Cientistas alertam que estamos a 100 segundos do juízo final. Entenda

Relógio do Juízo Final foi divulgado na última quinta-feira (20/1). Ponteiro se manteve estável, mas previsões são pessimistas

atualizado 26/01/2022 7:23

Foto: Thomas Gaulkin/Boletim dos Cientistas Atômicos

Faltam 100 segundos para o fim do mundo. Essa é a mais recente previsão do Relógio do Juízo Final (Doomsday Clock, em inglês), divulgado na última quinta-feira (20/1) por acadêmicos americanos do Boletim dos Cientistas Atômicos.

Ainda que mais otimista que a célebre e romântica canção Um Minuto Para O Fim Do Mundo, da banda CPM 22 – que prevê “uma volta no ponteiro do relógio [ou seja, 60 segundos] para viver” –, a situação da humanidade está longe de ser confortável, avaliam os cientistas. Cem segundos é a pior marca de toda a história do Relógio do Juízo Final, publicado pela primeira vez há 75 anos.

O indicador é o mesmo dos últimos dois anos (2020 e 2021), mas, ao se analisar uma série histórica mais ampla, estamos cada vez mais perto do apocalipse. Em 1991 faltavam 17 minutos; em 2002, sete; e em 2015, três.

“Estamos presos em um momento perigoso – que não traz estabilidade nem segurança”, explica a professora da Universidade George Washington Sharon Squassoni, co-presidente do Conselho de Ciência e Segurança do Boletim dos Cientistas Atômicos.

Entenda

Para entender, o Relógio do Juízo Final é atualizado todo ano pelos cientistas do Boletim. O indicador foi criado em 1947 pelo cientista Albert Einstein e por pesquisadores da Universidade de Chicago que participaram do Projeto Manhattan e, desde então, tenta demonstrar o quão perto a humanidade está de se destruir. Naquele ano, faltavam sete minutos para o fim do mundo.

Série histórica do Relógio do Juízo Final, divulgado pelo Boletim dos Cientistas Atômicos

É como se tudo o que aconteceu em nosso planeta fosse compactado em um único ano. A vida teria surgido no início de março, organismos multicelulares em novembro, dinossauros no final de dezembro, e os humanos pouco antes de 23h30 das vésperas de Ano-Novo. Assim aprendeu, e nos ensina, o pesquisador SJ Beard, da Universidade de Cambridge.

“Em seguida, ela [a professora de Beard] comparou essa grande faixa da história com o quão curto nosso futuro pode ser, e nos contou como um grupo de cientistas nos EUA pensou que poderíamos ter apenas alguns minutos metafóricos restantes até a meia-noite”, explica Beard, em artigo publicado na BBC Future.

Na prática, tudo isso se trata de um símbolo de perigo, de cautela e de responsabilidade.

“[É um alerta ao] público sobre o quão perto estamos de destruir nosso mundo com tecnologias perigosas de nossa própria autoria. É uma metáfora, um lembrete dos perigos que devemos enfrentar se quisermos sobreviver no planeta”, disse o ex-diretor executivo do Boletim Kennette Benedict.

Instável

O tempo é baseado em ameaças contínuas e perigosas representadas por armas nucleares, mudanças climáticas, tecnologias disruptivas e, agora, a Covid-19.

No ano passado, de acordo com os cientistas atômicos, todos esses fatores foram exacerbados por “uma ecosfera de informações corrompidas que prejudica a tomada de decisões racionais”. Nem mesmo a eleição do presidente Joe Biden, nos EUA, que acredita nas mudanças climáticas e se comprometeu a mitigar as emissões globais, melhorou as perspectivas sobre o fim da humanidade.

Dessa maneira, se manter em 100 segundos para o Juízo Final não sugere que a situação de segurança internacional tenha se estabilizado. Pelo contrário, “o relógio permanece o mais próximo que já esteve do apocalipse da civilização”.

“O relógio não é ajustado por sinais de boas intenções, mas por evidências de ação ou, neste caso, inação. Os sinais de novas corridas armamentistas são claros”, afirma Scott D. Sagan, da Universidade de Stanford.

