O interior paulista precisa voltar ao centro do desenvolvimento (por José Dirceu)
São Paulo precisa retomar o planejamento e os investimentos para interiorizar o desenvolvimento, fortalecer a indústria e gerar empregos

Eis um debate fundamental para as eleições deste ano em São Paulo: o que fazer para que o interior paulista volte a estar no centro do desenvolvimento econômico do estado. Sob Tarcísio de Freitas, o estado que liderou a industrialização brasileira viu perder densidade produtiva, retomar a concentração econômica em torno da capital e promover o abandono relativo do interior. Enquanto isso, o governador difunde uma suposta eficiência de gestão que não resiste aos fatos.
Observando os números sobre a execução orçamentária em 2026, constata-se uma crise estrutural, fruto da ausência de uma política pública de planejamento e desenvolvimento regional, da má execução dos investimentos e da incapacidade do governo Tarcísio de formular um projeto para todo o território paulista.
A Lei Orçamentária Anual prevê receita de R$ 382,3 bilhões, um dos maiores orçamentos da história do estado, mas o investimento fixado cresceu apenas 2,7% em relação ao ano anterior, abaixo da inflação. Mais grave: no primeiro semestre, os investimentos liquidados somaram cerca de R$ 9,2 bilhões, apenas 29,1% dos R$ 31,6 bilhões previstos para o ano.
Nas áreas decisivas para a interiorização do desenvolvimento, a execução é ainda pior. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico liquidou somente R$ 87 milhões de R$ 580 milhões previstos, ou 15%. Ciência, Tecnologia e Inovação executou 21,7%. Agricultura, essencial para o interior profundo, 23,5%. Obras e reformas na Educação ficaram em 24,5%. Equipamentos e obras hospitalares na Saúde, 26,1%. Esses números revelam a escolha política do governador.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSão Paulo se tornou o principal polo industrial do país porque houve Estado, planejamento, crédito, infraestrutura, formação profissional, universidades, institutos de pesquisa e decisão política. Aqui se estruturaram cadeias produtivas complexas, formou-se um mercado de trabalho urbano e nasceu uma classe trabalhadora organizada, com sindicatos fortes e presença decisiva na luta democrática. A própria origem do Partido dos Trabalhadores está ligada a esse processo histórico.
Papel do Estado
Essa história sempre esteve vinculada ao debate sobre o papel do Estado. Mas Tarcísio governa São Paulo como se a história não existisse. Não há política industrial nem política regional, tampouco há coordenação entre investimento público, crédito, ciência, tecnologia, infraestrutura e formação de mão de obra. Há ações dispersas, obras de vitrine, privatizações como doutrina e propaganda como método.
O resultado tem sido a perda de protagonismo do estado. A participação de São Paulo no PIB nacional caiu de cerca de 37% na década de 1990 para aproximadamente 30% nos anos mais recentes.
Ao mesmo tempo, a indústria de transformação perde peso, setores tradicionais fecham ou migram, empregos industriais qualificados dão lugar a ocupações de menor remuneração no setor de serviços, e regiões inteiras do interior veem sua base econômica se fragilizar.
O desenvolvimento paulista se reconcentrou na macrometrópole, nos eixos de Campinas, Sorocaba, São José dos Campos e Santos, enquanto o Vale do Ribeira, o Pontal do Paranapanema, o Noroeste, o Oeste e parte expressiva do Centro-Oeste paulista ficam presos à baixa oferta de empregos qualificados, à falta de infraestrutura e à dependência de recursos pulverizados.
O caso do setor sucroalcooleiro é exemplar. O complexo canavieiro segue sendo motor econômico de regiões inteiras, articulando agricultura, indústria, logística, tecnologia, emprego e arrecadação municipal. Mas enfrenta hoje a concorrência do etanol de milho do Centro-Oeste, com custos menores e vantagens logísticas, além da instabilidade do preço internacional do açúcar, que pressiona as usinas e amplia o endividamento.
