Para o mercado, indústria estagnada confirma desaceleração da economia
Taxa básica de juros ainda elevada, em 15% ao ano, e efeitos do tarifaço dos EUA sobre alguns setores explicam resultado tímido da indústria
atualizado
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O desempenho tímido da indústria nacional em novembro do ano passado, revelado nesta quinta-feira (8/1) com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmam a desaceleração da economia do país e as dificuldades impostas por uma taxa básica de juros ainda elevada, em 15% ao ano.
A avaliação é de economistas e analistas consultados pela reportagem do Metrópoles nesta manhã, pouco depois da divulgação dos números da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do IBGE.
De acordo com o levantamento, a produção industrial do país mostrou variação nula (0%) frente a outubro, na série livre de influências sazonais. Em relação a novembro de 2024, houve recuo de 1,2%. O acumulado no ano foi de 0,6% e o dos últimos 12 meses até novembro chegou a 0,7%.
O IBGE destacou que a produção industrial está 2,4% acima do patamar pré-pandemia (em fevereiro de 2020). No entanto, encontra-se 14,8% abaixo do nível recorde de maio de 2011.
O que diz o mercado
Segundo Claudia Moreno, economista do C6 Bank, “a categoria de bens de capital, ligada a investimentos em máquinas e equipamentos, chegou em novembro ao terceiro mês seguido de alta”. “Mas, quando olhamos para os dados acumulados em 2025, vemos que o segmento perdeu força, possivelmente impactado pelos juros altos. Com a Selic elevada, o crédito fica mais caro, o que acaba desestimulando a compra desses produtos e, consequentemente, os investimentos em modernização e ampliação das fábricas”, avalia.
Para a economista, os dados de novembro confirmam a leitura de que a indústria brasileira desacelerou ao longo de 2025. “O setor deve terminar o ano com crescimento próximo a 1%, abaixo da expansão de 3,1% registrada em 2024”, projeta Moreno.
“A perda de fôlego da indústria é mais um indicativo de que a economia brasileira desacelerou, devendo fechar 2025 com crescimento de 2,2%. Já para 2026 e 2027, nossa expectativa é de que o PIB avance 1,7% e 1,5%, respectivamente, uma vez que as medidas de estímulo adotadas pelo governo (como o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda) devem evitar um esfriamento mais intenso da atividade”, completa.
André Valério, economista sênior do Banco Inter, aponta que houve um “recuo generalizado” na produção industrial, com 15 dos 25 ramos investigados apresentando variação negativa em novembro. “A principal influência negativa foi a indústria extrativa, com queda de 2,6% no mês, influenciada pela menor extração de petróleo e gás, que recuou 5,3%, com ajuste sazonal, em comparação a outubro. Outros destaques negativos foram os recuos na produção de veículos (-1,6%), produtos químicos (-1,2%), alimentícios (-0,5%) e bebidas (-2,1%)”, observa.
“O resultado de novembro reafirma a tendência de desaceleração do setor industrial, que sofre de um problema duplo, a elevada taxa de juros e o tarifaço norte-americano, que, mesmo com diversos recuos, ainda mantém a sobretaxa de 50% em boa parte da produção industrial exportada aos Estados Unidos”, afirma Valério.
“Com isso, vemos a confiança do setor em baixa, com expectativas pessimistas para 2026. Esperamos que o setor apresente leve recuperação em dezembro e termine 2025 com alta acumulada de 0,7%.”
Para Matheus Pizzani, economista do PicPay, “embora relativamente esperada dentro da conjuntura atual, haja vista os efeitos do encarecimento do crédito via política monetária sobre segmentos como o de móveis e a reversão já esperada da produção de veículos após um mês de forte produção devido à troca de modelos, outros elementos na pesquisa sugerem um processo de desaceleração mais amplo em curso no setor”.
“Prospectivamente, a expectativa é que o resultado de dezembro não apresente variações muito expressivas, com a indústria extrativa demonstrando maior potencial de recuperação conforme sinalizaram os dados da balança comercial, com as exportações do setor crescendo 53%”, aponta.
“A contribuição do setor seja para o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) de novembro ou mesmo para o PIB do quarto trimestre, no entanto, deve ser reduzida, com o nível de atividade ainda fortemente dependente do setor de serviços para garantir um bom desempenho no ano”, completa Pizzani.
O economista Maykon Douglas também constata “mais um resultado tímido da indústria, como vimos ao longo do ano passado”. “Apesar da queda na indústria extrativa na margem, temos um setor que roda em dois trilhos: a indústria extrativa apresenta bons resultados acumulados, enquanto a indústria de transformação está andando de lado, efeito do aperto monetário em curso”, diz.
“Ao calcularmos a média móvel em 12 meses da taxa de difusão (percentual de setores que subiram no mês), vemos que a métrica está abaixo da média histórica pelo sexto mês consecutivo. Ou seja, é um setor com um desempenho geral ruim”, avalia.
Segundo o economista, “a indústria de transformação deve continuar a reportar resultados ruins até que o ciclo de cortes da taxa Selic comece a beneficiar segmentos mais sensíveis ao crédito”.
