Parada Gay de Taguatinga protesta contra Estatuto da Família
Com o lema “O que define a família é o amor”, a 10ª edição da parada reuniu mais de 3 mil pessoas
atualizado
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Com o lema “O que define a família é o amor”, a organização da 10ª Parada Gay de Taguatinga busca chamar a atenção para o projeto de lei do Estatuto da Família, da Câmara Legislativa do Distrito Federal. A proposta restringe o conceito de família à união entre um homem e uma mulher. Embora o governador Rodrigo Rollemberg tenha barrado a proposta, deputados distritais se articulam para derrubar o veto.
O grupo se reuniu na Praça do Relógio, de onde saiu pouco após as 17h em caminhada ocupando as pistas do Setor Central da Administração Regional de Taguatinga. Segundo as contas da PM, a parada reuniu cerca de 3 mil pessoas. A organização fala em mais de 10 mil, no total.
“Em tempos de tanta violência que a gente vive e de tanta homofobia, uma marcha como essa surge quase como um grito de esperança. Há dez anos que a gente incomoda muito”, diz Michel Platini, um dos organizadores do evento e militante da ONG LGBT Estruturação. “Mas também é um grito de socorro, porque numa cidade extremamente homofóbica, a gente não conta com o apoio do poder público.”
O administrador regional de Taguatinga, Ricardo Lustosa, foi um dos principais alvos de crítica do movimento. Lustosa é aliado da deputada distrital Sandra Faraj (SDD), relatora e defensora do projeto do Estatuto da Família na Câmara Legislativa do DF.
Segundo Platini, a crítica ao Estatuto da Família é um contraponto àqueles que tentam enquadrar a família exclusivamente como o fruto da união entre um homem e uma mulher. “Não dá para considerar que uma família é apenas aquele modelo de margarina. Família é muito mais do que isso”, completa o militante.
Marcha em família
O vendedor de Ceilândia Murilo Patriota, de 25 anos, participa da Parada Gay de Taguatinga desde a primeira edição, em 2005. Sua mãe, a babá Maisa Patriota, de 52 anos, faz questão de vir marchar com o filho todos os anos.
“Aqui, eu posso lutar pelo que a gente preza um dia acontecer. O que a gente conquista aqui é a visibilidade. As pessoas aceitam nosso beijo, abraço”, diz o jovem. “As pessoas são muito preconceituosas, mas eu sou muito feliz com eles. Quando descobri, fiquei chateada por ele não ter compartilhado como se sentia comigo, não por ele ser gay”, diz Maisa.
Neste ano, Patriota também veio acompanhado do namorado, o técnico de informática de Santa Maria David Rodrigues, de 29 anos. Os dois estão juntos há dois anos. “Aqui a gente pode se libertar, nos outros lugares muitas vezes a gente não tem aceitação”, diz Rodrigues.
A professora Joceane Santos Moreira, de 25 anos, e a auxiliar de produção Andressa dos Anjos, de 22 anos, também aproveitaram a oportunidade da Parada Gay para se divertir e lutar por seus direitos. O casal mora junto há oito meses no Riacho Fundo 2 e disse ter enfrentado críticas por parte da família.
Eles disseram que era falta do que fazer, mas por mais que tenham preconceitos, as pessoas precisam aceitar a gente.
Joceane Santos Moreira
Evangélicos inclusivos
As pastoras Aline Leão, de 30 anos, e sua esposa Paloma Sene, de 35, fazem parte da igreja evangélica inclusiva Comunidade Cidade de Refúgio. De origem paulista, o grupo se instalou há um ano na expansão da QSD 23, em Taguatinga. Hoje, cerca de 50 pessoas frequentam os cultos no local.
“Muitas pessoas são criadas no berço evangélico e ficam desamparadas. Nós defendemos que Deus não faz acepção das pessoas e praticamos a teologia inclusiva”, explica a pastora Aline, ao que sua esposa diz “glória a Deus”.
O casamento das duas foi a primeira união oficialmente realizada pela Cidade de Refúgio, há quatro anos. “Nós temos duas filhas, uma hetero e uma homossexual. Somos uma família diversa e, independentemente dessa tentativa de alguns deputados, nós vamos continuar existindo. Não vamos aceitar essa homofobia”, afirma a pastora Aline.
Estatuto da Família
Para discursar contra os projetos de lei do Estatuto da Família, tanto em âmbito nacional como distrital, subiram ao carro de som da Parada Gay a deputada federal Érika Kokay (PT-DF), a ex-deputada federal Maninha (PSOL) e o ex-candidato a governador Toninho do PSOL.
Os três políticos também cobraram do governador Rodrigo Rollemberg a regulamentação da lei que criminaliza a homofobia. A portaria chegou a ser publicada pelo ex-governador petista Agnelo Queiroz, mas foi revogada após forte pressão de segmentos religiosos.
Em um discurso inflamado, Érika Kokay criticou a atuação da bancada evangélica no Congresso Nacional. A petista lembrou que nos próximos dias o grupo pretende aprovar o Estatuto da Família numa comissão especial, para levá-lo ao Plenário da Câmara. Segundo ela, a iniciativa “é uma tentativa de institucionalizar a homofobia”.
“Tirem sua homofobia do caminho, nós queremos passar com nossa liberdade, nossa humanidade e todos os amores. Essa cidade é de todas as cores. Nós não podemos ver a nossa cidade com uma única cor. A cidade é arco-íris, o pais é arco-íris. Esse projeto não pode ser a última palavra desse pais. esse projeto tem que ser destruído pelo nosso amor. Vamos tirar os beijos dessas prisões”, disse a deputada federal.
Autora da lei que pune administrativamente os estabelecimentos por práticas homofóbicas, a ex-deputada federal Maninha afirma que uma “onda conservadora tem trazido retrocessos imensos aos direitos humanos”. Segundo ela, o contexto de crise também acirra as disputas ideológicas. “Precisamos chamar a sociedade para sair às ruas e garantir aquilo que nos é mais importante: a liberdade de expressão”, afirmou a militante do PSOL.
















