Em carta, Flávio se compara a Rui Barbosa, De Gaulle e líderes venezuelanos
Senador cita figuras históricas e opositores venezuelanos para sustentar narrativa de exílio político e se apresenta como presidente eleito

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou uma carta nesta quarta-feira (28/10), na qual se apresenta como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” e constrói um discurso de exílio político. No comunicado, divulgado após sua ida aos Estados Unidos, ele cita figuras históricas e lideranças políticas que atuaram no exterior em meio a perseguições, crises institucionais ou disputas pelo poder.
Entre os nomes mencionados estão o jurista brasileiro Rui Barbosa, o general francês Charles de Gaulle, o escritor cubano José Martí e os opositores venezuelanos Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado.
Ao aproximar trajetórias distintas, Flávio procura sustentar a ideia de que líderes afastados de seus países podem continuar atuando politicamente mesmo fora de seus territórios.
Logo no início do texto, o senador agradece ao presidente da Argentina, Javier Milei, e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela recepção. “Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher”, escreveu.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesNa sequência, Flávio se dirige ao povo brasileiro e à comunidade internacional, reivindicando para si a condição de presidente eleito. A declaração reforça a tentativa de apresentar sua situação como resultado de uma disputa política, em vez de um afastamento voluntário da vida pública no Brasil.
Vitória de Lula foi confirmada pelo TSE
- O resultado da eleição presidencial contrariou a reivindicação de Flávio.
- No segundo turno, realizado em 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, o equivalente a 64.256.232 votos. Flávio recebeu 48,21%, ou 59.826.041 votos, uma diferença de aproximadamente 4,43 milhões de votos.
- A vitória de Lula foi confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e reconhecida pelo próprio Partido Liberal (PL), legenda de Flávio.
- Em nota assinada pelo presidente do partido, Valdemar Costa Neto, a sigla aceitou o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral, embora tenha defendido o esclarecimento dos questionamentos levantados durante a disputa.
- Outros partidos que apoiaram Flávio no segundo turno também reconheceram a vitória petista.
- Republicanos, MDB, União Brasil e PSD defenderam o respeito à decisão das urnas.
Figuras históricas e opositores venezuelanos
A referência a Rui Barbosa e Charles de Gaulle mobiliza personagens cujas trajetórias foram marcadas por crises políticas e pela atuação fora de seus países. Rui Barbosa, jurista e político brasileiro, viveu no exterior durante parte de sua trajetória, inclusive em meio a conflitos com o governo de Floriano Peixoto. Já De Gaulle liderou, a partir do exílio em Londres, a resistência francesa à ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
José Martí, por sua vez, foi um intelectual e líder independentista cubano que passou períodos no exílio em razão de sua oposição ao domínio espanhol. Sua atuação política e intelectual no exterior esteve ligada à mobilização pela independência de Cuba.
Os exemplos venezuelanos aproximam a carta de disputas políticas mais recentes na América Latina. Juan Guaidó se declarou presidente interino da Venezuela em 2019, em contestação ao governo de Nicolás Maduro, e posteriormente deixou o país. Edmundo González foi reconhecido por setores da oposição como vencedor da eleição presidencial venezuelana de 2024, cujo resultado oficial proclamado pelo Conselho Nacional Eleitoral deu a vitória a Maduro.
María Corina Machado, principal liderança da oposição venezuelana, também enfrentou restrições políticas e judiciais no país.
Embora os nomes citados tenham enfrentado circunstâncias distintas, a escolha permite a Flávio associar sua própria trajetória à de figuras que reivindicaram legitimidade política ou mantiveram a oposição a governos de seus países a partir do exterior.






