Exposição no MIS põe Renato Russo em seu merecido local de admiração

Nas raras ocasiões em que levo minha cópia de “A Verdadeira Desorganização do Desespero” para a Universidade de Brasília (UnB), a comoção é imediata. Na pós-graduação do Departamento de Artes, pesquiso o lado cênico, dramatúrgico e metateatral de Renato. Embora eu não possa disponibilizar outras cópias nem fotos do material, todos querem tocar a peça […]

Autor Diego Ponce de Leon

atualizado

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Arquivo Pessoal
Escritório do Renato
1 de 1 Escritório do Renato - Foto: Arquivo Pessoal

Nas raras ocasiões em que levo minha cópia de “A Verdadeira Desorganização do Desespero” para a Universidade de Brasília (UnB), a comoção é imediata. Na pós-graduação do Departamento de Artes, pesquiso o lado cênico, dramatúrgico e metateatral de Renato. Embora eu não possa disponibilizar outras cópias nem fotos do material, todos querem tocar a peça de teatro escrita pelo líder da Legião Urbana, em 1982. Geralmente, mãos trêmulas pedem para folhear o material, e o contato vem acompanhado de semblante emocionado.

Foi assim que me senti em cada uma das vezes que tive a oportunidade de estar próximo a objetos de Renato. Mas admito fracasso na tentativa de descrever o sentimento que me tomou quando pisei no apartamento do líder do cantor e compositor no Rio de Janeiro, onde morreu, em 1996, vítima de complicações relacionadas à Aids.

Lembro-me de ficar uns cinco minutos na porta, tomando coragem, respirando, antes de entrar. Venci a sala, mas fraquejei no quarto e no escritório de Renato. Tive que me sentar e retomar o fôlego diante dos livros, discos, cama, óculos e cadernos de Renato Manfredini Júnior. Aquela foi a única vez, em toda a minha carreira enquanto jornalista cultural, que não consegui manter o protocolo profissional. Chorei. O filho de Renato, Giuliano Manfredini, que estava comigo, também se emocionou. Ele me olhou como se dizendo “pode ficar tranquilo, eu te entendo”.
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Ao lado do filho de Renato, Giuliano Manfredini, no apartamento de Renato Russo, em Ipanema

 

Isso aconteceu em 2015, quando parte da mobília e todo esse espólio começaram a ser recolhidos e catalogados pelo Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS). Logo, levariam embora os livros de Federico García Lorca, o pôster de um filme do Almodóvar e os discos do Menudo, além dos blocos de anotações, manuscritos, desenhos e os muitos diários. Eram os primeiros movimentos que resultariam na mostra sobre Renato Russo, prevista para 7 de setembro deste ano.

Além do inventário do apartamento do Rio, todo o material pessoal de Renato que permanecia em Brasília também foi levado à capital paulista. Era dona Carminha Manfredini, mãe do compositor, quem cuidava do legado brasiliense, em uma casa no Lago Sul. Também tive a chance de conhecer esse recanto. Por ali, chamavam atenção os discos de ouro da Legião Urbana e as batas favoritas de “Júnior”, como a matriarca prefere chamá-lo.

Sem o material, a mãe de Renato preferiu deixar a casa e voltou a morar no histórico apartamento da 303 Sul, onde a trajetória da família Manfredini começou em Brasília, em 1973. Possivelmente, a melhor forma de se manter perto do filho. Uma vontade compartilhada pelos legionários – os fiéis seguidores da banda que vendeu 20 milhões de discos pelo país e alcançou posto máximo na música. Mais especificamente, seguidores de Renato Russo.

Talvez seja por conta das letras ou pelo poder em nos envolver em histórias com as quais nos identificamos – afinal, quem nunca quis viver um amor ao modo Eduardo e Mônica? Renato soube dar voz à vontade de escancarar a escória política do Congresso (mais que nunca, “que país é esse?”), e provocar o desejo de gritar com tamanha força: “É a porra do Brasil!”. As teorias são diversas (e de diversidade ele entendia), mas a verdade é que Renato ganha ares messiânicos por aqui.

Que me perdoem os admiradores de Cazuza, Cartola, Elis ou Roberto Carlos, mas nenhum artista exerce tamanha influência como Renato Russo. Mais do que uma oportunidade de estarmos próximos ao universo do poeta do rock nacional, a exposição no MIS nos dá a chance de o colocarmos no devido lugar de adoração. Não será uma legião de fãs a formar fila em frente ao museu, será uma romaria.

*Diego Ponce de Leon é jornalista, professor, crítico de teatro e pesquisador em artes cênicas na Universidade de Brasília.

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