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Ponto de vista

O que está em jogo para o eleitor indeciso (por José Dirceu)

Eleitor de centro encara projetos distintos para economia, políticas públicas, instituições democráticas e o papel do Brasil no mundo

Foto de José DirceuJosé Dirceu
02/10/2026 17:33
Imagem gerada por IA
O que está em jogo para o eleitor indeciso (por José Dirceu)

Há uma parcela importante do eleitorado brasileiro que não se reconhece como parte das duas principais forças políticas – nem se mostra claramente ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT, nem se identifica com o bolsonarismo que tenta sobreviver sob a liderança de Flávio Bolsonaro.

Esse eleitorado pode (e deve) ter críticas ao governo Lula, dúvidas sobre seus rumos econômicos e sobre a condução de determinadas políticas públicas. Esse mesmo grupo, tão diverso quanto decisivo para o resultado destas eleições, tampouco se identifica com o bolsonarismo, com seu desapreço pela democracia, seus conflitos permanentes com as instituições, seu moralismo sem moral e a radicalização que marcou a vida nacional nos últimos anos.

Para esse eleitor – de centro, democrático ou indeciso, como queiramos defini-lo –, talvez a questão central desta eleição não seja a adesão incondicional a um candidato, mas a escolha entre dois projetos bastante diferentes para o futuro do país – na economia, na política social, na inserção internacional e, sobretudo, na relação com a democracia e suas instituições.

Lula chega à eleição com resultados que precisam ser examinados sem triunfalismo, mas também sem negar os fatos. Em 2025, o Brasil cresceu 2,3%; a população ocupada chegou ao recorde de 103 milhões e a taxa média anual de desemprego caiu para 5,6%, a menor da série do IBGE iniciada em 2012.

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O salário mínimo voltou a ter ganhos reais e chegou a R$ 1.621 em 2026, enquanto a nova legislação do Imposto de Renda zerou o imposto devido por quem recebe até R$ 5 mil mensais. São avanços que convivem com problemas reais: investimento baixo, juros elevados, dificuldades fiscais e produtividade insuficiente.

A comparação entre os dois períodos também passa pela recomposição de políticas públicas desde 2023. Em 2022, último ano do governo Bolsonaro, a taxa média de desemprego era de 9,3%; em 2025, caiu para 5,6%. Na educação, o governo recompôs recursos para universidades e institutos federais e retomou a expansão do ensino em tempo integral.

Desmatamento e reforma tributária

Na Amazônia, o desmatamento recuou fortemente desde 2022 e os alertas continuaram caindo em 2026. O Brasil, que havia retornado ao Mapa da Fome, voltou a sair dele e permaneceu fora no relatório da FAO de 2026. E, depois de décadas de tentativas frustradas, aprovou em 2023 a reforma tributária do consumo, regulamentada em 2025 e 2026. Isso não elimina juros altos, baixo investimento e desafios fiscais, mas oferece elementos objetivos para comparar os dois ciclos.

As diferenças entre os programas também são claras. Lula propõe manter o atual arcabouço fiscal combinado com investimento público e privado em infraestrutura, indústria, logística e inovação, por meio do PAC, concessões e políticas de desenvolvimento produtivo.

Flávio Bolsonaro apresenta outro caminho: novo teto de gastos, redução do número de ministérios, diminuição da máquina pública e retomada de privatizações. São escolhas legítimas no debate democrático, mas envolvem concepções distintas sobre o papel do Estado, o investimento e as políticas sociais.

O debate econômico, portanto, não deveria ser reduzido à caricatura entre mercado e Estado, gasto e austeridade. O desafio é elevar o investimento e a produtividade, reindustrializar o país, formar mão de obra, ampliar a infraestrutura, dominar tecnologias estratégicas e transformar nossas riquezas energética, ambiental e mineral em empregos qualificados e renda.

Lula defende uma política baseada em investimento, indústria, infraestrutura, ciência, tecnologia e agregação de valor aos recursos naturais. Flávio Bolsonaro apresenta orientação mais liberal, com maior ênfase na redução do Estado, privatizações e parcerias com o setor privado.

