Desenrola funciona, mas não resolve o problema do endividamento

Estudo mostra que programa do governo tem peso expressivo no alívio de dívidas, mas não passa de solução pontual para um problema estrutural

atualizado

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Desenrola Brasil tem inadimplência de quase R$ 50 milhões - Endividamento no Brasil
1 de 1 Desenrola Brasil tem inadimplência de quase R$ 50 milhões - Endividamento no Brasil - Foto: Reprodução

O Desenrola funciona. Mas o programa que o governo federal acaba de relançar não resolve o problema do endividamento e opera numa contradição. Ele enfrenta consequências que decorrem de escolhas da própria política econômica. São elas os juros altos (em grande parte, resultado da política fiscal) e o mercado de apostas online, as bets, regulamentado tarde demais para evitar o estrago provocado no bolso dos brasileiros.

Essa é a conclusão de um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e pela FIA Business School. A análise modelou o endividamento das famílias brasileiras entre dezembro de 2011 e dezembro de 2025, dando peso (coeficientes) para os principais fatores que influenciaram esses débitos.

Nesse período, o Desenrola reduziu o endividamento, obtendo um coeficiente de -0,44 ponto. Esse valor foi suficiente para compensar quase três quartos da pressão combinada das bets (com coeficiente +0,37) e dos juros (+0,23) registrada no mesmo período. “O problema”, diz a análise, “é que, encerrado o programa, a pressão voltou”.

O economista Claudio Felisoni, professor da FIA, observa que os juros são o fator mais antigo e estrutural do endividamento brasileiro. O modelo confirma o que a teoria econômica já estabelecia: taxas de juros elevadas (com coeficiente +0,23) amplificam o endividamento das famílias ao encarecer o crédito e tornar as dívidas existentes progressivamente mais pesadas. E o Brasil convive com uma das maiores taxas de juros reais do mundo — e isso não mudou em relação ao primeiro Desenrola, lançado em julho de 2023.

Fator “evitável”

Já as bets, afirma o estudo, são um problema mais recente e, sob certa perspectiva, mais evitável. E elas foram o fator de maior impacto positivo sobre o endividamento no modelo (+0,37), superando até os juros. “A regulamentação do setor chegou com atraso significativo em relação à expansão das plataformas, permitindo que o mercado crescesse sem os freios necessários”, diz a análise. “As famílias que apostam se endividam de forma mais rápida e o efeito é mensurável e estatisticamente robusto”.

“O problema é que o mesmo governo que não criou as condições para reduzir os juros, o que deveria ser feito com corte de gastos, e regulamentou as bets tarde demais agora propõe um programa para limpar parte do estrago”, diz Felisoni.

Programa funcionou

A análise do Ibevar-FIA mostra que a primeira versão do Desenrola funcionou. O programa permitiu renegociações com descontos de até 90% e parcelamentos de até 60 meses. Na Faixa 1, voltada a famílias de baixa renda, o governo ofereceu garantia direta para incentivar os bancos. “O efeito foi uma redução mensurável e sustentada na velocidade de crescimento do endividamento enquanto o programa esteve ativo”, afirma o estudo.

Mas a avaliação acrescenta: “O próprio modelo revela, porém, o limite do instrumento. Encerrado o Desenrola, o endividamento retomou a trajetória de alta. O programa resolve o estoque da dívida acumulada, mas não altera o fluxo que a gera. Juros altos continuam cobrando seu preço, e as bets seguem operando. O Desenrola é, por definição, uma medida pontual aplicada a um problema estrutural”.

O que muda

O novo Desenrola mantém os mecanismos que funcionaram — a renegociação com juros de até 1,99% ao mês e descontos entre 30% e 90% — e adiciona duas novidades. A possibilidade de saque de até 20% do FGTS amplia o poder de amortização, mas transfere risco ao trabalhador no longo prazo, ao reduzir sua reserva previdenciária.

Felisoni destaca que a inovação mais significativa é a exigência de suspensão do acesso às plataformas de apostas por um ano como condição de adesão. “Trata-se de uma medida de contenção comportamental que o dado justifica — mas que expõe a contradição: se as bets são o maior fator de endividamento (+0,37), a resposta estrutural seria uma regulação mais rigorosa do setor, não apenas sua suspensão temporária para quem pede socorro ao Estado”, aponta.

O que não muda

Os juros, no entanto, não mudam. “O ambiente macroeconômico em 2026 é mais adverso do que em 2023. A taxa básica (Selic) segue elevada (14,5% ao ano), e o modelo indica que essa variável continuará pressionando o endividamento (+0,23) independentemente do Desenrola”, afirma Felisoni. “O programa terá de trabalhar contra uma corrente mais forte do que na rodada anterior.”

Ainda assim, nem todas as perspectivas são negativas. “Se o coeficiente do Desenrola se mantiver na faixa de −0,44 e a restrição às apostas gerar efeito adicional sobre o impacto das bets, o programa tem potencial de entregar redução do endividamento mais duradoura do que a edição anterior”, diz o economista. “A chave estará na escala de adesão. Quanto maior o número de famílias no programa, maior o impacto líquido sobre o endividamento. Mas, com juros altos e apostas, já podemos aguardar o próximo Desenrola.”

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