele, no tom da fala. Em cada gesto, em cada decisão. Nos sins e nãos. A história nos atravessa naquilo que somos e no que deixamos de ser. Ela é parte constituinte daquilo que gostamos e renegamos.

Nossos pés se moldam a partir dos caminhos percorridos. A cada passo, uma nova marca. Calos, às vezes, que deixam a aparência rude, a pisada dura, insensível a novos espinhos.

Somos o leite que mamamos, o lápis roído na carteira da escola. Somos cada palavra que nos foi direcionada. Os silêncios que nos assolaram, e também os que desejávamos. Os abraços trocados, os que ficaram em falta.

Nada disso será corrigido, nem melhorado. É o que é. Conforme-se, lide com isso, reaja. Copiamos o que foi bom, renegamos o que machucou. E, ao renegarmos, muitas vezes nos entrelaçamos ainda mais com tais eventos.

Não somos especificamente um resultado daquilo que nos ocorreu, mas, principalmente, da forma como conseguimos elaborar tais acontecimentos. E esta é a boa notícia: somos capazes de reelaborar.

O preço para isso é, antes de qualquer coisa, querer se desprender daquilo que, até agora, foi tratado como motivo existencial. É um valor alto a pagar, especialmente por desenvolvermos uma espécie de estima perversa com nossas feridas.

Mesmo que inconscientemente, recontamos nossas mazelas para afetar os outros. Buscamos cumplicidade, acolhimento, facilitação. E nem sempre é disso que precisamos. Não mais.

Amadurecer é saber dar um lugar ao passado. Fazer com que os caminhos percorridos tenham menos importância do que aquilo que somos hoje, e, principalmente, da forma como interpretamos nossa realidade.

É a partir do momento em que conseguimos contar uma nova história ao narrarmos os mesmos fatos que percebemos a evolução sobre um determinado tema. Demonstra que fomos capazes de ir além, ao atribuirmos novos significados impensados até então.

Nesta revisão, desmanchamos muitos dos tabus que embargam o progresso. Não é uma visão polianista das coisas, aquele papo de “querer, poder e conseguir”. A leitura que fazemos de nossa vida impede que tais verbos se conjuguem harmoniosamente entre si como numa orquestra.

Despedir-se do passado é autoproclamar a libertação dos padrões que a vida impôs. Só assim deixamos de enxergar tudo como uma sina compulsória, determinante daquilo que somos. Estaremos, então, autorizados e capacitados para ter um futuro, e a responsabilizarmo-nos por ele.

Últimas notícias