Um governo com visão estratégica usaria o Desenvolve SP, a política tributária, a inovação tecnológica e a transição energética para fortalecer essa cadeia, agregar valor e proteger empregos. O governo Tarcísio, ao contrário, assiste ao problema sem formular uma resposta à altura. Perde-se a oportunidade de transformar biocombustíveis, agroindústria e inovação em eixo de um novo ciclo de desenvolvimento para o interior.
O mesmo ocorre com ciência e tecnologia. São Paulo possui Fapesp, universidades públicas como USP, Unicamp e UNESP, institutos de pesquisa, Fatecs, Etecs, parques tecnológicos e uma base empresarial que poderia sustentar uma nova etapa de industrialização, combinando digitalização, descarbonização, máquinas e equipamentos, biotecnologia, economia da saúde, agricultura de precisão e energias renováveis. Mas esse potencial não se realiza automaticamente. Precisa de financiamento contínuo, integração com o setor produtivo, compras públicas, crédito e metas.
Privatizações
A dependência de receitas de capital, concessões e privatizações agrava o problema. O governo estrutura parte de sua narrativa fiscal sobre leilões e desestatizações, mas, quando essas receitas atrasam ou ficam abaixo do previsto, a resposta é contingenciar investimentos. Quem paga a conta são as obras regionalizadas, as estradas vicinais, a infraestrutura hídrica, os equipamentos públicos e os projetos capazes de dinamizar o interior.
A política de renúncia fiscal também precisa ser enfrentada. Os números apontam uma renúncia projetada de R$ 85,6 bilhões em 2026, dos quais R$ 78,7 bilhões em ICMS. Como 25% do ICMS pertence constitucionalmente aos municípios, uma política opaca de benefícios fiscais reduz também a capacidade financeira das prefeituras.
Estima-se que a renúncia de ICMS retire cerca de R$ 19,6 bilhões que poderiam ser distribuídos aos 645 municípios paulistas. Isso significa que o interior sofre duas vezes: não recebe investimento direto suficiente do Estado e perde capacidade de financiamento municipal por causa de uma política tributária sem avaliação transparente de impacto sobre emprego, inovação e desenvolvimento regional.
No lugar de planejamento, cresce a dependência das emendas parlamentares. O orçamento de 2026 incorporou 15.030 emendas. Não se trata de negar a importância de recursos pontuais para municípios, especialmente em áreas urgentes. O problema é transformar a emenda em substituta de política pública. Ambulâncias, recapeamentos e pequenas reformas, quando desconectados de um plano estadual, viram instrumentos de apadrinhamento e pulverização orçamentária.
Diferenças
O contraste com o governo Lula é evidente. No plano nacional, o Brasil voltou a discutir desenvolvimento, indústria, inovação, infraestrutura e soberania. A Nova Indústria Brasil, o PAC, a retomada do BNDES e a articulação com a Finep e bancos públicos demonstram que existe uma visão em disputa. Pode-se debater ritmo, escala e prioridades, mas há direção. Em São Paulo, não. O resultado são concentração territorial, perda industrial e fragilização econômica do interior.
Por isso, o debate eleitoral paulista precisa colocar o interior no centro. Interiorizar o desenvolvimento significa reorganizar a economia do estado para além da capital, retomar a capacidade de planejamento, proteger e modernizar cadeias produtivas, enfrentar desigualdades territoriais, gerar empregos qualificados e reconstruir a presença pública onde hoje predominam baixa execução orçamentária, improviso e abandono. Segurança, educação, saúde, infraestrutura e desenvolvimento dependem de um Estado capaz de coordenar investimentos e construir futuro.
São Paulo precisa de projeto. O interior não pode ser lembrado apenas em campanha, nas inaugurações pontuais ou na distribuição fragmentada de emendas. Deve ser tratado como parte estratégica de um novo ciclo econômico, social e democrático. O desafio é reconstruir uma política de desenvolvimento que combine indústria, ciência, tecnologia, trabalho, sustentabilidade, crédito e planejamento regional. Esse é o papel de quem pretende governar São Paulo de verdade, e é exatamente o que falta ao governo Tarcísio.
- José Dirceu é ex-ministro-chefe da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-deputado estadual pelo estado de São Paulo



