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Negócios

Por que os analistas de bancos rebaixaram as ações do Nubank

Questões sobre crédito e troca de executivos na fintech estão no centro dos problemas apontados por técnicos do Citi e do BofA

18/06/2026 02:00
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Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images
Imagem coloriuda de mulher mexendo no celular. Ao fundo, logotipo do Nubank na tradicional cor roxa - Metrópoles

O Citi e o Bank of America (BofA) têm uma avaliação em comum. Ainda que por motivos diferentes, os analistas de mercado dos dois bancos rebaixaram a recomendação das ações do Nubank nos últimos dias.

No caso do Citi, a análise mais recente, o banco mudou a perspectiva das ações de “compra” para “neutra”. O preço-alvo dos papéis (a estimativa de quanto eles devem valer em um prazo de 12 meses) também foi cortado. Ele passou de US$ 18 para US$ 13.

Já os especialistas do BofA cortaram no início do mês a recomendação das ações do Nubank para “underperform”, o que significa que conferiram aos papéis uma potencial de desempenho abaixo da média. O preço-alvo da ação, nesse caso, passou de US$ 16 para US$ 10.

Crédito

Para o Citi, o que está pegando no desempenho da fintech é um risco potencial na expansão acelerada de empréstimos. “O Nubank parece ter pouca probabilidade de desacelerar sua trajetória de crescimento sem sacrificar monetização e rentabilidade, dada sua forte dependência do crédito”, diz o banco.

Na avaliação, o Citi destaca que a receita média por cliente ativo (ARPAC, na sigla em inglês para o indicador) impulsionada por crédito representa cerca de 60% da ARPAC total do Nubank.

O relatório acrescenta que as exposições a cartões de crédito e empréstimos pessoais estão, na prática, subordinadas ao crédito consignado privado, numa dinâmica pouco percebida pelo mercado, mas que o Citi considera “um risco relevante para o Nubank”.

“À medida que o crédito por desconto em folha (consignado) continua crescendo, ele tende a reduzir a capacidade dos tomadores, transferindo o estresse para produtos sem garantia”, afirma a análise. “Esse efeito cria uma assimetria negativa para bancos com maior exposição a cartões de crédito, empréstimos pessoais e clientes de baixa renda, sendo o Nubank particularmente exposto.”

Lucro

O Citi também reduziu as estimativas de lucro do Nubank em 9%, para US$ 3,7 bilhões, em 2026, e em 15%, para US$ 4,4 bilhões, em 2027. Os analistas também preveem um Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), um indicador de eficiência e rentabilidade dos bancos sustentável de longo prazo de 25% (ante 30% na avaliação anterior).

Esse ROE, para o Citi, reflete uma menor capacidade de geração de resultados, perspectivas de crescimento mais desafiadoras e maior incerteza em relação à expansão internacional.

Troca de executivo

Os senões do Bank of America foram feitos no início deste mês, quando o Nubank nomeou o americano Rob Livingston como novo diretor financeiro (CFO) da empresa, em substituição a Guilherme Lago, brasileiro que ocupava o posto desde 2021. As ações do fintech chegaram a cair 10% quando o anúncio foi divulgado ao mercado.

Para os analistas do BofA, liderados por Mario Pierry, o novo CFO tem experiência, mas o “timing” da mudança traz incerteza e ocorre depois de várias mudanças na administração sênior da fintech nos últimos dois anos.

Além de Lago, deixaram o Nubank: Youssef Lahrech, presidente e diretor operacional; Jag Duggal, diretor de produtos; Vitor Olivier, diretor de tecnologia; e Ravi Prakash, da área de gestão de risco de crédito.

“Apesar de reconhecermos a forte marca do Nubank, sua ampla base de clientes, o modelo de baixo custo de aquisição e espaço para crescimento a longo prazo, acreditamos que o risco/retorno piorou”, disse o relatório, acrescentando: “A combinação de outra saída inesperada na liderança, deterioração na qualidade dos ativos, pressão sobre margens ajustadas ao risco e menor visibilidade de lucros torna o investimento menos atraente.”

Livingston, que foi diretor financeiro para a América do Norte da Visa e acumula longa passagem pela Capital One, ingressou no Nubank num momento em que a fintech se prepara para um novo salto no longo prazo. Ela quer expandir suas operações para além da América Latina, começando pelos Estados Unidos.

Visão positiva

Os pontos de vista do Citi e do BofA, contudo, não são unânimes. Uma avaliação do Bradesco BBI oferece uma perspectiva diferente. Nela, o analista Marcelo Mizrahi faz um balanço entre as avaliações otimistas e positivas sobre o Nubank.

Mizrahi observa que as ações da fintech recuaram quase 30% em 2026. Para os otimistas, diz o analista, houve uma “sobrecorreção” nos papéis, “em grande parte atribuível a um trimestre com provisões sazonais aparentemente maiores”. Além disso, a reação do mercado à troca do CFO (Lago por Livingston) teria sido “exagerada”.

Em relação aos pessimistas, o relatório os divide entre internacionais e locais. Os primeiros estão mais preocupados com os investimentos nos EUA e com as mudanças na governança/gestão. Os outros olham para o ciclo de crédito, que apresenta sinais de deterioração, o que poderia não apenas prejudicar o Nubank em termos de provisões, mas provocar um crescimento mais lento dos empréstimos, limitando a trajetória de crescimento tradicional do banco.

“Mantemos nossa visão positiva, pois os riscos parecem estar precificados”, conclui o Bradesco BBI. “Também acreditamos que a melhora sequencial impulsionada pela sazonalidade no 2º trimestre de 2026 pode mostrar que a empresa permanece no caminho certo.” Ainda assim, pondera a análise, houve uma redução das estimativas de lucro líquido em 4%, em 2026, e 6%, em 2027.

Baixo custo

Em outro relatório recente, o Morgan Stanley afirma que realizou reuniões com gestores do Nubank e investidores em Nova York e Boston. “No geral, os encontros reforçaram a crença do Nubank de que entrará em 2026 com mais alavancas de crescimento, e não menos, enquanto o mercado permanece focado nas oscilações de curto prazo em relação ao crédito no Brasil”, diz o texto.

O aumento das provisões foi apresentado pela administração da fintech como uma questão de crescimento, composição e momento, e não como um problema de qualidade dos ativos.

Para o Nubank, acrescenta a análise do Morgan Stanley, o Brasil ainda oferece um longo caminho para a monetização, principalmente porque o modelo operacional de baixo custo permite o atendimento de clientes do mercado de massa de forma lucrativa, setor onde os bancos tradicionais encontram dificuldades.

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