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A Polícia Federal e a reconstrução da autoridade do Estado brasileiro (por José Dirceu)

A PF tem combatido as organizações criminosas, que passaram a influenciar eleições, financiar candidaturas e controlar contratos públicos

Autor José Dirceu

atualizado

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Reprodução / PF
Polícia Federal PF
1 de 1 Polícia Federal PF - Foto: Reprodução / PF

Um balanço apresentado pela Polícia Federal sobre sua atuação nos últimos três anos mostrou o quanto o governo do presidente Lula tem enfrentado e, o mais importante, desarticulado o crime organizado no Brasil.

Foram mais de R$ 19 bilhões foram retirados das mãos de facções criminosas, mais de 52 mil prisões efetuadas, 80 mil investigados indiciados, cerca de 500 investigados presos no exterior e 135 foragidos internacionais localizados no Brasil.

Para efeito de comparação, enquanto em 2025 a PF sob direção de Andrei Rodrigues apreendeu cerca de R$ 9,5 bilhões em 2025 – valor que corresponde à apreensão, com autorização judicial, de imóveis, veículos, aeronaves, joias e outros bens de suspeitos de integrar esses grupos – em 2022, último ano de governo de Jair Bolsonaro, esse número não chegou a R$ 1 bilhão.

São números que expressam concretamente o processo de reconstrução da capacidade do Estado brasileiro de exercer sua autoridade legítima sobre o território e a contenção dos fluxos financeiros que irrigam redes criminosas que, nos últimos anos, avançaram de forma preocupante sobre a economia, a política e as instituições.

O balanço traduz uma combinação de decisão política, reorganização institucional e compreensão estratégica de que o crime organizado atual já não pode ser enfrentado com os instrumentos e a mentalidade do passado.

Tenho insistido, em diversos artigos e entrevistas, que o crime organizado deixou de ser um fenômeno restrito à segurança pública para se tornar um fenômeno estrutural, que articula economia ilícita, captura política, infiltração institucional e conexão internacional, disputando espaços de poder onde o Estado se mostra frágil ou ausente.

Organizações criminosas passaram a influenciar eleições, financiar candidaturas, controlar contratos públicos e operar sofisticados mecanismos de lavagem de dinheiro em diálogo com setores do sistema financeiro formal. Enfrentá-las significa dar foco a inteligência, cooperação internacional e regulatória, identificação dos mecanismos de lavagem de dinheiro e descapitalização do crime.

Violência

As facções criminosas são o principal veículo da violência e insegurança que assola São Paulo e o Brasil em geral. Crimes individualizados violentos preocupam muito, assim como o crescimento da violência contra a mulher e o aumento contínuo da letalidade policial, mas nada se compara à expansão do crime organizado.

Nos últimos anos, deixou de ser um problema só das regiões metropolitanas e cidades médias para assustar também as pequenas cidades, de 20 mil a 30 mil habitantes. Esse poderio só se consolidou porque parte das forças policiais foi comprada pela corrupção, o que foi facilitado enormemente pela politização das forças policiais estimulada, sobretudo, pela direita brasileira.

É preciso enfrentar de maneira direta um lugar-comum que se consolidou no debate público brasileiro: o de que a esquerda não teria agenda para a segurança pública.

Essa narrativa interessa àqueles que reduziram o tema à retórica da força bruta, ao discurso fácil do confronto permanente, ao diversionismo das megaoperações policiais – preferencialmente em favelas e periferias – e à ilusão de que violência se resolve apenas com mais violência.

A direita brasileira, em grande medida, especializou-se na exploração eleitoral do medo, defendendo soluções simplificadoras que produzem manchetes, mas não desarticulam as engrenagens financeiras, políticas e internacionais do crime organizado.

A esquerda democrática, ao contrário, tem defendido Estado forte, inteligência, integração federativa, controle de fluxos financeiros ilícitos e políticas sociais estruturantes como parte inseparável de uma estratégia consistente. Não se trata de negar a repressão qualificada, mas de compreendê-la como instrumento dentro de um projeto mais amplo de reconstrução institucional e desenvolvimento nacional.

O Brasil viveu recentemente um período de desorganização institucional e de corrosão deliberada da autoridade republicana, no qual a lógica do confronto ideológico substituiu a construção de políticas públicas consistentes, e no qual setores do Estado foram tensionados por interesses alheios ao interesse nacional.

Nesse ambiente, o crime organizado encontrou terreno fértil para expandir suas redes, fortalecer suas bases financeiras e aprofundar sua presença em territórios urbanos e regiões de fronteira.

Política de Estado

A retomada de uma política de Estado no enfrentamento ao crime organizado, sob o governo Lula, parte do princípio elementar de que não há desenvolvimento sustentável, soberania nacional e democracia sólida se parcelas do território e circuitos relevantes da economia estiverem submetidos à lógica do poder paralelo.

