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Rafael Parente

iStock/Foto ilustrativa

Censo 2017 e a educação: o que não estamos vendo?

Da Redação
 

No último dia de janeiro, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou os dados do Censo 2017. Entre eles, destaco as informações que refletem a disparidade estrutural entre as escolas públicas e privadas.

O Censo mostrou que 39% das escolas municipais de ensino fundamental têm bibliotecas; nas particulares, o índice é de 82%. Em relação aos laboratórios de informática, a diferença é menor, mas existe: 37,9% nas públicas e 47,8% nas privadas.

Esses dados foram amplamente divulgados pela imprensa para publicizar o que já é conhecido: existe um abismo entre os ensinos público e o particular. No entanto, os números não refletem o cenário atual das escolas brasileiras. É fato que o Censo precisa ser aprimorado.

De acordo com pesquisas científicas, por exemplo, importa muito mais ter livros e computadores próximos aos alunos, nas salas de aula, corredores, etc, do que em bibliotecas e laboratórios de informática.

Os laboratórios não estão sendo mais utilizados, já que, hoje, computadores e tablets se deslocam até as salas de aula (uma prova disso é o baixo número deles nas escolas particulares). Então, o que o Censo deveria querer saber é o número de livros e computadores de qualidade à completa disposição de alunos e professores.

Matrículas
Tem uma informação no Censo que precisa ser considerada como alerta: a queda de 1,8 milhão de matrículas no ensino fundamental. O Ministério da Educação (MEC) justifica esse cenário pela diminuição do número de crianças e jovens por consequência do rápido envelhecimento da população brasileira e pela melhora do fluxo, com a redução dos casos de alunos repetentes.

A verdade é que esses são motivos plausíveis, mas ainda não é possível explicar totalmente o que está acontecendo. Em tese, a mudança da pirâmide etária não pode ser usada, já que há muitas crianças e jovens entre 10 e 20 anos no Brasil.

O censo traz poucas boas notícias. A melhor delas é o crescimento do número de alunos na educação infantil, sendo que o aumento de vagas tem se dado para o cumprimento de uma lei de 2009 para a universalização da pré-escola. Ainda que seja por uma lei, é bom saber que ela está sendo cumprida e que há mais crianças nos colégios.

Outra boa notícia é a que há mais alunos com deficiência nas escolas regulares. Na educação básica, 84,1% dos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento ou altas habilidades estão incluídos em classes comuns.

Despreparo
No entanto, o Censo 2017 também mostra que os colégios (e os professores) não estão sendo preparados para receber esses alunos com infraestrutura e formação adequadas. A presença de banheiro adequado a estudantes com deficiência ou mobilidade reduzida está em apenas 37,1% das escolas de anos iniciais.

Já que os dados do Censo estão provocando o debate nos veículos de comunicação e na sociedade, é preciso, sobretudo, relembrar dos nossos principais problemas: o currículo não é conectado com a vida, as escolas precisam de infraestrutura adequada, professores precisam de melhores formação e condições de trabalho, e os materiais e metodologias tem de ser inovadores, com o uso de novas tecnologias que incorporem os avanços das neurociências.

*Rafael Parente é doutor em Educação pela Universidade de Nova York (NYU), CEO da Aondê/Conecturma, sócio-efetivo do Movimento Todos pela Educação e cofundador do Movimento Agora!.

 
 


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