Impeachment de Trump pode ser tiro no pé dos democratas

Posando de mártir, o presidente tem mobilizado apoiadores como nunca: em apenas dois dias, arrecadou US$ 8,5 milhões de pequenos doadores

Reprodução/Twitter

atualizado 30/09/2019 21:10

De Miami (EUA) – Assim como acontece com a esquerda no Brasil em relação a Jair Bolsonaro, o Partido Democrata americano nunca digeriu bem a vitória de Donald Trump, mesmo que legitimamente ungido pelas urnas. Trump, por sua vez, nada fez ao longo do tempo para apaziguar os ânimos. Segue em sua política pessoal de arroubos sazonais, seja atacando os que ousam dele discordar, seja tentando impor uma nova ordem internacional baseada em sanções econômicas sem fim. Sua bravata predileta tem sempre como alvo os integrantes do Partido Democrata. O resultado dessa política agressiva dividiu os Estados Unidos em facções, pró e contra Trump, numa espécie de Fla-Flu político.

O pedido de impeachment, assunto que domina o país desde a semana passada, já era esperado e estava sendo cozinhado em fogo brando na mesa da deputada Nancy Pelosi, presidente da Câmara e ferrenha opositora de Trump, desde a suspeita da interferência russa nas eleições de 2016.

Talvez faltasse um tempero a mais para ser servido e, agora, Pelosi se convenceu que seria o momento, depois que um denunciante anônimo revelou que Trump teria pressionado, em um telefonema, o presidente da Ucrânia para investigar o filho de Joe Biden, seu maior adversário e provável concorrente às eleições de 2020.

Pelosi juntou os fatores Rússia e Ucrânia e autorizou a abertura do processo de impeachment na esperança de servir um saboroso Estrogonofe com Frango Kiev, mas, que na verdade, pode ser indigesto, quando se sabe que os republicanos, em maioria no Senado, não comerão deste prato e o rejeitarão sumariamente.

Surfando a onda
Talvez percebendo o desespero dos democratas em iniciar um natimorto pedido de impeachment, muito em função de seus candidatos não decolarem nas pesquisas, Trump demonstra que vai surfar nesta onda e ampliar ainda mais sua vantagem política.

Durante todo o fim de semana, seu exército de defensores ocupou os principais programas políticos das TVs e, invariavelmente, desqualificaram a denúncia dos democratas, taxando-a de inócua e inexistente, desde o momento em que Trump autorizou a divulgação de sua conversa ao telefone com o presidente ucraniano, que segundo ele, teria sido correta e republicana.

Trump posando de mártir tem mobilizado seus apoiadores como nunca visto. Em apenas dois dias, após esse rebuliço, arrecadou US$ 8,5 milhões oriundos apenas de pequenos doadores.

Os democratas, ao que tudo indica, parecem ter dado um tiro no pé. Ao mesmo tempo em que o senador Mitch McConnel, líder da maioria no Senado, declarou que os democratas tentam ganhar politicamente em assunto internacional de grande seriedade e garantiu que serão derrotados naquela Casa, descobriu-se que o denunciante é um oficial da CIA, com sofisticado entendimento da politica ucraniana, e que teria recebido a informação da conversa telefônica através de uma terceira pessoa.

Imprensa “escória e canalha”
Trump não perdeu tempo e desqualificou a informação por ter sido obtida indiretamente. Além disso, afirmou que pode ter sido vítima de uma ação de espionagem e traição e que a pena para tais crimes é cadeia ou pena de morte. Chamou a imprensa, que tem dado cobertura explosiva ao caso, de “escória e canalha”, bem ao estilo Trump.

Longe dos holofotes, os atores coadjuvantes se mostram preocupados. O advogado do denunciante, Mark Zaid, pediu garantias de que a identidade de seu cliente será preservada. Segundo ele, tudo o que um agente de segurança não quer é ser exposto, ser tuitado por Trump, ou ser difamado. Seria assustador para quem trabalha na comunidade de inteligência, revelou.

Outro ator importante pediu demissão no final de semana. Trata-se de Kurt Volker, diplomata de carreira, enviado por Trump à Ucrânia. Apesar de não ter explicado as razões de sua saída, obviamente não quis permanecer no cargo e ter que ficar dando explicações durante esse longo e tortuoso processo. Vai se preparar e depor apenas no processo de impeachment.

Jogar e blefar
As cartas estão na mesa. Os americanos adoram um cassino. Trump é profissional, sabe jogar e blefar como ninguém. Não é milionário por acaso. Nos últimos dias tem insistido em conhecer seu delator. Fica a impressão que ele quer pagar para ver, a exemplo de uma rodada de pôquer. Cacife ele tem para isso. Façam suas apostas!

Delio Cardoso
Carioca, pioneiro em Brasília, mora nos Estados Unidos desde 2015. É advogado e jornalista. Pós-graduado em Direito Internacional pela London School of Economics-LSE. Foi Consultor Legislativo do Senado Federal na área de Direito Civil, Conselheiro da OAB/DF, Professor de Direito Internacional Publico junto a UDF e Editor do jornal Voz do Advogado. Trabalhou no Jornal de Brasília, Correio do Brasil e dirigiu o programa “De Olho no Trânsito”, na TV Brasília e TV Record-DF.

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