Parceria com a Europa apresenta oportunidade para a indústria nacional
A ApexBrasil está particularmente bem situada para se tornar a grande energizadora e viabilizadora de um esforço nacional nessa direção
Roberto Jaguaribe
O mundo está mais fragmentado, mais competitivo e menos regido por regras multilaterais. O desconforto entre as grandes potências passa a uma rivalidade mais ativa e as disputas se acirram. Cresce tanto o uso de instrumentos de força para benefícios comerciais, como o uso do comércio para benefícios geopolíticos. A evolução exponencial das novas tecnologias, particularmente a inteligência artificial e a enorme demanda desta por energia e minerais críticos desencadeia uma corrida por cadeias produtivas estratégicas.
Os países industrializados buscam, ao menos, garantir suprimentos mais estáveis e confiáveis. Surge uma demanda de reorganização das cadeias produtivas, em que a resiliência e a segurança são protagonistas, mas a competitividade continua fundamental.
Esse contexto, que evidencia as fragilidades e os trunfos do Brasil, nos abre novas e relevantes possibilidades, baseadas não apenas em nossos atributos mais evidentes, como a abundância de recursos minerais e de energia renovável a preços competitivos, mas também na capacidade de assegurar a confiabilidade de suprimento e de parceria, tão necessária nesse cenário mais competitivo e incerto.
A indústria é um dos setores que mais pode tirar proveito dessas mudanças. Ela já vem consolidando um novo posicionamento no cenário internacional, e a participação do Brasil na Hannover Messe marcou uma inflexão nesse processo.
Com uma presença robusta em plataformas globais de negócios e tecnologia, o país reforçou sua imagem como parceiro industrial competitivo, inovador e preparado para responder aos desafios contemporâneos, da transição energética à digitalização produtiva.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesMais de 300 empresas e 140 expositores, além de centenas de empresários e lideranças industriais, colocaram em evidência a diversidade da indústria nacional, a amplitude de sua base produtiva em diferentes frentes tecnológicas e sua capacidade de oferecer soluções em áreas estratégicas como automação, inteligência artificial, energia limpa, manufatura avançada e mobilidade sustentável.
Parcerias estruturadas
Ao longo dessa agenda internacional, o Brasil tem se destacado pela combinação entre tecnologia, negócios e articulação institucional. Ambientes dedicados à inovação concentram apresentações de startups, sessões de negócios, debates técnicos e encontros bilaterais, criando oportunidades concretas de conexão com investidores, empresas e centros de pesquisa globais. Esse ecossistema favorece a geração de parcerias estruturadas e o avanço de projetos conjuntos em setores-chave da nova indústria.
Na feira industrial de Hannover, como país convidado, além das diversas frentes tecnológicas competitivas, o Brasil, evidentemente, também deu destaque a nossas significativas vantagens comparativas naturais.
Nesse momento de extraordinária transformação tecnológica, o Brasil — e muitos outros países — tem o desafio de ampliar a produtividade, de forma acelerada e consistente, por meio do uso da inteligência artificial em todos os setores, inclusive o terciário, e, de forma concomitante, ampliar sua competência para não depender exclusivamente de modelos controlados por outros países.
Nessa expansão vertiginosa da Inteligência Artificial, o Brasil é um ator de grande relevância, por possuir em abundância a base dos ativos mais importantes: energia e minerais críticos. Esse ativo deve ser utilizado como fator atrativo para formar parcerias que nos permitam acelerar nossa capacitação nas fronteiras tecnológicas mais sofisticadas, além, é claro, de nos habilitar a agregar valor nas cadeias produtivas.
Países com grande potencial de energia renovável, como o Brasil, possuem uma vantagem competitiva única para atrair investimentos nas etapas de refino de minerais, que são intensivas em energia. Isso permite uma produção de baixo carbono em comparação com países cuja matriz ainda é muito dependente de combustíveis fósseis.
