Os melhores e piores conselhos para a educação dos seus filhos

No artigo, o autor diz que "o pior conselho para a educação de crianças é que elas devem ser vigiadas e punidas"

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atualizado 31/01/2020 23:34

Uma pesquisa clássica realizada durante o Holocausto buscava entender por que algumas pessoas colocaram suas vidas em risco para esconder e salvar estranhos (judeus, ciganos, homossexuais, e outros grupos) que seriam aprisionados nos campos de concentração ou assassinados pelos nazistas. O que elas tinham de diferente de outras pessoas, como seus vizinhos, que nem imaginaram fazer algo parecido? A resposta está, ao menos em parte, na forma como foram educados.

As pessoas “comuns” eram frequentemente punidas quando se comportavam mal. Assim, aprenderam, pelo medo, a evitar consequências negativas. Já os “heróis do Holocausto”, recebiam explicações claras e didáticas sobre porque não deveriam ter um certo tipo de comportamento. Sempre que eram desobedientes, alguém da família, ou um professor, explicava que aquela regra que não foi seguida poderia parecer boba, mas que havia valores e princípios por trás dela. E que o mal comportamento prejudicava outras pessoas e, em consequência, a vida em sociedade.

Assim, estes “heróis” se formaram como cidadãos que conseguiam refletir sobre o impacto de suas ações no coletivo. Sempre que passavam por situações em que poderiam, potencialmente, salvar ou ajudar outras pessoas, eles, mais do que as pessoas “comuns”, estavam prontos para correr o risco. Eles desenvolveram um “raciocínio moral”, compreendendo que se ao invés de apenas ser informado sobre um mal comportamento ou punição, você realmente aprender sobre os impactos negativos de suas ações, é bem provável que você passe a ter valores e princípios morais e se esforce para fazer o que é certo não só para o seu bem, mas para o bem de todos.

Em artigo do Fórum Econômico Mundial, este caso foi citado pelo psicólogo e professor Adam Grant, que esteve em Davos para ilustrar que o pior conselho para a educação de crianças é que elas devem ser vigiadas e punidas. Explicar valores e princípios que embasam uma regra ou combinado é crucial. Além disso, ele vem defendendo a ideia de uma formação com e para valores, para que as crianças se tornem autônomas, resilientes, e “fortes mentalmente” nas águas turbulentas do século XXI.

Controverso, ele defende que não devemos perguntar às crianças o que elas serão quando crescerem porque, dessa forma, fazemos com que elas criem rótulos para si mesmas em termos profissionais, enquanto as pesquisas mais avançadas mostram que elas precisarão ser flexíveis, se aprimorar constantemente e estar prontas para mudar de carreira algumas vezes durante suas vidas.

Quando perguntado sobre o melhor conselho que poderia dar para a educação das crianças, ele respondeu que precisamos mostrar, com nossas palavras e comportamentos, que elas são importantes e que outras pessoas confiam nelas. Elas precisam ser amadas e ter a nossa atenção ao invés de disputá-la com nossos aparelhos celulares. Segundo Adam, a grande maioria dos pais sabe que precisa ensinar, proteger, e dar o exemplo, mas não se dão conta que precisam dar às crianças a oportunidade de desenvolver sua própria resiliência enquanto tentam nos ajudar a resolver problemas. E uma das melhores formas de se fazer isso é pedindo ajuda ou orientação aos pequenos com alguma frequência.

“Estava nervoso por conta de uma palestra grande que ia dar e fui até nossos filhos para perguntar como eles achavam que eu deveria lidar com a ansiedade. Isso mostra que eu confio neles. Dei uma chance para que eles pudessem refletir sobre o que fariam se estivessem em uma situação semelhante. Isso faz com que se sintam ativos, que têm algo a contribuir. Toda criança precisa sentir que é importante e, desde muito pequenos, precisam sentir que outras pessoas estão contando com elas, que podem fazer a diferença na vida dos outros. Dar às crianças a sensação de que os outros confiam nelas aumentará sua resiliência e confiança”.

Outros conselhos do que deve ser feito na educação de crianças:
-Eduque-se sobre o que dizem as últimas pesquisas das neurociências e da psicologia;
-Dê atenção à sua própria saúde física e mental;
-Estabeleça regras e limites claros e consistentes (de preferência junto com elas);
-Eduque pelo exemplo.

Outros conselhos do que não deve ser feito na educação de crianças:
-Comparar e/ou rotular;
-Impor respeito pelo medo;
-Esperar mais do que o que a criança pode fazer (é bom ter altas expectativas, cuidando para não ir além do possível);
-Limitar a comunicação, sentimentos de segurança ou confiança.

De que forma este artigo pode contribuir para que você reflita e melhore o seu papel como pai ou professor? Como as considerações do professor Adam podem nos ajudar em discussões sobre novos modelos de escola e de sistema educacional? Ou sobre as “escolas cívico-militares”? Educar é, sem dúvida, a responsabilidade mais importante e complexa que uma pessoa adulta pode ter. Mas também pode e deve ser a mais recompensadora, transformadora, e cheia de amor da sua vida.

Rafael Parente é professor e ex-secretário de Educação do Distrito Federal

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