A pintura de Marcela Cantuária, entre a utopia e o mundo real

Jovem artista carioca apresenta primeira mostra individual em Brasília, na Alfinete Galeria

atualizado 30/03/2018 11:28

Bernardo Scartezini/Metrópoles

Nascida e criada na cidade do Rio de Janeiro, Marcela Cantuária é uma jovem pintora em ascensão no cenário das artes visuais cariocas. Ela apresenta até 14 de abril sua primeira mostra individual em Brasília, dentro da Alfinete Galeria, chamada Castelos no Ar.

A série inédita que empresta o nome à exposição traz também um aspecto de sonho, de fantasia. Marcela partiu do centenário da Revolução de 1917 para retomar aquele ideário comunista original agora em uma chave de utopia. Uma espécie de futuro do pretérito.

No entanto, esse aspecto mais onírico de seu trabalho é equilibrado, ao longo da visitação, pela realidade do capitalismo. E, sim, pela realidade urbana de seu Rio de Janeiro tão conhecido.

Há um par de semanas, na véspera da abertura da mostra, Marcela Cantuária recebeu a coluna Plástica para uma visita guiada à exposição.

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Já entrados alguns dias de outubro do ano passado, Marcela Cantuária se tocou de que a Revolução Russa estava a completar 100 anos. Resolveu marcar a data da maneira que melhor saberia fazer. Criou uma série de quadros, que agora podem ser vistos na Alfinete exatamente na ordem em que foram pintados, formando uma narrativa linear dessa revolução que, em iguais medidas, para a artista se tratou tanto de um evento real e quanto de uma utopia deixada em aberto – desdobrando-se ao longo de duas das paredes da sala.

“Esta é uma série baseada na ideia de hipóteses de futuro”, apresenta Marcela. “Como seria se acabassem as distinções de classe, se fossem criadas condições mais justas de trabalho, se não existisse mais sexismo, nem nenhuma das limitações da sociedade como conhecemos. E como seria também a superação das guerrilhas?”

Uma tela por dia, três dezenas de pinturas, foi a meta a que Marcela se colocou, correndo um pouco no comecinho dos trabalhos para dar conta do atraso com que entrou no calendário. Partindo da esquerda para a direita, em ordem de leitura, as pinturas se sucedem como a enumerar o que uma revolução popular desencadeia, desencadearia desde o curto prazo: as mudanças na educação e a formação de um exército do povo, também estão representadas as colheitas e o trabalho coletivo, a pesquisa científica, a presença das mulheres em diferentes áreas profissionais num panorama que atinge, nas últimas peças da coleção, um futurismo cyber.

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Marcela Cantuária partiu da leitura do livro A Hipótese Comunista (2009), do filósofo francês Alain Badiou. Partiu também de imagens de arquivo, de revistas e de manifestos, para dar conta tanto do peso histórico de seu tema quanto de seu caráter universalista, que ela não quis representar apenas o lado soviético, mas também experiências comunistas como a chinesa e a cubana.

No entanto, a ela interessava mais do que o registro factual. Interessava abrir seu trabalho para outras questões, de uma forma que apenas as liberdades pictóricas lhe permitem. Portanto, se ela usou imagens digitalizadas que estão dentro do computador para serem projetadas sobre a tela a ser pintada, o uso de cores feito por Marcela dali em diante é completamente livre de qualquer expectativa realista – abrindo planos de fantasia a partir da própria manipulação cromática.

Marcela também lança mão de outras estratégias para aumentar a distância entre você, prezado espectador, e aquela imagem original que ela pesquisou em arquivos. Por vezes, usa de tinta óleo para obliterar parte da composição, feita quase sempre em tinta acrílica, cobrindo pedaços inteiros da tela, tampando o que estaria por trás. Também usa no computador uma técnica chamada de glitch, que promove um ruído, como se fosse uma interferência em sinal de vídeo, deixando desencontradas as linhas da imagem original.

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Manipulações de imagem, tais como esse efeito glitch, servem para Marcela Cantuária como uma forma de lembrar que qualquer história é sempre uma versão.  A história dos livros de História sendo apenas a história oficial. Uma fração do que aconteceu de fato, uma construção sobre o que aconteceu de fato.

