Acúmulo de lixo na orla do Lago Paranoá atrai ratos e escorpiões

Aumento no número de pessoas que buscam lazer às margens do espelho-d’água não foi acompanhado de ações para minimizar impacto ambiental

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 08/02/2019 18:12

A abertura da orla do Lago Paranoá entregou à população do Distrito Federal um novo espaço de lazer, tornado público em processo cheio de idas e vindas judiciais concluído no início de 2018. No entanto, com um número cada vez maior de frequentadores, a falta de conscientização de alguns sobre o destino dado ao lixo deixado às margens do espelho-d’água tem preocupado moradores e pessoas que visitam o local.

As discussões sobre a orla se intensificaram ao ponto de a Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do Distrito Federal marcar, para 15 de março, audiência pública destinada a debater o uso e ocupação do espaço.

Nos fins de semana e feriados, é comum a reunião de grupos e a promoção de festas com bebidas alcoólicas e churrasco na orla, sobretudo no Parque Asa Delta e na reserva da Península dos Ministros, no Lago Sul. Mesmo quando as pessoas fazem a coleta do lixo ao final dos eventos, a falta de lixeiras suficientes favorece a proliferação de animais vetores de doenças, que raramente eram encontrados.

Moradores da região relatam o aparecimento de ratos, pombos, baratas e escorpiões na beira do lago. Além disso, há a preocupação com as capivaras, hospedeiras do carrapato-estrela, que transmite uma doença às vezes fatal para humanos: a febre maculosa.

 

Outro problema é que, em alguns locais, como o Parque da Península dos Ministros, o estacionamento público tem poucas vagas. Dessa forma, frequentadores deixam os veículos na rua estreita de dois sentidos que dá acesso ao Lago Paranoá pela QL 12.

Sem espaço, muitos estacionam nas calçadas e em frente à garagem das casas. O Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) demarcou a área proibida, mas é comum que fiscais do órgão sejam chamados para guinchar automóveis bloqueando entradas de residências.

Para a decoradora Valéria Leão, moradora da QL 12, falta estrutura para o visitante. “Fizeram o parque e não deram equipamentos básicos para os frequentadores. Acho que todo mundo tem o direito de usar, sim, mas esses problemas estão levando vários animais para os arredores. É muito agradável passear pela orla, andar de bicicleta, mas não se pode deixar as pessoas entrarem em uma reserva ambiental com churrasqueiras e caixas de bebidas alcoólicas”, afirma.

O engenheiro civil Dario Clementino, presidente da Associação de Moradores da QL 12, sugere a adoção de regras semelhantes às de outros parques ecológicos de Brasília para os espaços à beira-lago. “Nós temos mantido contato com o GDF [Governo do Distrito Federal] e a Administração Regional do Lago Sul, e os órgãos querem colocar guarita com vigia nos acessos. Outra medida é adotar horário de abertura e fechamento”, diz.

Segundo o presidente da entidade, é preciso também dar uma solução definitiva ao problema de falta de estacionamento, que provoca transtornos aos moradores da região. “Sábado e domingo, a gente não tem como receber visitas, porque não há onde a pessoa estacionar. Tem vizinho que coloca o carro praticamente dentro da casa da pessoa, em rotatórias feitas para veículos manobrarem. Isso quando não param bloqueando a garagem”, reclama Clementino.

Metrópoles questionou o Instituto Brasília Ambiental (Ibram), responsável por gerir os parques do DF, sobre as providências a serem tomadas acerca dos problemas apontados pelos moradores, mas não obteve resposta do órgão até a última atualização desta reportagem.

Por meio de nota, a Administração Regional do Lago Sul informou que há previsão da construção de guaritas e atuação de vigilância, “para garantir equilíbrio entre o uso do espaço público e a preservação ambiental”. Segundo o órgão, o acesso aos parques Península e Asa Delta já serão regularizados neste fim de semana e o portão que vinha sendo usado de forma irregular na QL 12 ficará fechado aos sábados e domingos, ficando permitida a entrada apenas pelos portões principais.

“Serão desenvolvidas ações para educação ambiental dos frequentadores dos parques, que precisam estar conscientes da responsabilidade, que é de todos, de preservar o Lago Paranoá e toda área que o margeia”, finaliza a nota.

Audiência pública
Os problemas decorrentes do aumento no número de frequentadores das margens do espelho-d’água chegaram à Justiça e a Vara de Meio Ambiente promove, em 15 de março, audiência pública. O encontro foi agendado devido a uma ação popular questionando a execução de obras no local, onde ciclovias foram construídas dentro de áreas de preservação permanente, violando regra ambiental que proíbe retirada de vegetação a menos de 30 metros da margem do lago.

A utilização do uso da orla do Lago Paranoá decorre de acordo de desocupação firmado entre o GDF e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), homologado pela Vara Ambiental. Com o questionamento, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) decidiu ouvir moradores, governo, associações interessadas ou qualquer pessoa que queira cooperar com a discussão pública sobre o uso adequado e sustentável do espaço.

Estudos de viabilidade
A polêmica em torno da desobstrução da orla do Lago Paranoá voltou à pauta após o governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), criticar a liberação do espaço, no último dia 12. Na ocasião, o emedebista disse que “não pode ter gente circulando, porque traz sujeira”. Ele anunciou que serão feitos estudos de viabilidade de implantação de parques vivenciais para que a população tenha acesso de forma controlada, sem ocasionar poluição no local.

O pronunciamento do governador também causou alvoroço nas redes sociais e dividiu moradores da cidade. Na época, o coordenador do movimento Ocupe o Lago, Marcelo Ottoni, diz ter se surpreendido com a visão de Ibaneis sobre o Lago Paranoá. “A solução não é fechar, e sim transformar esses lugares, levando ordenamento, limpeza e segurança”, sugeriu.

Áreas abandonadas
Em setembro de 2018, o Metrópoles mostrou a situação da orla do Paranoá. Em muitos lugares, as áreas ficaram abandonadas após passarem por desobstrução. Em agosto de 2015, a administração anterior iniciou o processo de remoção das estruturas. O trabalho foi finalizado em janeiro de 2018, com saldo de 1,7 milhão de metros quadrados desobstruídos, num total de 454 lotes recuados.

No entanto, a velocidade com que os tratores da Agência de Fiscalização (Agefis) derrubaram edificações situadas a menos de 30 metros da margem do lago não foi a mesma para revitalizá-las. Na QL 28, por exemplo, na altura do Conjunto 4, após a retirada das cercas, o que ficou foi um amontoado de ferros contorcidos e pedaços de concreto pelo chão.

Os moradores do local ainda esperam as melhorias. Alguns, cansados das promessas, decidiram por conta própria refazer o paisagismo na área pública.

Na parte norte do Paranoá, as áreas desobstruídas da orla não foram as únicas deixadas de lado pelo poder público. De embarcações, é possível observar margens totalmente degradadas e com entradas de difícil acesso. Desde então, moradores aguardam ações do Estado para levar infraestrutura e segurança a essas localidades.

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