“A experiência de uma crise cada vez mais profunda animou protestos e outras manifestações de alarme da sociedade civil este ano. Essas ações concentram a atenção do público nas mudanças climáticas e aumentam sua relevância política, mas se elas transformarão políticas, investimentos e comportamentos permanecem entre as questões mais importantes que a sociedade global enfrenta”, complementa o professor Raymond Pierrehumbert, da Universidade de Oxford.

Recomendações

Os cientistas do Boletim listam uma série de passos para afastar a humanidade de seu fim.

“No ano passado, esperávamos o fim da pandemia do Covid-19, mas esse fim ainda não está à vista. Os líderes dos países mais ricos e avançados não agiram com a velocidade e o foco necessários para gerenciar ameaças terríveis ao futuro da humanidade”, relatam os acadêmicos.

“Nossa decisão de manter o Relógio do Juízo Final em 100 segundos para a meia-noite é um aviso claro para o mundo: precisamos nos afastar da porta da perdição”, ressaltam.

Confira, a seguir, os principais passos:

  • Os presidentes da Rússia e dos EUA devem identificar limites mais ambiciosos e abrangentes para armas nucleares e sistemas de lançamento até o final de 2022. Ambos devem concordar em reduzir a dependência de armas nucleares;
  • Os Estados Unidos e outros países devem acelerar sua descarbonização, combinando políticas com compromissos.
  • A China deve dar o exemplo ao buscar caminhos de desenvolvimento sustentável – sem projetos de uso intensivo de combustível fóssil;
  • Os EUA e outros líderes devem trabalhar por meio da Organização Mundial da Saúde e outras instituições internacionais para reduzir os riscos biológicos de todos os tipos por meio de um melhor monitoramento das interações animal-humano, melhorias na vigilância e notificação de doenças internacionais e aumento da produção e distribuição de suprimentos médicos;
  • Os Estados Unidos deveriam persuadir aliados e rivais de que não usar armas nucleares pela primeira vez é um passo em direção à segurança e estabilidade e então declarar tal política em conjunto com a Rússia (e a China);
  • O presidente Biden deve eliminar a autoridade exclusiva do presidente dos EUA para lançar armas nucleares e trabalhar para persuadir outros países com armas nucleares a colocarem barreiras semelhantes;
  • A Rússia deve voltar a integrar o Conselho OTAN-Rússia e colaborar em medidas de redução de risco e prevenção de escalada.
  • A Coreia do Norte deve codificar sua moratória em testes nucleares e testes de mísseis de longo alcance e ajudar outros países a verificar uma moratória na produção de urânio enriquecido e plutônio;
  • O Irã e os Estados Unidos devem retornar conjuntamente ao pleno cumprimento do Plano de Ação Abrangente Conjunto e iniciar novas e mais amplas conversações sobre segurança no Oriente Médio e restrições de mísseis;
  • Os investidores privados e públicos devem redirecionar os fundos de projetos de combustíveis fósseis para investimentos favoráveis ​​ao clima;
  • Os países mais ricos do mundo devem fornecer mais apoio financeiro e cooperação tecnológica aos países em desenvolvimento para empreender uma forte ação climática. Os investimentos na recuperação da Covid devem favorecer os objetivos de mitigação e adaptação climática em todos os setores econômicos e abordar toda a gama de potenciais reduções de emissões de gases de efeito estufa, incluindo investimentos de capital em desenvolvimento urbano, agricultura, transporte, indústria pesada, edifícios e eletrodomésticos e energia elétrica;
  • Os líderes nacionais e as organizações internacionais devem conceber regimes mais eficazes para monitorar os esforços de pesquisa e desenvolvimento biológicos;
  • Governos, empresas de tecnologia, especialistas acadêmicos e organizações de mídia devem cooperar para identificar e implementar maneiras práticas e éticas de combater a desinformação e a desinformação viabilizadas pela Internet;
  • Em todas as oportunidades razoáveis, os cidadãos de todos os países devem responsabilizar seus funcionários políticos locais, regionais e nacionais, líderes empresariais e religiosos, perguntando “O que você está fazendo para lidar com as mudanças climáticas?”.

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