metropoles.com

Médico irá ajudar uma viúva a engravidar do marido morto

Ele coletou espermatozoides do cadáver de um homem, 10 horas após a morte. Agora a Justiça argentina aceitou a geração do bebê

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

istock
Jovem mulher gravida
1 de 1 Jovem mulher gravida - Foto: istock

Há cinco anos, um trem bateu no ônibus que Pablo pegava para o trabalho e o matou. Dez horas depois, o médico Santiago Brugo foi ao necrotério e tirou espermatozoides do cadáver do homem de 38 anos. Fez isso com a ordem judicial conseguida por Cecilia, com quem Pablo tentava um filho havia 7 anos e tinha começado um tratamento de inseminação em Buenos Aires. A Justiça autorizou agora Cecilia a engravidar do sêmen coletado do marido sem vida.

Se casos de inseminação post mortem são ainda pouco comuns, a história do argentino que começou a ser pai depois da morte é ainda mais rara. No dia 13 de setembro de 2011, o ônibus de Pablo passou sob uma cancela semiaberta para cruzar uma das linhas ferroviárias que ligam Buenos Aires à região metropolitana. A locomotiva destroçou a frente do veículo, descarrilou e bateu numa composição em sentido contrário. A colisão matou 11 e feriu 212. Ficou conhecida como Tragédia de Flores, referência ao bairro em que nasceu e cresceu o papa Francisco.

Pablo morreu 15 dias antes da planejada inseminação. Quando o atestado de óbito pareceu encerrar a busca de Cecilia pela maternidade, sua melhor amiga sugeriu que salvasse o sêmen do marido. Viúva havia duas horas, ela ligou para o médico com quem tinham feitos os exames, que apontavam obstrução nas trompas dela e a má qualidade do sêmen dele.

“Quando Cecilia me ligou, eu disse que precisaríamos de uma autorização judicial. O procedimento foi simples, pois dispensa anestesia. É feita uma incisão e retirada parte da polpa testicular”, disse Brugo ao Aliás. Quando terminou a coleta no cadáver, que nem foi retirado da bolsa mortuária, o médico correu para o laboratório. Surpreendeu-se com a quantidade de células em movimento, 11 horas depois da morte. Havia 5 espermatozoides móveis por campo, cerca de 1.000 no total.

Cecilia ponderou durante dois anos se usaria o material congelado. Há três anos, com o apoio das duas famílias, procurou o médico para dizer que tinha certeza. A disputa passou então à Justiça, que precisava permitir a inseminação. Em sua decisão, a juíza Celia Giaodanino considerou que Pablo “tinha a vontade firme de ser pai, desejo frustrado imprevistamente pelo terrível acidente em que perdeu a vida”.

A magistrada até pesou o principal argumento de quem critica o plano de Cecilia. Concordou que o documento assinado pelo casal “não menciona expressamente a possibilidade de continuar com as técnicas de fecundação depois da morte de um dos envolvidos”. Mas levou em conta os depoimentos de uma irmã, da mãe e de uma colega de trabalho de Pablo, que relataram seu sonho de ser pai. O principal fundamento para dar o ok foi um princípio jurídico básico: o que não está proibido é permitido.

“Isso resolve a discussão. Estava dentro do projeto de vida dele ter um filho. Ele manifestou seu consentimento, como em um testamento. Queria isso e não pôde fazer porque perdeu a vida na tragédia. É como alguém que pede para não ser mantido por anos com medicação se entrar em coma”, argumenta o constitucionalista Andrés Gil Domínguez, especialista em direitos fundamentais, cuja obra ajudou a embasar a decisão judicial.

No projeto do Código Civil argentino em vigor desde agosto de 2015, um artigo exigia que o consentimento para o prosseguimento da inseminação mencionasse expressamente a hipótese de morte. A Igreja pressionou pela supressão da lei de todo o tópico sobre o tema, para não estimular a concepção não convencional. Paradoxalmente, isso contribuiu para deixar o regramento mais permissivo e permitir a interpretação que favoreceu Cecilia.

A jurista Marisa Herrera ajudou a redigir o código e reprova a atuação dos juízes neste caso. “O que se fez neste caso deveria estar proibido. Se eu morro a caminho de me casar no registro civil, alguém pode dizer que o casamento se consumou porque se pode provar que eu pretendia me casar? A verdade é que nunca foi prestado o consentimento e o casamento não se realizou”, compara. Marisa ressalta que a vontade de ter um filho não significa querer deixar um descendente em caso de morte. “Ele disse que queria participar de um tratamento. Não autorizou sua mulher a extrair seu sêmen e a ter um filho que terá vínculo de filiação”, acrescenta a advogada. Para ela, trata-se de um desejo da família de Pablo ter um filho do morto. Uma dificuldade de processar o luto.

A advogada relativiza o valor da opinião dos médicos nesses casos. Acredita que eles estão interessados financeiramente em concluir a inseminação. Um tratamento privado na Argentina custa 70 mil pesos (R$ 17,4 mil), mas raramente recorre a ele quem não tem plano de saúde. Algumas províncias cobrem gratuitamente o tratamento.

O médico de Cecilia conta que a projeção do caso o colocou em dilemas em que a ciência permitiria seguir adiante – e cobrar por isso. “Uma senhora me ligou oferecendo um jato particular porque o filho tinha morrido e ela queria que eu congelasse o sêmen para ela ter um neto. Um homem fez proposta semelhante, mas não é correto. Sem consentimento expresso, não é permitido dar esse passo”, afirma.

Em 40 anos no ramo, Brugo havia feito este procedimento uma vez. As células reprodutivas masculinas então não foram usadas porque o morto, um espanhol que sofreu um ataque cardíaco na Argentina, não tinha documentado que queria ser pai. A partir da história de Pablo e Cecilia, ele crê que a anuência expressa em caso de morte se tornará mais comum. E prevê outras variáveis. “No futuro, será possível fazer o mesmo em caso de morte da mulher”, projeta.

Este mês, Cecilia passará pela inseminação interrompida em 2011 e tentará ser mãe aos 41 anos. A quantidade de espermatozoides de Pablo, que hoje teria 43 anos, é suficiente para várias tentativas.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?