Cuba – e a América Latina – sob ameaça de Trump (por José Dirceu)

A defesa de Cuba tem significado estratégico para a América Latina e representa condição para a existência de Estados soberanos

Autor José Dirceu

atualizado

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Divulgação/Partido Comunista de Cuba
Foto colorida de bandeiras de Cuba hasteadas
1 de 1 Foto colorida de bandeiras de Cuba hasteadas - Foto: Divulgação/Partido Comunista de Cuba

Enquanto os Estados Unidos direcionam bombardeios sobre o Irã, o presidente Donald Trump e seus auxiliares não têm hesitado em enviar recados à América Latina, e particularmente a Cuba.

Mais do que recados, são ameaças concretas. Na década de 1960, a CIA parecia fixada em tentar assassinar Fidel Castro, chegando a conceber planos que envolviam charutos envenenados, conchas explosivas e roupas de mergulho contaminadas.

Mais de 60 anos depois, sem Fidel, mas com Cuba ainda presente no imaginário estratégico norte-americano como adversária — como se fosse uma potência inimiga —, Trump exibe métodos menos caricatos, porém igualmente perigosos.

Os ataques contra cartéis de drogas latino-americanos seriam “apenas o começo”, segundo afirmou o subsecretário interino de Defesa para o hemisfério, Joseph Humire, à Comissão de Serviços Armados da Câmara dos EUA. Em síntese, a campanha não se encerrou com o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro: Cuba desponta como próximo alvo, o que representa uma ameaça grave para a América Latina, para a ordem internacional e para a própria estabilidade global.

A escalada do governo Donald Trump contra Cuba marca uma inflexão perigosa na política dos Estados Unidos para a América Latina, ao combinar, de forma explícita e sem mediações, bloqueio econômico, estrangulamento energético e ameaças diretas como instrumentos de reorganização geopolítica do continente, recolocando no centro da cena uma lógica histórica de tutela que retorna agora com maior agressividade, em um contexto de disputa global e de declínio relativo da hegemonia norte-americana.

Mantido há mais de 60 anos e condenado anualmente pela Assembleia Geral da ONU por ampla maioria — em votações que reúnem mais de 180 países contra e apenas dois ou três a favor —, o bloqueio contra Cuba foi aprofundado sob Trump com medidas que atingem diretamente o coração da economia cubana: o acesso à energia.

Petróleo

A redução drástica do fornecimento de petróleo, agravada pelas sanções à Venezuela, levou a ilha a enfrentar apagões generalizados, interrupções na produção industrial e colapso parcial de serviços essenciais, configurando uma crise que deve ser compreendida como consequência direta de uma política deliberada de asfixia econômica.

A Venezuela, principal fornecedora de petróleo de Cuba, já chegou a enviar mais de 100 mil barris diários à ilha. Esse volume caiu drasticamente nos últimos anos em razão das sanções impostas por Washington, até praticamente cessar após o aprofundamento da crise venezuelana, mostrando como a política norte-americana opera de forma articulada, utilizando um país para pressionar outro.

É importante registrar, ainda, que o petróleo enviado à ilha não se tratava de doação, mas de operações de cooperação e comércio energético entre os dois países.

As declarações do próprio Trump, ao afirmar que pretende resolver a situação cubana “antes que seja tarde demais”, não deixam margem para interpretações complacentes.

Sua linguagem, como se sabe, nunca levou em conta premissas diplomáticas e se aproxima da lógica da imposição, retomando práticas que marcaram momentos críticos do século XX e que agora reaparecem sob novas formas, apoiadas em instrumentos financeiros, comerciais e tecnológicos que ampliam o alcance da intervenção sem necessidade imediata de ação militar direta.

Nem Venezuela nem Cuba estão isoladas como alvos do trumpismo.

Como já escrevi em outras oportunidades, essa ofensiva integra uma estratégia mais ampla, já explicitada em documentos oficiais dos Estados Unidos, que tratam a América Latina como área de influência direta e reivindicam o direito de definir seus alinhamentos políticos e econômicos, numa atualização da Doutrina Monroe que assume, sem constrangimento, a lógica de controle sobre o continente, seja pelo acesso a recursos estratégicos — petróleo, lítio, biodiversidade —, seja pela contenção da presença de outras potências globais.