O dado mais relevante desse balanço talvez não seja o número de prisões, embora elas sejam necessárias, mas o volume de recursos retirados das organizações criminosas. Com ele, a Polícia Federal não apenas reprime, mas atinge o núcleo econômico dessas estruturas, reduzindo sua capacidade de reinvestimento, de cooptação e de expansão. O crime organizado é, essencialmente, um negócio, e como todo negócio depende de fluxo de capital.

A Operação Carbono, em agosto do ano passado, revelou conexões entre redes criminosas e segmentos da elite financeira, e demonstrou que o enfrentamento precisa alcançar não apenas o braço armado das organizações, mas também seus operadores financeiros, seus articuladores empresariais e seus mecanismos de ocultação patrimonial.

Apesar do silêncio providencial das elites liberais do país e da Faria Lima, o fato é que o mercado legal não pode conviver com capitais ilícitos que distorcem a concorrência, contaminam investimentos e corroem a economia nacional.

Nesse contexto é especialmente relevante a aprovação do chamado PL Antifacção, voltado a endurecer o combate às organizações criminosas que atuam na economia formal, como a máfia dos combustíveis, que distorce preços, financia redes ilícitas e corrói a arrecadação pública.

O alerta feito pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), ao denunciar tentativas de “derretimento” do projeto no Congresso e afirmar que “nada ali foi retirado graciosamente”, mas sob pressão de interesses poderosos, revela o tamanho da disputa em curso.

O senador se referiu à retirada de dois artigos que apertavam o cerco aos fraudadores de combustíveis para impedir que a máfia ligada a sonegadores contumazes e ao Primeiro Comando da Capital (PCC) continuassem a operar no país.

Disse Vieira: “Em essência a opção foi focar na criminalidade de baixo escalão, sob o nome de ‘ultraviolenta’, e rejeitar o texto do Senado em tudo que representava combate à lavagem de dinheiro e crimes de colarinho branco. Também excluiu os artigos de combate às bets ilegais e matou o financiamento do combate ao crime”.

Parlamento

Sejamos claros: enfrentamento ao crime organizado não se dá apenas nas operações policiais; ele ocorre também no Parlamento, onde setores atingidos pelas investigações buscam enfraquecer instrumentos legais capazes de desarticular suas estruturas. Se queremos resultados duradouros, é preciso sustentar marcos legais blindados contra lobbies que operam nas sombras.

É nesse ponto que a Polícia Federal reafirma seu papel como instituição de Estado. Há um compromisso republicano externado ali, algo fundamental quando se tem a memória dos últimos anos, quando o país conheceu o risco e as consequências da tentativa de instrumentação política de órgãos de investigação, com consequências graves para a estabilidade institucional.

Mas o enfrentamento ao crime organizado não pode ser tarefa isolada de uma instituição, por mais qualificada que seja. Exige articulação federativa, integração com polícias estaduais, fortalecimento da inteligência financeira, cooperação internacional permanente e coordenação entre Executivo, Ministério Público e Judiciário.

O crime opera em rede global, movimenta recursos transnacionais e explora brechas regulatórias. A resposta do Estado precisa ser igualmente coordenada e estratégica.

Integração nacional

Convém recordar que enquanto o governo Lula trabalha para fortalecer a integração nacional no combate ao crime, o bolsonarismo atuou em sentido oposto, tentando esvaziar o papel da Polícia Federal e enfraquecer sua posição institucional, por exemplo, no debate da chamada PEC da Segurança Pública, numa tentativa clara de fragmentar a coordenação federativa e reduzir a capacidade da União de articular uma estratégia nacional.

Não por acaso, governadores de direita, com Ronaldo Caiado à frente, mobilizaram-se contra mecanismos indispensáveis de integração entre Estados e União, resistindo a qualquer passo que significasse compartilhamento de inteligência, padronização de procedimentos e cooperação efetiva.

Essa postura, sob o discurso da autonomia federativa, na prática favorece a dispersão de esforços e abre brechas que o crime organizado sabe explorar com eficiência. Combater redes nacionais e transnacionais com estruturas estaduais isoladas é, no limite, contribuir para a manutenção da fragmentação que interessa às organizações criminosas.

Ao mesmo tempo, é indispensável compreender que a repressão qualificada deve caminhar ao lado de políticas públicas estruturantes, capazes de disputar territórios e oferecer alternativas reais à população que hoje vive sob a influência direta ou indireta de organizações criminosas. Onde há ausência do Estado, há ocupação pelo crime. O poder paralelo sempre apresenta como solução imediata.

O governo Lula, ao reestruturar e fortalecer a Polícia Federal, demonstra que é possível combinar firmeza institucional, respeito à legalidade e visão estratégica de longo prazo.

O desafio agora é consolidar esse caminho como política de Estado permanente, acima das disputas conjunturais, para que o Brasil não volte a experimentar ciclos de desorganização que favoreçam a expansão de redes criminosas.

Se quisermos um Brasil soberano, democrático e socialmente justo, o enfrentamento estrutural ao crime organizado deve permanecer no centro da agenda nacional, com lucidez estratégica, determinação política e compromisso inegociável com o Estado de Direito.

  • José Dirceu é ex-ministro-chefe da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-deputado estadual pelo estado de São Paulo

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