Há, porém, outra dimensão que não pode ser tratada como secundária: a institucional. Flávio Bolsonaro buscou moderar seu discurso em relação ao Supremo Tribunal Federal durante a campanha, mas carrega posições anteriores de confronto com a Corte e com ministros específicos.

Também voltou a questionar aspectos do processo eleitoral e anunciou mobilização de apoiadores para fiscalizar as urnas. Ao mesmo tempo, afirma que pretende vencer pelas urnas e preservar a democracia. Esse conjunto de posições deve ser examinado à luz dos conflitos recentes entre o bolsonarismo, o STF e o sistema eleitoral.

Isso não significa que as instituições estejam acima de críticas. Ao contrário. O desgaste recente do Supremo mostra que o país precisa discutir transparência, regras de conduta, limites, prerrogativas e o papel constitucional de cada Poder.

Lula passou a defender uma reforma do Judiciário, incluindo um código de ética e mudanças no funcionamento do sistema, mantendo a defesa das instituições democráticas e do processo eleitoral. É possível discutir profundamente o STF, o Congresso e o Executivo sem transformar divergências institucionais em contestação permanente das regras democráticas.

Há ainda uma questão de soberania que os últimos anos tornaram concreta. O Brasil precisa manter relações maduras com Estados Unidos, China, União Europeia e demais potências, reconhecendo assimetrias econômicas, tecnológicas e militares, mas preservando sua autonomia. O episódio do tarifaço mostrou a importância dessa discussão: Donald Trump vinculou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros ao processo contra Jair Bolsonaro, apesar de os Estados Unidos manterem superávit comercial com o Brasil.

O governo brasileiro respondeu defendendo negociação, reciprocidade e independência das instituições. Eduardo Bolsonaro, por sua vez, atuou nos Estados Unidos em defesa de pressões e sanções relacionadas ao processo contra o ex-presidente. O debate é sobre que política externa o Brasil quer: autonomia e negociação ou uma relação em que disputas internas sejam levadas ao exterior e submetidas a governos estrangeiros.

Eleitor moderado

O centro político brasileiro teve papel decisivo em momentos de reconstrução nacional — na redemocratização, na Constituinte, na estabilização econômica e em coalizões que permitiram avanços.

O eleitor moderado não precisa abandonar suas críticas a Lula, suas preocupações fiscais ou suas divergências com a esquerda. Tampouco precisa aceitar sem exame as propostas do campo bolsonarista. Precisa comparar resultados, programas, compromissos institucionais e consequências das escolhas apresentadas.

No fundo, a questão maior é qual projeto de desenvolvimento o Brasil pretende construir para as próximas décadas. O país precisa ingressar em uma nova etapa de industrialização, apoiada em ciência, tecnologia, inovação e formação profissional; aproveitar sua liderança energética e ambiental na transição ecológica; transformar minerais críticos e terras raras em cadeias produtivas, conhecimento, empregos e tecnologia no Brasil, em vez de apenas exportar matéria-prima; modernizar sua capacidade em defesa, semicondutores, saúde, inteligência artificial, energia e infraestrutura; elevar investimento e produtividade e criar empregos qualificados.

O grande debate estratégico é a construção de um novo modelo de desenvolvimento nacional, sustentável e soberano, capaz de combinar crescimento, inovação, democracia e justiça social e preparar o Brasil para disputar, com autonomia, seu lugar na nova economia mundial.

O Brasil necessita simultaneamente de estabilidade democrática e crescimento econômico, responsabilidade fiscal e justiça social, investimento e redução das desigualdades, segurança pública e respeito às garantias constitucionais.

Não há contradição inevitável entre essas agendas. A eleição coloca diante do país projetos distintos sobre como conciliá-las. É sobre essas diferenças concretas, e não apenas sobre identidades políticas, paixões ou rejeições, que o eleitor de centro e ainda indeciso deve formar sua decisão.

  • José Dirceu é ex-ministro-chefe da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-deputado estadual pelo estado de São Paulo