Lenín rompe com a esquerda e culpa até Maduro por caos no Equador

Fugindo de protestos massivos, presidente equatoriano mudou sede do governo de cidade e responsabilizou o colega venezuelano pela crise

Rafael Rodriguez/NurPhoto via Getty ImagesRafael Rodriguez/NurPhoto via Getty Images

atualizado 08/10/2019 16:33

A crise política que explodiu no Equador em reação a um pacote de arrocho fiscal expulsou o presidente Lenín Moreno da capital, Quito, e o obrigou a pedir ajuda internacional para pacificar o país. Alvo de protestos desde o início de outubro, quando cortou subsídios em combustíveis e deixou que seu valor se elevasse em até 123%, o presidente se adiantou à chegada de dezenas milhares de indígenas que marchavam para a capital para se juntar aos protestos (imagem em destaque) e foi à TV na noite da última segunda-feira (07/10/2019) anunciar que havia transferido a sede de governo para a cidade costeira de Guayaquil, a 420 km de Quito.

Em entrevista a uma rádio local, o secretário particular de Moreno, Juan Sebastian Roldan, disse que o governo concorda com uma mediação internacional dos conflitos. “A única resposta para a crise é o diálogo. Não temos problemas em aceitar a mediação oferecida pela Organização das Nações Unidas, por membros da Igreja e por reitores de universidades”, disse.

O presidente também falou em diálogo com lideranças indígenas, mas resolveu culpar políticos de esquerda pela escalada da violência, em especial seu antecessor na presidência, Rafael Correa, e o ditador venezuelano Nicolás Maduro.

Veja cenas de protestos em Quito:

Sem mostrar provas, Moreno disse em cadeia nacional que os protestos eram orquestrados por Correa, com a ajuda de Maduro. “Essa não é uma manifestação de descontentamento. Os saques, o vandalismo e a violência demonstram que há a intenção de romper a ordem democrática”, disse o presidente.

Apesar dos protestos que só aumentam e já obrigaram Moreno a decretar estado de exceção e retirar algumas garantias constitucionais da população, o presidente segue afirmando que não voltará atrás no programa que ele afirma servir para “reativar a economia” e que foi uma exigência do Fundo Monetário Internacional (FMI), que emprestou 2 bilhões de dólares ao país.

Mais imagens da força dos protestos:

Os subsídios estatais aos combustíveis existem no Equador há pelo menos 40 anos e, segundo Moreno, custam aos cofres públicos 1,3 bilhão de dólares por ano. “A eliminação dos subsídios é histórica e tira das mãos de contrabandistas milhões de dólares. A decisão assegura uma economia sólida”, discursou Moreno, na TV.

As manifestações estão sendo reprimidas pelas forças armadas equatorianas e há diversas denúncias de abusos e violência. Pelo menos uma pessoa morreu durante manifestações e mais de 500 foram presas desde o início de outubro.

Relação conturbada
Lenín Moreno já foi aliado de Rafael Correa. Tão aliado que ocupou a vice-presidência do líder esquerdista, de 2007 a 2013, e foi apoiado por ele na eleição que venceu, em 2016. Após assumir, porém, o atual presidente (cujo nome é uma homenagem ao revolucionário soviético Vladimir Lenin), se afastou dos políticos de esquerda, rompeu com Correa e faz um governo de inspiração liberal na economia.

Em resposta às acusações do ex-aliado, Rafael Correa disse, segundo a emissora de TV TeleSur, “os golpistas são eles [grupo político de Moreno], que pisaram na Constituição quantas vezes quiseram”, acusou. Ainda segundo o ex-presidente, as acusações são “uma amostra da alienação que Moreno tem em todo o seu governo, que tem me culpado por tudo o que aconteceu nos últimos dois anos e meio”.

Últimas notícias