Demanda por sustentabilidade
A sustentabilidade é outro fator crítico. Apesar de os países industrializados do Ocidente terem priorizado, nos anos recentes, o crescimento econômico e a retomada da produção industrial, a demanda por sustentabilidade é cada vez mais evidente. Isso é particularmente verdadeiro na Europa, a região povoada mais afetada pela mudança climática, com aumento médio de temperatura de 0,54 graus por década.
Os picos de temperatura do início deste verão de 2026 provocaram, em diversas localidades da Europa, paralisação de atividades e fechamento de edifícios públicos, além da ativação extemporânea de serviços emergenciais.
Além do custo que representam esses episódios, eles também são evidência crescente da mudança climática e representam um alerta que não passa desapercebido pela população, tornando mais difícil a sustentação do ceticismo climático manifestado por grupos radicais pelo mundo, inclusive na Europa. Tornam também mais evidente a necessidade não apenas de políticas públicas, mas também empresariais e industriais, voltadas para a mitigação do problema.
Nesse contexto, o Brasil tem ampliado sua relevância como plataforma para soluções sustentáveis. Com uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e forte presença em biocombustíveis, o país reúne condições únicas para contribuir com a descarbonização industrial. Projetos ligados ao hidrogênio de baixo carbono, à produção de combustíveis sustentáveis e à eletrificação industrial vêm ganhando escala e atraindo interesse internacional.
Agregação de valor
Empresas brasileiras já demonstram, na prática, essa capacidade. Organizações como WEG, Embraer, Novus, Stefanini e Be8 atuam em frentes que vão da automação industrial à energia renovável, passando por tecnologias digitais e soluções para mobilidade sustentável. Esse conjunto evidencia uma indústria que avança na agregação de valor e no desenvolvimento de tecnologias alinhadas às demandas globais.
Essa cooperação vem se aprofundando com novos projetos e instrumentos institucionais. Entre os destaques está o avanço de investimentos em energia limpa, como iniciativas voltadas à produção de hidrogênio de baixo carbono e seus derivados, além da ampliação de parcerias em inovação. Memorandos de entendimento e acordos de cooperação reforçam a conexão entre os ecossistemas de tecnologia, empreendedorismo e indústria dos dois países.
Esse ambiente favorece a inserção do Brasil em cadeias de valor mais sofisticadas, especialmente em setores estratégicos como energia, indústria de baixo carbono, tecnologia e infraestrutura. A convergência regulatória e o fortalecimento das relações comerciais tendem a ampliar o fluxo de investimentos, estimular joint ventures e acelerar a transferência de tecnologia.
Mais do que ampliar exportações, o movimento atual indica uma mudança estrutural na forma como o Brasil se posiciona globalmente. O país passa a atuar como um parceiro capaz de desenvolver soluções industriais completas, integrando inovação, sustentabilidade e escala produtiva.
Por que a Europa deve merecer atenção particular
Nesse contexto internacional conturbado e instável, é importante para o Brasil procurar parcerias sólidas e confiáveis. É também importante buscar a diversificação e evitar concentrações excessivas, que, como evidenciado ao longo dos últimos anos, podem resultar em grande vulnerabilidade.
O Brasil deve continuar a buscar maximizar suas relações com todos os países. É evidente que os mercados maiores podem trazer maiores benefícios. Estados Unidos, China e Europa são as três potências — dois países e um bloco — de maior peso econômico e comercial.
Os Estados Unidos são um parceiro tradicional e importante. Podemos mesmo dizer necessário, tanto pelos proveitos reais e potenciais do engajamento, como pelos malefícios políticos, econômicos e comerciais de sua ausência ou, pior, de uma perceptível dissonância.
No contexto atual, o direcionamento deve ser o de manter a melhor e mais ampla relação, evitando excessiva concentração ou perda de soberania. É uma equação difícil, para cujo adequado encaminhamento é necessária uma atuação coesa de governo, setor privado e entidades setoriais, buscando, do lado dos EUA, uma gama ampla de interlocutores e canais.
