Entenda o passo a passo da guerra tarifária iniciada por Trump
Desde que assumiu o seu 2º mandato, Trump inicou uma guerra tarifária com todo o mundo e, em especial, com a China. Entenda o conflito
atualizado
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Desde que assumiu o seu segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, instaurou uma política tarifária intensa. O líder, que defende tarifas como solução econômica há mais de 30 anos, criou uma guerra comercial com todo o mundo, e, em especial, com a China. Para entender o passo a passo dessa guerra tarifária, o Metrópoles ouviu três especialistas.
Maurício F. Bento, professor de economia internacional na Hayek Global College, explica que “a agenda tarifária do presidente Trump tem dois objetivos principais: diminuir o déficit comercial americano e trazer empresas para o país, gerando empregos. Além disso, as tarifas pressionam os demais países, sejam eles rivais dos EUA, como a China, ou aliados, como a Europa”.
O especialista destaca que, mesmo que em um primeiro momento pareça que a prioridade dele é a atração de indústria e a geração de empregos, dado o seu lema de ‘fazer a América grande novamente’, o objetivo principal parece ser geoeconômico e geopolítico, alterando profundamente a ordem mundial que vigora desde a segunda metade do século 20.”
O economista Romilson Aiache, professor na Uniceplac, explica que “guerras comerciais entre países sempre existiram. A diferença é que, desta vez, a ação americana foi muito agressiva. Evidentemente, o objetivo principal é retomar, ou reafirmar, o domínio econômico mundial, em virtude da perda de competitividade que a economia americana vem apresentando nas últimas décadas”.
André Andriw, economista e internacionalista, ressalta que “a agenda tarifária é, na verdade, uma promessa de campanha que ele (Trump) está buscando cumprir. O que sustenta essa agenda é a percepção do partido republicano de que os Estados Unidos estão sendo lesados por todos os países no comércio internacional ao promover práticas comerciais desiguais, portanto exige-se um basta e novos termos que beneficiem o povo americano”.
Aumenta a chance de recessão nos EUA
Para Andriw, os impactos de uma guerra comercial “são profundos nas relações internacionais, principalmente socioeconômico. O principal temor é de uma recessão global e uma corrida protecionista em todos os países”. “O Banco Goldman Sachs já elevou as chances de recessão nos EUA de 35% para 45%, ao passo que o aumento do custo de produção e importação impactará investimentos de muitas empresas em diferentes regiões, colocando em risco a geração de emprego e renda”, diz.
A guerra comercial entre EUA e China tem vários impactos negativos para a economia global, pois são duas das maiores economias do mundo.
“Os dois países têm as duas maiores economias do mundo e a cooperação econômica entre ambos gerou décadas de crescimento econômico. Podemos estar observando uma mudança histórica, em que as duas maiores potências deixam de ser aliadas e passam a competir por poder e influência no mundo. Assim, esse conflito pode levar a uma recessão global prolongada, afetando cadeias de suprimentos e aumentando os preços para consumidores em todo o mundo”, afirma Maurício F. Bento.
Segundo Romilson Aiache, “em um primeiro momento, a expectativa é que haja uma redução do comércio global, até que o cenário fique mais claro. Especialistas apontam para uma redução de cerca de 1% no comércio global para este ano, mas previsões mais apuradas somente poderão ser feitas após definidas efetivamente as tarifas para com todos os países, principalmente com a China”.
EUA X China
O conflito com a China, apesar de ser esperado, é o que mais assusta especialistas e investidores, pois são duas das maiores economias globais brigando para consolidar o seu espaço.
“A China é o principal competidor e parceiro comercial”, disse Romilson Aiache. “Trata-se, portanto, especialmente com a China, de uma queda de braço, cujo objetivo é melhorar a posição americana frente aos chineses.”
André Andriw afirma que a Ásia é o principal continente beneficiado pela globalização, pois as principais potências da região souberam articular uma estratégia econômica que favorecesse a atração de investimentos produtivos com foco exportador.
“Com os incentivos fiscais, cambiais, financeiros e laborais, a China atraiu empresas europeias e norte-americana, que diminuíram os investimentos nos países de origem”, explicou Andriw. “Embora eficiente do ponto de vista da corporação, isso gera uma externalidade negativa, pois interrompe-se o estímulo à geração de emprego e renda na origem.
O especialista explica que esse é o principal ponto: “geração de emprego e renda é um tema sensível para os norte-americanos, os quais tiveram uma classe média pujante no passado e atualmente não possuem o mesmo crescimento do poder de compra por causa da inflação”.
China tem musculatura
O professor de economia Maurício F. Bento afirma que “a guerra comercial entre EUA e China deve continuar no futuro próximo, com ambos os países mantendo suas posições firmes. Podemos estar testemunhando o fim de uma era de globalização e livre comércio”.
“Os EUA podem enfrentar maiores desafios devido à dependência de importações chinesas para vários produtos, enquanto a China pode sofrer com a redução de exportações para o mercado americano. No entanto, ambos os países têm muito a perder e o conflito pode se espalhar e afetar a economia de todo o planeta, inclusive o Brasil”, ressalta Maurício.
A China é, atualmente, o maior polo industrial do mundo, com 35% da produção industrial global, diz o especialista. “Portanto, exige mercados para vender os seus produtos. Por outro lado, os Estados Unidos são os maiores importadores do mundo e um dos principais destinos da produção chinesa.”
“No que tange às tarifas, vejo que a suspensão de 90 dias para muitos países é um sinal de que a maioria prefira negociar e evitar retaliações. No caso da China, vejo mais musculatura para aguentar essa ‘queda de braço'”, diz o especialista.
A China está preparada, diz o professor, em termos de reservas internacionais epossui um mercado interno que poderá atender a demanda no curto e médio prazo. “A situação é diferente nos EUA, que poderá ter índice inflacionário maior nos próximos meses”, afirma Andriw.
Informações privilegiadas
Trump, foi acusado, nessa quarta-feira (9/4), pelo senador democrata Adam Schiff de ter passado informações internas a investidores da bolsa de valores. Schiff pediu ao Congresso que uma investigação fosse aberta para analisar um possível “insider trading” relativo à pausa de 90 dias nas tarifas recíprocas aplicadas a alguns países.
Em relação a acusação, Maurício Bento explica que “embora haja especulações sobre ele ter repassado informações privilegiadas para tubarões do mercado financeiro, é difícil obter evidências para confirmar as acusações. Caso surjam evidências mais robustas, além das consequências legais para os envolvidos, isso poderia abalar a confiança na integridade do mercado”.
Já André Andriw destaca não ser possível cravar que Trump “agiu como um ‘insider trading'”. “O que podemos ver é que ele é um personagem do mundo corporativo que utilizará táticas agressivas de negociação e que fogem do espectro tradicional da diplomacia. Em teoria, aumentar as tarifas foi uma tática para machucar os competidores e forçar uma negociação.”
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