1 de 1 Carlos Alberto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Herrmann Telles em foto posada para lançamento de livro - Metrópoles
- Foto: Editora Sextante/Divulgação
A queda de braço entre os bancos e a Americanas deverá ser longa. De um lado, uma empresa que anunciou, pouco mais de 10 dias atrás, ter identificado uma inconsistência contábil de R$ 20 bilhões em seu balanço. Do outro lado, instituições financeiras que descobriram que a dívida real da Americanas era o dobro do que a varejista informava até então.
Para construir uma fortuna de mais de R$ 180 bilhões, o trio conduziu os negócios com mão de ferro. É difícil esperar, portanto, uma postura diferente à mesa de negociação.
“Conhecendo os três (Lemann, Sicupira e Telles), posso dizer que, se os bancos exigirem uma capitalização de mais ou menos R$ 15 bilhões, eles vão deixar a Americanas falir”, prevê Luiz Cezar Fernandes, empresário de 78 anos que foi sócio do trio no antigo banco Garantia.
Sociedade com Lemann, Sicupira, Telles e… André Esteves
Fernandes recebeu a reportagem do Metrópoles em sua casa, em São Paulo, na tarde da última terça-feira (24/1). Afastado do trio bilionário há anos, em razão de desentendimentos amplamente conhecidos no mercado e que levaram ao fim da sociedade no Garantia, o empresário também foi sócio de outra figura importante do atual imbróglio.
Quando se desentendeu com os sócios do Garantia, Fernandes saiu da sociedade e montou o Pactual. Entre seus “pupilos” no banco de investimento, estava André Esteves. Hoje, Esteves é sócio do BTG Pactual, o maior banco de investimentos da América Latina, e está na trincheira oposta à de Lemann, Sicupira e Telles.
Além de valores depositados em contas da Americanas, o banco teria também bloqueado aplicações financeiras dos sócios, algo que aumentou a temperatura da briga.
“O que o BTG fez foi correto, diante do que sabemos do balanço da Americanas. É papel do banco fazer isso: afinal, ele administra o dinheiro de terceiros. Um bom banqueiro ‘mete a mão’ primeiro e depois discute”, defende Fernandes.
Luiz Cezar Fernandes, ex-sócio dos bancos Garantia e Pactual
“Beto mandava em tudo”
Quando ainda estava no Garantia, Fernandes acompanhou a aquisição da Americanas pelo trio, em 1982. Na época, a operação saiu por US$ 27 milhões – “quase de graça”, como classifica o ex-sócio. Ele conta que, um ano depois da aquisição, a Americanas distribuiu mais de US$ 27 milhões em lucro para os sócios e, assim, a operação se pagou.
“Desde o princípio, o Jorge (Lemann) e o Marcel (Telles) entregaram ao Beto (Sicupira) o comando da Americanas. Era ele quem mandava em tudo e ditava as cartas por lá. Foi assim nos últimos 40 anos”, afirma o empresário.
Fernandes conta que Sicupira concentrou todo o poder de decisão na Americanas, inclusive sobre a nomeação do presidente e demais executivos.
“Se o Beto falasse: ‘vamos pintar essa parede de verde’, aquela era a última palavra. Mesmo que não fosse a melhor decisão, quem questionasse era demitido”, diz.
Uma das razões para a saída de Fernandes da sociedade do Garantia foi justamente o embate com Sicupira.
O ex-banqueiro afirma que queria vender a Americanas, mas o sócio não abriu mão nem quando o Walmart ofereceu US$ 170 milhões pela rede de lojas, poucos anos depois de o trio ter comprado o negócio por US$ 27 milhões.
“A verdade é que o Beto se apaixonou pela Americanas desde o dia em que pisou na primeira loja e nunca conseguiu abrir mão disso. Ele só saiu do comando poucos meses atrás, quando, no meu entendimento, o problema no balanço começou a desandar”, diz Fernandes.
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Carlos Alberto Sicupira, 69 anos (3G Capital)
Reprodução
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Jorge Paulo Lemann
Reprodução
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Marcel Herrmann Telles, 73 anos (3G Capital)
reprodução
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Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, sócios de empresas como Americanas, Ambev e Kraft Heinz
Editora Sextante/Divulgação
A origem da crise
Uma investigação ainda será capaz de responder, com detalhes, como um problema de R$ 20 bilhões passou batido por executivos, presidente, conselho e auditorias interna e externa da Americanas. A esta altura, parece haver um consenso no mercado de que, de alguma maneira, os dados do balanço foram manipulados para maquiar a situação financeira da varejista e aparentar uma situação melhor do que a real.
Essa é também a opinião de Fernandes. O ex-sócio dos bilionários acredita que houve uma tentativa do trio de “criar liquidez”, melhorando o balanço de maneira artificial, para que a divisão de lucros fosse maior.
Apenas a Justiça poderá dizer se os acionistas de referência foram, mesmo, responsáveis por uma manipulação desse tipo, mas a voracidade com que os bancos têm tentado reaver as dívidas na Justiça indica que o nível de desconfiança é elevado.
“Os bancos estão ‘p. da vida’ porque deram muito crédito para a Americanas nos últimos anos, acreditando que ela era uma empresa grande, bem administrada, que pagava bem”, afirma Fernandes.
“Eu acredito que o Beto ainda esteja à frente dessas negociações com os bancos, embora a Americanas tenha contratado a Rothschild. Só que ele não é uma pessoa de diálogo. Duvido que encontrem no mercado alguém que consiga negociar com o Beto”, desafia o ex-banqueiro.
Queda de braço
A salvação da Americanas parece estar, agora, com os sócios. Irritados, os bancos estariam pressionando o trio de bilionários a tirar até R$ 20 bilhões do bolso e injetar esse dinheiro na Americanas, para pagar dívidas e reestruturar a operação. A contraproposta dos sócios seria a de uma capitalização muito mais modesta, em torno de R$ 6 bilhões, valor considerado insuficiente pelas instituições financeiras.
“Conhecendo os três, posso dizer que, se os bancos exigirem uma capitalização de mais ou menos R$ 15 bilhões, eles vão deixar a Americanas falir”, repete Fernandes.
A única saída possível para a empresa, na visão do ex-banqueiro, é uma fórmula que combina perdas para os credores, venda de ativos e uma capitalização modesta dos sócios.
Nos cálculos dele, os bancos recuperariam menos de 50% da dívida total (ou seja, dos R$ 20 bilhões que a Americanas deve a essas instituições financeiras, menos de R$ 10 bilhões voltariam para o caixa). A varejista teria, então, que fazer um movimento para vender ativos e tornar a operação mais enxuta.
“Eu venderia, por exemplo, a rede de conveniência de postos (da marca Local) e o hortifrúti Natural da Terra. É possível até que os próprios bancos queiram ficar com esses ativos, em uma tentativa de diminuir o prejuízo”, opina o ex-sócio do trio.
A partir dessa reestruturação, a empresa que restar, que seria apenas uma sombra do que foi a Americanas, não teria mais os sócios bilionários no controle, uma vez que é possível (e provável) que os bancos troquem parte da dívida por ações da varejista, reduzindo a participação de Lemann, Sicupira e Telles no negócio. Hoje, o trio tem 31% das ações.
“Começo a achar que isso seria até um alívio para eles. Tudo o que eles querem é se livrar do problema”, finaliza Fernandes.
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