O crescimento vertiginoso da China é o fato político e econômico mais relevante dos últimos 50 anos e foi muito positivo para o Brasil e, na visão de muitos, também para o mundo. A China é, desde 2016, a maior economia do mundo e, de longe, o maior produtor industrial.
Não obstante sua grande dimensão econômica, a China está longe de ser um país autossuficiente, contrariamente aos Estados Unidos, cuja única dependência externa anterior, a de energia, foi amplamente superada pelo boom do gás e do petróleo obtidos do xisto por meio das novas tecnologias de perfuração horizontal e fraturamento hidráulico.
A China tem três dependências externas muito relevantes: energia, minerais e alimentos — coincidentemente, três segmentos em que o Brasil é um grande e competitivo produtor. É natural, assim, que tenha havido um aumento exponencial do comércio entre Brasil e China.
Relação sem ideologias
A relação com a China não é fruto de decisões ideológicas, mas de uma complementaridade muito evidente. Na realidade, a ausência de relacionamento com a China é que seria uma opção claramente ideológica.
A presença da Europa no Brasil é marcante desde o período colonial. No comércio, foi nossa maior parceira até 2013, quando foi superada pela China. Continua hoje como a segunda maior parceira comercial do Brasil.
Nos investimentos, sempre foi e continua sendo a primeira colocada, com destaque para o setor industrial. Segundo a Câmara de Comércio Alemã, apenas os investimentos teuto-brasileiros representam cerca de 10% do PIB industrial do Brasil.
Milhares de empresas europeias atuam no Brasil: a Alemanha tem entre 1,2 mil e 1,4 mil, e o número de empresas francesas não é muito distinto. A convergência com a Europa, contudo, vai muito além do comércio e dos investimentos. Nesse momento de fragmentação do cenário internacional, Brasil e Europa estão juntos no interesse da preservação dos valores do direito internacional, do multilateralismo, dos direitos humanos e do desenvolvimento sustentável.
Têm também um interesse comum na manutenção de espaços de comércio com previsibilidade e continuidade. Ademais da grande quantidade de empresas europeias, a base cultural e étnica do Brasil é essencialmente uma combinação europeia, africana e indígena, com relevante contribuição árabe e asiática. Acrescente-se, ainda, a deficiência europeia de energia e de matérias-primas, particularmente minerais críticos.
Do lado europeu, há uma extraordinária capacidade de investimentos, aliada a uma base empresarial global ativa e dinâmica, grande produção de ciência de ponta, diversos centros de pesquisa referenciais e uma competência estabelecida em diversos países de integração desse segmento na produção. Por fim, contamos agora com o acordo Mercosul-União Europeia, que já entrou em vigor, ainda que provisoriamente.
Aumento de exportações
A entrada em vigor do acordo abriu de imediato perspectivas de ampliação do comércio nas duas direções. A Apex já realizou estudos de inteligência comercial sobre o tema, identificando diversos nichos que merecem ser explorados pelo setor produtivo brasileiro. Passados pouco mais de dois meses, já é possível notar uma clara expansão do comércio nas duas direções: as exportações do Brasil para o bloco em junho de 2026 aumentaram quase 13% em comparação a junho do ano anterior.
É cedo para determinar qual será o aumento efetivo do comércio, mas há pouca dúvida de que será real e relevante. Apesar desse início promissor, é nos investimentos que se situa o maior potencial de frutificação desse acordo: os cerca de US$ 400 – 500 bilhões de investimentos no Brasil são apenas uma fração dos mais de US$ 14 trilhões que a União Europeia investe fora de seu território. É nos investimentos que poderemos efetuar uma mudança qualitativa importante na produção nacional e maximizar o potencial de nosso amplo acervo de ativos naturais.
