Ex-ministro de Defesa da Ucrânia pede eleições durante guerra
Destituído do cargo, Fedorov acusa governo de crise de governança e corrupção e diz que democracia não pode ficar “refém da Rússia”

O ex-ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, pediu, nessa terça-feira (18/8), a realização de eleições presidenciais no país, mesmo com a guerra contra a Rússia em andamento. A declaração representa um dos mais contundentes desafios políticos internos ao presidente Volodymyr Zelensky desde o início da invasão russa em 2022.
Em um vídeo publicado no YouTube, Fedorov afirmou que a Ucrânia atravessa uma “crise sistêmica de governança” e defendeu a criação de um mecanismo que permita retomar o processo democrático de forma legal e segura, mesmo durante um conflito prolongado.
A declaração é especialmente significativa porque, desde o início da invasão em larga escala, em fevereiro de 2022, nenhuma figura política ucraniana de grande projeção havia defendido publicamente a realização de eleições presidenciais durante a guerra.
Inclusive, a legislação ucraniana impede a realização de eleições nacionais enquanto estiver em vigor a lei marcial.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA lei marcial foi decretada por Zelensky em 24 de fevereiro de 2022, após o início da ofensiva russa, e permanece em vigor. A Constituição estabelece que o presidente é eleito para um mandato de cinco anos, mas a legislação prevê a continuidade das instituições durante períodos de lei marcial.
BREAKING: Former Ukrainian Defense Minister Mykhailo Fedorov called for restoring elections even during a prolonged war, saying Ukraine must find a “legal, safe and realistic mechanism” to resume the democratic process.
He argued that “democracy cannot be held hostage by Russia”… pic.twitter.com/gb19llnI6R
— Clash Report (@clashreport) August 18, 2026
Retórica coincide com argumento usado pelo Kremlin
- A defesa de eleições durante a guerra também ocorre em um terreno politicamente sensível para Kiev.
- Desde 2024, o Kremlin utiliza a ausência de novas eleições presidenciais para questionar a legitimidade de Zelensky e sustentar que seu mandato teria terminado.
- Zelensky foi eleito em 2019 para um mandato de cinco anos.
- Como não houve nova eleição em 2024 devido à lei marcial, Moscou passou a explorar o tema como parte de sua narrativa contra o governo ucraniano.
Desafio direto a Zelensky
As circunstâncias em que ocorre o pronunciamento tornam a situação ainda mais delicada. Aos 35 anos, Fedorov era considerado um dos principais aliados de Zelensky. Ele deixou o governo em julho, apenas seis meses depois de assumir o Ministério da Defesa, após uma passagem marcada pela promessa de promover reformas na estrutura da pasta.
Sua saída ocorreu em meio a divergências com a cúpula militar, especialmente com o então comandante das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi.
As críticas de Fedorov à condução da guerra e à estrutura de comando contribuíram para uma onda de protestos em cidades ucranianas, nos quais manifestantes chegaram a pedir a saída de Syrskyi e o retorno do ministro ao cargo.
Agora, fora do governo, Fedorov voltou a criticar o funcionamento do Estado. Sem citar autoridades específicas, acusou o sistema político de resistir a mudanças e afirmou que a corrupção entre agentes públicos prejudica diretamente o esforço de guerra.
“O velho sistema muitas vezes vive por suas próprias regras. Ele protege a si mesmo. Tem medo da mudança”, declarou.
Segundo Fedorov, as mudanças que tentou implementar nos processos de compras do Ministério da Defesa teriam contribuído para sua saída do governo.
Agora, Zelensky pode estar enfrentando o maior desafio político doméstico desde o começo da guerra.
O pronunciamento ocorreu poucas horas depois de Zelensky confirmar a indicação de Yevhenii Khmara para assumir formalmente o Ministério da Defesa, encerrando as especulações sobre um eventual retorno de Fedorov à pasta.
O apelo de Fedorov esbarra, porém, em obstáculos legais e práticos. A realização de eleições nacionais durante a vigência da lei marcial é proibida pela legislação ucraniana. O próprio Zelensky já afirmou que eleições poderão ocorrer quando houver condições de segurança e um cessar-fogo.



