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Leilane Menezes

Igo Estrela/Metrópoles

Venezuelanas no Brasil: onde termina a reportagem e começa a vida?

Leilane Menezes
 

Onde termina a reportagem e começa a vida? May Jeong fez-se essa pergunta ao saber da morte da amiga Kim Wall. As duas costumavam falar sobre serem mulheres, jovens e repórteres viajando pelo mundo em busca de histórias para contar.

Kim Wall morreu assassinada num submarino, na Dinamarca, quando entrevistava o criador da embarcação, um excêntrico inventor bastante popular no país. Notícias sobre o caso rodaram o mundo e, rapidamente, alguns jornais resumiram Kim Wall a um “corpo de mulher encontrado esquartejado no mar”.

A repórter era uma corajosa, premiada e apaixonada profissional. Quando soube da história inusitada, não pensou duas vezes antes de marcar encontro com o desconhecido e colocar-se desprotegida perante ele.

Nós, jornalistas, não apenas ignoramos o conselho de nossas mães – “não fale com estranhos!” – como fazemos disso um propósito de vida."

Uma entrevista é um acordo invasivo, no qual nos apresentamos vulneráveis e expostas. Assim como quem nos permite verdadeiramente adentrar em suas histórias, remexer memórias e sentimentos. Na maioria das vezes, saímos todos vivos. Apesar dos riscos da profissão e da seriedade do nosso trabalho, este é o resultado de uma rápida procura no Google com termos “mulheres repórteres”:

Reprodução

 

Neste 8 de março, gostaria de celebrar as mulheres que reportam e as que se deixam reportar. A venezuelana Rosa me perguntou: “O que você quer com isso?”, quando pedi uma entrevista para a matéria Órfãs de terra-mãe: a saga das mulheres venezuelanas refugiadas no Brasil, publicada nesta quinta-feira (8/3) pelo Metrópoles. Com o questionamento, lembrei-me de Kim Wall – à qual nunca conheci, mas em quem penso com frequência – e da pergunta de abertura deste texto.

Rosa (nome fictício, a pedido dela) permitiu-me olhar para suas dolorosas e recentes memórias. A irmã dela, Maria, refugiada no Brasil, quase foi morta esfaqueada por um homem, numa estrada deserta de Boa Vista (RR), durante um programa.

Em notícias sobre o crime, era só “a garota de programa venezuelana de 30 anos”. Maria perdeu parte dos movimentos das pernas e teve de voltar à Venezuela. Antes da crise econômica e social no país de origem, era enfermeira e criava o filho sozinha.

O que desejamos quando falamos de algo tão delicado? Ou quando sentamos ao lado de uma mãe faminta, alimentando seu bebê desnutrido, no meio de uma estrada em Roraima. Isso depois de cinco dias de viagem? Qual é o nosso papel ao ficar, junto dessa mesma mulher, sob a mira de uma arma, porque a polícia procurava traficantes naquele exato local, naquele preciso momento

Igo Estrela / Especial para o Metrópoles

A repórter Leilane Menezes ao lado de Gekidel e seus filhos, e da irmã dela, Joeli Monroe, minutos após a interrupção da polícia


O policial checou nossos documentos e seguiu sua procura. A moça alimentando o filho chama-se Gekidel Casanova, tem 21 anos.  Após a experiência assustadora, ela aceitou conversar com nossa equipe. A tensão num momento tão íntimo foi só o começo das dificuldades em solo brasileiro. As palavras que ela desejou dizer sobre si mesma e sua busca estão entre os relatos da reportagem.

O refúgio e a migração são tratados, geralmente, sem recorte de gênero. Assim, as necessidades específicas da condição feminina seguem ignoradas. Elas estão mais expostas à exploração sexual, à violência doméstica, ainda mais quando a “casa” é um abrigo com centenas de pessoas ou a rua. Essa invisibilidade limita o acesso a direitos e à proteção social adequada.

Reportagem, na minha avaliação pessoal, é ponte, conexão. Um ato, admito, de curiosidade, mas também repleto do desejo de dar mais eco a quem costuma ser resumido como “as mulheres refugiadas”, “as grávidas da maternidade de Boa Vista”, “putas do Caimbé (bairro de Boa Vista famosa pela prostituição)”.

Não cabe alguém inteiro em uma palavra: vagabunda, santa, bonita, feia, mãe, esposa, sozinha. Em Órfãs de terra-mãe, os depoimentos estão em primeira pessoa. Alguns são curtos, outros longos. Todos genuínos, como elas quiseram. Onde as palavras terminam, está a reprodução da assinatura original da protagonista.

Ao entrar no universo de cada uma, reconheci sensações: medo da violência sexual, temor de ser agredida, desrespeitada, incompreendida, menosprezada por ser mulher, o desejo de independência, a resiliência, a força. E também mirei o desconhecido: fome, dor de ser obrigada a deixar o país de origem,  medo de perder um filho. A soma do que os olhos alcançaram é reportagem. Todo o resto é vida intocável.

 
 


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