Por outro lado, é preciso ter presente que a Europa atravessa um período difícil, marcado pela quebra de confiança na relação com os EUA, por desafios de natureza geopolítica, pela crescente relevância de partidos radicais, por problemas demográficos associados ao envelhecimento da população — com as consequentes dificuldades fiscais para a seguridade social —, pela continuada perda de competitividade na produção industrial, com custos muito elevados de energia, e por um maior distanciamento em relação à China e aos EUA nas competências em segmentos tecnológicos cruciais, como digitalização, robótica e, especialmente, inteligência artificial.
A questão dos custos energéticos é particularmente sensível. Diante da pressão social e política — e, consequentemente, eleitoral — para preservar empregos industriais, diversos países europeus têm buscado subsidiar o custo da energia como forma de sustentar a competitividade de sua indústria.
Do ponto de vista da sustentabilidade, tanto econômica quanto ambiental, essa não é uma solução eficaz: subsídios energéticos tendem a mascarar, em vez de resolver, o problema estrutural de custos, além de representarem um peso fiscal crescente e de conflitarem com as metas de descarbonização. Uma trajetória mais consistente para a Europa seria buscar parcerias com países que disponham de energia renovável abundante e a preços competitivos, aliada a uma ampla oferta de minerais, inclusive críticos — exatamente o perfil que o Brasil pode oferecer.
Nesse contexto, a atenção que as sociedades europeias dão ao Brasil e ao acordo com o Mercosul é reduzida. Apesar da evidente complementariedade econômica, da convergência política e de visões de mundo e da entrada em vigor do Acordo Mercosul – União Europeia, a materialização de uma nova parceria, mais intensa e diversificada, tão natural e importante para ambos os lados, não vai surgir de forma espontânea.
Os mais de 25 anos necessários para a conclusão do acordo e as ainda existentes resistências à sua implementação definitiva são evidência disso. È verdade que o principal já foi feito e que há ampla maioria de apoio político entre os atuais governos.
Superar a ignorância e desinformação sobre o Brasil
É importante, contudo, um esforço concentrado, em duas frentes, para que possamos colher os benefícios maiores que estão a nosso alcance. A primeira frente é de natureza política e mesmo cultural: buscar superar a ignorância e desinformação a respeito do Brasil e do Acordo e deve ser concentrada em Bruxelas, sobretudo a fim de ajudar nossos diversos parceiros e aliados locais a evitar surpresas na aprovação definitiva do Acordo.
A segunda é econômica, regulatória e operacional. É voltada para a identificação dos setores e das parcerias mais promissoras e ao equacionamento das demandas financeiras e regulatórias que possam otimizar o impacto das ações que serão tomadas e dos empreendimentos que deverão ser formados.
Cabe sobretudo ao Brasil tomar a iniciativa de dar esses passos iniciais. Nossos maiores aliados nesse processo são as próprias empresas e câmaras de comércio europeias, particularmente as já estabelecidas no Brasil, e as entidades representativas do setor produtivo industrial de lá e de cá.
É importante, por um lado a ampla coordenação de todos os parceiros relevantes no âmbito federal e no setor privado, por meio de suas entidades representativas, particularmente as industriais, mas também as do setor agrário; por outro, a finalização de acertos bilaterais, como o acordo de bitributação, para desentravar as perspectivas de investimento.
A ApexBrasil está particularmente bem situada para se tornar a grande energizadora e viabilizadora de um esforço nacional nessa direção, e já está se preparando para isso. A agência organizou, com grande sucesso, a participação brasileira na maior feira industrial do mundo, em Hannover, como já mencionado, e acolheu em sua sede recentemente o segundo Fórum de Investimentos União Europeia-Brasil, também com muito êxito.
Está também organizando eventos em Bruxelas para sensibilizar os principais atores europeus quanto ao interesse e relevância dessa parceria. Está também se adequando para ser a porta de entrada do setor privado brasileiro e europeu interessado em explorar as oportunidades que podem surgir nesse ambiente.
- Roberto Jaguaribe, embaixador do Brasil na Alemanha, é ex-presidente da ApexBrasil