Tal processo de questionamento chega de forma mais severa à tela A Contrapelo, um dos três trabalhos expostos na Alfinete que não pertencem à série Castelos no Ar. Essa tela foi inspirada em um documentário que vira do avesso o mundo da moda ao mostrar a realidade da indústria têxtil em países da periferia do capitalismo, como Indonésia, Índia e Bangladesh. Dirigido por Andrew Morgan, The True Cost (2015) abriu no Festival de Cannes mas não passou pelos cinemas brasileiros. Marcela manda avisar que está disponível no Netflix.

Como forma de denunciar artisticamente as bases em que o capitalismo está assentado, Marcela já se interessa pelas entranhas da indústria têxtil há alguns anos. Nesse sentido, este quadro A Contrapelo remonta à série de pinturas Abelhas, que ela produziu em julho do ano passado, como trabalho de diplomação na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Daquela feita, ela partira do estrago social e ambiental que a indústria Monsanto promove com suas lavouras de algodão na Ásia.

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Após essa viagem por um socialismo utópico e por um capitalismo muito real, a tela Cinco Vezes Helena traz o visitante para o Rio de Janeiro. Mais precisamente, para as linhas de trem da Zona Norte da capital fluminense. Um caminho que Marcela Cantuária conhece bastante, pois frequentemente toma a composição no Grajaú, onde mora, e passa por Japeri para visitar a mãe em Conrado.

A linha de trem, com seus ferros e seus dormentes, ela deitou na parte de baixo da tela, cruzando o alto da composição com as antenas de metal comuns à malha ferroviária. Espalhou por ali algumas antigas fotografias de família, um punhado de autobiografia. Mas a dinâmica política se mantém. De um lado, a classe trabalhadora, dourada, resplandecente. Do outro lado, o patronato, pálido, puro chumbo. Sobre aqueles rostos sem faces paira ameaçadora a sombra de uma mira de fuzil, a marca – mais do que apenas simbólica – da violência urbana.

Essa tela, a maior do conjunto na Alfinete, é a única que não está pregada na parede. Está quase sobre o chão, pousada sobre um par de caixas de som. A voz que sai delas é a voz da própria Helena, a mãe de Marcela. São áudios que ela manda para a filha, reclamando do prefeito, reclamando da cidade, reclamando da farmácia que não abre dia de domingo.

Por causa de Helena, Marcela pintou também o arcano XVII do tarô. Uma influência mística para a artista desde a infância. “Apesar de ter uma pegada muito política, eu também gosto de bater um tamborzinho”, ela ri. Essa carta está ligada à natureza. Traz esperança, traz a possibilidade de se vislumbrar algo para além do que está posto de imediato. “Este é também um símbolo feminino”, sorri Marcela Cantuária.

Bernardo Scartezini/Metrópoles
Obra da série Castelos no Ar na Alfinete Galeria

 

Entre o tempo desta conversa na Alfinete Galeria e o tempo da publicação desta matéria, aconteceu um momento de inflexão na tragédia diária do Rio de Janeiro. A execução da vereadora Marielle Franco, na noite de 14 de março. A pedido da coluna Plástica, Marcela Cantuária comentou o acontecido por e-mail:

“Este último acontecimento, a execução da vereadora Marielle Franco, não tinha como passar batido quando nós abordamos a desigualdade e, como consequência, a luta do povo aqui no Rio de Janeiro A gente vive uma guerra civil não declarada. Infelizmente, é muito comum ver as lideranças pelos direitos humanos sendo perseguidas e sofrendo toda a sorte de ameaças. As pessoas dão a vida pelo coletivo e pelas possibilidades de transformação social e política. No meu repertório de pintura, eu não consigo concluir outro pensamento que não seja a revolta popular. Marielle vive e viverá, e espero com toda a força que ela seja um divisor de águas e motive o levante de todos os cidadãos, começando por aqueles que vivem diariamente na mira de nosso estado burguês.”

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