A história do continente — e particularmente de Cuba — recomenda que esse processo seja levado a sério. A independência cubana, conquistada no final do século XIX, foi imediatamente condicionada pelos interesses dos Estados Unidos.

Pelo Tratado de Paris de 1898, a Espanha foi obrigada a renunciar a Cuba e a ceder Porto Rico, Guam e as Filipinas aos Estados Unidos. A Emenda Platt, imposta em 1901, institucionalizou essa condição ao garantir aos Estados Unidos o direito de intervir nos assuntos internos cubanos e de manter bases militares na ilha, como a de Guantánamo, que permanece até hoje. Entre 1902 e 1934, Cuba viveu como uma espécie de neocolônia, com sucessivas intervenções diretas de Washington.

Essa história ajuda a compreender o significado estratégico da defesa da independência de Cuba. Desde a guerra de independência de 1895-1898, os Estados Unidos tinham como objetivo afirmar sua presença e influência sobre Cuba e Porto Rico. Este último foi transformado em um Estado associado aos Estados Unidos, condição que revela a permanência de vínculos coloniais sob novas formas.

O caso das Filipinas é igualmente ilustrativo: cedidas aos Estados Unidos no mesmo Tratado de Paris, só alcançaram plena independência décadas depois, em 1946, após a Segunda Guerra Mundial.

A tentativa de asfixia de Cuba cumpre também uma função política mais ampla. Transforma a ilha em exemplo do custo da autonomia, sinalizando aos demais países da América Latina que qualquer projeto soberano poderá ser submetido a bloqueios, sanções e pressões de toda ordem, num movimento que pretende disciplinar governos e sociedades por meio da demonstração de força e da produção de instabilidade.

Golpes de Estado

Ao longo do século XX, os Estados Unidos intervieram diretamente ou apoiaram golpes de Estado em diversos países da região, consolidando uma tradição de ingerência cujos efeitos ainda se fazem sentir.

O elemento novo, no momento atual, é a combinação dessa tradição histórica com instrumentos contemporâneos de poder, que incluem sanções financeiras, controle de sistemas de pagamento, bloqueios comerciais, pressão sobre cadeias produtivas e uso intensivo de tecnologias de informação, ampliando a capacidade de intervenção e tornando-a mais sofisticada, difusa e difícil de enfrentar.

Não se pode ignorar, além disso, que essa agenda encontra respaldo em setores da extrema direita latino-americana, que passam a atuar como correias de transmissão dos interesses de Washington, relativizando a soberania nacional e, em situações-limite, chegando a legitimar a intervenção externa como instrumento de disputa política interna — como a família Bolsonaro, aqui no Brasil, já o fez, estimulando uma ruptura grave com qualquer compromisso democrático e com a própria ideia de nação.

A defesa de Cuba assume, assim, um significado estratégico para toda a América Latina. Trata-se da afirmação de princípios que são condição para a existência de Estados soberanos, entre eles a autodeterminação dos povos, a não intervenção e o respeito à integridade territorial.

Esses princípios, no caso brasileiro, estão consagrados na Constituição e não podem ser relativizados sem que se abra caminho para um cenário de instabilidade permanente.

Para o Brasil, isso implica não apenas rejeitar o bloqueio e condenar qualquer forma de intervenção, mas também atuar ativamente na construção de uma estratégia regional baseada na integração, na cooperação e na diversificação de parcerias internacionais, capaz de reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade de resistência dos países latino-americanos diante de pressões externas.

Implica também identificar, sem ambiguidades, quem no Brasil se alinha a essa agenda de submissão: a família Bolsonaro e setores da direita que silenciam — ou consentem — diante dessas ameaças.

O que está em curso é a tentativa de redefinir o lugar da América Latina no sistema internacional, recolocando-a na condição de área subordinada a interesses externos, em um momento em que o mundo caminha para uma configuração cada vez mais multipolar, na qual a defesa da soberania se torna elemento central de qualquer projeto de desenvolvimento.

Responder a essa ofensiva exige clareza política, capacidade de articulação e liderança em defesa da soberania, além de compromisso com um projeto de integração regional que permita à América Latina se afirmar como sujeito ativo na definição de seu próprio destino. Em outras palavras, mostrar, com todas as letras, que nosso destino não será decidido em Washington.

  • José Dirceu é ex-ministro-chefe da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-deputado estadual pelo estado de São Paulo

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