Indústria segue patinando e andando de lado no Brasil, dizem analistas
Segundo o IBGE, houve uma leve alta de 0,1% na produção industrial do país em outubro, na comparação com o mês anterior
atualizado
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Os resultados do mês de outubro da produção industrial no Brasil não surpreenderam o mercado e confirmaram que o setor segue patinando, “andando de lado” já há algum tempo e sem sinais de um novo impulso para um crescimento maior e mais sustentável.
De acordo com economistas e analistas consultados pela reportagem do Metrópoles nesta terça-feira (2/12), logo depois da divulgação dos dados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o impacto das tarifas comerciais aplicadas pelos Estados Unidos e a elevada taxa básica de juros no Brasil dificultam um melhor desempenho da indústria nacional.
Segundo o IBGE, houve uma leve alta de 0,1% na produção industrial do país em outubro, na comparação com o mês anterior. Por outro lado, em relação ao mesmo período do ano passado, houve recuo de 0,5%. No acumulado dos dez primeiros meses de 2025, o crescimento é de 0,8%. Em 12 meses até outubro, a alta é de 0,9%.
Entre setembro e outubro deste ano, três das quatro grandes categorias econômicas e 12 dos 25 ramos industriais pesquisados registraram crescimento na produção. Entre as atividades, a principal influência positiva foi das indústrias extrativas, que avançaram 3,6%, interrompendo uma sequência de dois meses consecutivos de queda.
O que diz o mercado
Segundo André Valério, economista sênior do Banco Inter, o resultado da indústria em outubro “reforça a dinâmica de acomodação do crescimento do setor”. “A indústria tem se mostrado o setor mais exposto ao tarifaço, tendo em vista que o mercado norte-americano é de grande relevância para as exportações industriais e que os nossos produtos industriais não foram contemplados com nenhuma amenização das tarifas, como foi o caso de diversos outros produtos”, avalia.
“Além disso, a produção industrial, por ser mais intensiva em capital, é mais sensível à política monetária, e o aperto das condições financeiras deve continuar sendo uma força contrária para o setor nas próximas leituras. Esperamos continuidade da tendência de acomodação, com o setor encerrando o ano com alta de 0,5%”, projeta Valério.
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, observa que “a categoria de bens de capital, ligada a investimentos em máquinas e equipamentos, registrou em outubro sua segunda alta mensal consecutiva”. “Apesar disso, os dados acumulados ao longo do ano mostram que o segmento vem perdendo força, possivelmente impactado pelos juros altos. Com a Selic em patamar elevado, o custo do financiamento para a compra desses produtos aumenta, o que acaba desestimulando os investimentos em modernização e ampliação de parques produtivos”, afirma.
“Os dados de outubro reforçam nossa avaliação de que a indústria brasileira, como um todo, perdeu fôlego em 2025. Nossa expectativa é de que o setor termine o ano com crescimento próximo a 1%, bem abaixo da expansão de 3,1% registrada em 2024”, projeta Moreno.
“A desaceleração da indústria ao longo de 2025 é um dos sinais de que a economia brasileira, de maneira geral, deve crescer menos do que em 2024. Essa perda de força é reflexo dos juros altos, que reduzem o espaço para novos investimentos e limitam o crescimento da atividade econômica”, completa a economista.
Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, observa que a produção industrial brasileira “mostrou nova perda de fôlego em outubro, avançando apenas 0,1% na margem, em linha com a nossa expectativa de leve alta, mas indicando continuidade do quadro de estagnação observado desde o início do segundo semestre”.
“O resultado sucede a queda de setembro e reforça um ambiente de atividade moderada, ainda condicionado pela política monetária restritiva, pela desaceleração da demanda e pelo enfraquecimento das exportações de manufaturados”, explica.
Ariane afirma ainda que, apesar do resultado positivo no acumulado do ano, “a leitura de outubro e a queda registrada em setembro confirmam uma trajetória de atividade irregular, marcada por ciclos curtos de recomposição e quedas subsequentes”.
“Para os últimos meses de 2025, mantemos um cenário de volatilidade e estabilidade na média móvel, com projeção de crescimento marginal em novembro e dezembro. Com isso, estimamos que a indústria encerre 2025 com avanço próximo de 0,9%, refletindo um ano de retomada limitada, desempenho heterogêneo entre os setores e sensibilidade elevada às condições macroeconômicas”, completa.
O economista Maykon Douglas, por sua vez, afirma que “o dado da indústria em outubro é mais um caso em que o número em si não conta toda a história”. “O setor voltou a cair na comparação anual, e o impacto do setor extrativo na margem, que costuma ser bastante volátil, foi menor que o esperado”, destaca.
“Há algum tempo, a indústria doméstica opera em dois trilhos, com alguns bons resultados no setor extrativo e uma grande fraqueza na indústria de transformação, mais sensível às condições dos juros. Com o aperto monetário em curso pelo Banco Central, a tendência é que essa trajetória se mantenha nos próximos meses”, conclui.
Em nota, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) afirma que, “sob o peso dos desafios provocados pelas mudanças internacionais e dos efeitos defasados e cumulativos da política monetária restritiva, espera-se moderação da atividade industrial no fim de 2025 e em 2026”.
“Entretanto, o mercado de trabalho resiliente, as transferências fiscais elevadas e as políticas governamentais podem suavizar a desaceleração da atividade industrial. Entre elas, destacam-se a ampliação do crédito do BNDES, investimentos de governos subnacionais e a nova faixa de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil”, diz a Fiesp.
“Nesse contexto econômico, a Fiesp projeta crescimento de 0,9% da produção da indústria geral em 2025, após alta de 3,1% em 2024. Para 2026, projeta um avanço de 0,6%. No que diz respeito à produção da indústria de transformação, após avanço de 3,7% em 2024, estima-se estabilidade (0%) em 2025, seguida por uma retração de 0,9% em 2026”, diz a nota da entidade.
