Trump pode usar morte de ativista para mostrar América sitiada

Especialistas alertam que o episódio pode ser explorado pela Casa Branca para reforçar discursos de medo e justificar medidas autoritárias

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Justin Sullivan/Getty Images
Imagem colorida de Charlie Kirk - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida de Charlie Kirk - Metrópoles - Foto: Justin Sullivan/Getty Images

O assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, aliado próximo de Donald Trump, reacendeu o debate sobre a instrumentalização política da violência nos Estados Unidos. Enquanto líderes internacionais condenam o crime, especialistas alertam que o episódio pode ser explorado pela Casa Branca para reforçar discursos de medo e justificar medidas autoritárias.

Do México ao Reino Unido, passando pela Itália, Israel, Hungria e Argentina, vários líderes internacionais repudiaram o assassinato de Charlie Kirk. Mas foi do lado do presidente norte-americano que vieram as reações mais imediatas e severas.

Foi o próprio chefe da Casa Branca quem anunciou o assassinato de Kirk, uma figura conhecida da direita radical, morto a tiros na quarta-feira (10), enquanto discursava em uma universidade em Utah, no oeste do país. “Este é um momento sombrio para os Estados Unidos”, declarou Donald Trump, em um vídeo publicado em sua plataforma Truth Social horas após o assassinato de Kirk. O chefe de Estado disse que o ativista era um “mártir da verdade”, antes de avisar que seu governo “encontrará cada um dos que contribuíram para esta atrocidade e outros casos de violência política, incluindo as organizações que os financiam e os apoiam”.

Aos 31 anos, Kirk era um influenciador e militante bastante ativo, defensor de ideias ultraconservadoras. O chefe da Casa Branca escreveu em sua rede Truth Social que “ninguém compreendia melhor a juventude dos Estados Unidos da América do que Charlie”.

No entanto, segundo Romuald Sciora, diretor do Observatório Político e Geoestratégico dos Estados Unidos do IRIS (Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, na França), Kirk não era tão conhecido assim no país. “Ele era, de fato, um ícone para uma parte da juventude americana”, contextualiza o pesquisador. “Mas se você perguntasse a pessoas nas ruas de Nova York, nem todos o reconheceriam. Era preciso ser republicano, pró-MAGA [sigla para Make America Great Again, o slogan protecionista de Trump] e acompanhar os movimentos ativistas da extrema direita americana. Ele era conhecido, mas não era uma enorme celebridade, como tantas que existem nos Estados Unidos”, pondera.

‘Nação do espetáculo’

Mesmo assim, o pesquisador alerta que a morte de Kirk pode ser instrumentalizada pela Casa Branca. “Trump está, infelizmente, se aproveitando desse assassinato, porque isso claramente serve aos seus interesses”, denuncia. “E o que assusta hoje é ver bandeiras americanas a meio mastro por um jovem ativista assassinado. É triste, é uma tragédia. Mas essas mesmas bandeiras não são baixadas quando crianças são mortas em escolas, por exemplo”, compara o especialista.

“Não podemos esquecer que vivemos na ‘nação do espetáculo’, e Trump é o mestre nessa arte. Ele é um comunicador nato e vai usar esse episódio para reforçar a ideia de que a América está sitiada, que a violência está em toda parte e que, sim, ele tem razão em enviar a Guarda Nacional para Washington, Los Angeles e, em breve, para Chicago, Nova York e Nova Orleans. Isso será uma ferramenta de propaganda”, afirma Sciora.

Nos Estados Unidos, a morte de Kirk gerou reações que ultrapassaram o campo republicano. O ex-presidente democrata Joe Biden e a ex-candidata à presidência Kamala Harris condenaram rapidamente o assassinato. Uma reação que surpreendeu o especialista. “Ninguém merece ser assassinado como esse rapaz foi, é claro. Mas, daí a fazer discursos como os de Joe Biden e Kamala Harris, dizendo que ‘a América está mergulhada na violência e que precisamos combatê-la’, é adotar a mesma retórica de Trump”, analisa Sciora. “Eles ficaram em silêncio por seis meses, mesmo com a democracia americana sendo atacada de todos os lados pela atual administração Trump. Isso é seguir a linha da presidência. É um erro estratégico”, critica.

“Temo, de fato, que Trump aproveite esse momento para ir ainda mais longe. Como sabemos, há seis meses os Estados Unidos vêm caminhando para um regime semi-autoritário […]. Portanto, é evidente que essa administração pode usar o que aconteceu para avançar ainda mais nesse sentido”, alerta Romuald Sciora.

Leia mais em RFI, parceira do Metrópoles.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?